Página Preta
quinta-feira, outubro 31, 2002
 
Mais uma vez, Drummond serve como uma luva.

Consolo na praia

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
 
 
Essa foi uma das primeiras poesias pela qual me apaixonei. Viajava na beleza e na brincadeira singela com as palavras enquanto a minha estúpida professora de literatura contava as sílabas métricas pra chegar à conclusão de que eram versos livres. Mais livres impossível, eu vi logo de cara. E comecei a gostar cada vez mais da sensação de ficar sem palavras diante de um texto que diz o que eu não sabia que sentia.
Já havia lido Drummond na “Obscura Biblioteca do Quarto de Despejo”. Havia uma estante repleta de livros de literatura, política, sexo, jornalismo, receitas, primeiros socorros lá em casa. E eu lia absolutamente de tudo. Passava muitas horas lá dentro. Li meus primeiros poemas lá, do livro Corpo, de Drummond. De bobeira, como lia revistinhas da Mônica. Pegava os livros didáticos da minha mãe, que era professora, e procurava, na parte de literatura, trechos de contos, crônicas e poesias pra ler. Lia também muito Fernando Sabino, boa parte da coleção “Para gostar de ler”, coleção Vaga-Lume, Hermann Hesse, “A menina que comeu Césio”, sobre o acidente em goiânia, “As dez maçãzinhas”, de sacanagem, “Receitas para micro-ondas”, “A Faca no Peito”, da Adélia Prado (que odiei, aliás. Detestava o nome Jonathan). Sempre chorava quando relia o livro da viúva do Hélio Pelegrino que ela escreveu sobre a ausência dele. Mas a maior paixão que tirei da “Ultra-obscura Biblioteca do Quarto de Despejo” foi mesmo Drummond, quando ainda era muito pequena pra ler Drummond, acho.

Então, 100 anos, aí vai o primeiro poema:


O Amor Bate na Aorta
Carlos Drummond de Andrade

Cantiga do amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
Hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta
O amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

 
terça-feira, outubro 29, 2002
 
Entre a cruz e a espada, nada, ferro e fogo marcando meu lombo gordo, sorriso são – de dor. O que mais eu sinto, de estar neste mundo, de vagar na cidade, de pensar que enxergo?
Que mundo enxergo? Com sorriso sincero, ruminando o que enxergo, marcada a ferro, com a letra COR – de vasto.
 
 
Me perdôe a distância do meu tom, dos meus gestos. Sou mesmo distante, venho de léguas, sofro de rapidez, ganho de conter minutos, segundos, fragmentos, quando penso. O resto é sempre perdido antes do salto, pelo único prazer de estar no ar. Quase vôo a que me entrego de uma vez, a cada vez, como se não fosse breve e medíocre o salto no escuro, puro medo de voar. Coragem? Não, é o mesmo medo, de não sangrar.
 
 
Um torneiro mecânico é presidente do Brasil. E tem gente que acha ruim. Isso é maravilhoso. Fora que eu nunca vi nada igual, as pessoas comemorando, confiantes, esperançosas... Mas a melhor parte foi a ferrada que a Regina Duarte levou. Pau no cu da Regina Duarte!!!!!!!!!!!!!!!!! (desculpem os modos)
 
segunda-feira, outubro 28, 2002
 
Poesia
ACC

jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta
 
 
MEU CORAÇÃO
Frank O'Hara


Não vou chorar o tempo todo,
também não vou rir o tempo todo
não prefiro um "gênero" ao outro.
Quero ter a imediatez de um filme ruim,
não só os de repente bons, mas também a nova
super-produção recém-lançada. Quero estar
tão vivo quanto o que é vulgar, pelo menos. E se
algum aficcionado da minha tralha vier a dizer:"Isso
mal parece que é do Frank!", ótimo! Eu
não uso terno cinza ou marrom o tempo todo,
uso? Eu não. Vou à ópera de camisa,
muitas vezes. Quero os pés descalços,
o rosto barbeado, e o coração —
não dá pra planejar o coração, mas
a melhor parte dele, a minha poesia, é aberta.
 
sábado, outubro 26, 2002
 
"Um olho mira um olho fecha desejo é flecha a mão arrisca. Um olho vê um olho cega a bala, a mão, a mira, a espera, o disparo. Meu coração atira ao alvo errado e acerta. Um olho vendo,um olho veda,desejo é fera a mão atiça..."

Roleta Russa - Adriana Cacanhotto
 
 
Falar em Dearest,

Quem mais eu ia encontrar, perdida e calma, num festival de música?
 
 
"Sensação fria, como olhar no olho e só ver reflexo."
Dela.
 
 
Sensação fria, como olhar no olho e só ver reflexo.
 
 
Ela não fala mais. Ela olha, e talvez não veja. Talvez não sinta o resto. A presença, o olhar, as tentativas de tratá-la bem, de fazê-la feliz, de dar-lhe carinho. Menos mau. Essas sutis tragédias que vivemos juntos fingindo felicidade, fingindo ter alicerces pra segurar o óbvio sem vacilar, sei lá o que fazem. Nos expõem. Fingimos juntos que sabíamos desde sempre, e sabíamos, mesmo absurdados diante de tudo. Mesmo quando o previsível tira o tapete e, só pelo vexame, fingimos que não caímos. Fingimos juntos, para todos, um para o outro, para ela, uma mentira comum e particular. Fingimos tanto que compreendemos, e fingimos, outra vez, nos acreditar mutuamente.
 
terça-feira, outubro 22, 2002
 
"Minha falta é plena
Minha vez é quando"

Cacaso
 
 






Claro!
 
segunda-feira, outubro 21, 2002
 
Educação Católica

"Levo à comunidade desta escola o agradecimento de dezenas de pessoas que tiveram o frio exorcisado por suas doações."
 
 
Vende-se

2 bicicletas
1 corsa
1 brasília
 
domingo, outubro 13, 2002
 



Brand New

Olhos nos olhos
teu sorriso prende
Os teus braços o meu ninho
Você, na cabeça



Brand old

Lavo sua única toalha a mão, ou,
Quando chego, tenho toalha limpa.
Foi-se o tempo, querida.
Hoje o mundo é
Vasto, tudo.
Eu me pergunto quando chegará o dia em que sobrará amor.
Antes que pergunte, é pelo tempo. Out of time, RUNNING.
 
 
Tatiana, quando você crescer, vai abrir a boca e se encher de lua. Vai caber.
 
 
O mundo engana a gente. O mundo vira a cabeça de ponta-cabeça, a cabeça inverte as coisas, vira o mundo gira junto, anti-horário, como o mundo anda.O mundo anda e a cabeça fica. As coisas vão, voltam, invertem, voltam, rápido e voltam muito. E tudo que era... Era. Fica marcado, mas era. Escapa, vai, porque tem que ir. E muitas vezes não volta, inverte, sonha e salta. Nada passou e acabou. Quando acaba, deixa de existir mesmo na lembrança. A lembrança traz coisas de volta. E você acha que escapa, mas não. Cola, gruda e volta, sempre, rápido na memória. E muda, de novo, o curso de tudo. Do mundo. E quem disse que é em sentido horário, lenta e grande, ano a ano, a cada estação, dia a dia, que a terra gira?
 
 

Existencial

"Pequenininha, a joaninha também briga, não é? Todo mundo briga, e aparecem com galos daqueles vermelhinhos aqui ó (apontando a testa), de verdade. É nesse mundo que agente existe?"
 
sábado, outubro 05, 2002
 
Drops da Fal (será que pode?)

"Nada é mais surreal do que encontrar com a ex-sogra no metrô. Nós nos encontramos na porta do vagão. Eu entrando, ela saindo. Ficamos nos olhando a poucos centímetros uma da outra por intermináveis segundos. Depois eu entrei, ela saiu e a vida continuou."
 
 
Drops da Fal (será que pode?)

"Nada é mais surreal do que encontrar com a ex-sogra no metrô. Nós nos encontramos na porta do vagão. Eu entrando, ela saindo. Ficamos nos olhando a poucos centímetros uma da outra por intermináveis segundos. Depois eu entrei, ela saiu e a vida continuou."
 
quinta-feira, outubro 03, 2002
 
Rise & shine
(The Cardigans)

I want to be alone for a while
I want earth to breathe to me
I want the waves to grow loud
I want the sun to bleed down

See the waves go down
See the moon alone
See the world unshown
I raise my head and whisper

Rise and shine
Rise and shine my sister

I want to see the wounded moon
I want the sea to break through
I want it all to be gone tomorrow
So I've come to say goodbye...
 
quarta-feira, outubro 02, 2002
 
Rincão do Céu

A estrela
velha
facha seus olhos turvos.

A estrela
nova quer azular a sombra.

(Nos pinhos do monte
há vaga-lumes)

Garcia Lorca
 
terça-feira, outubro 01, 2002
 
Dez mandamentos anti-paranóia:

-Não vou mais falar sobre trabalho fora do horário de trabalho.
-Não vou mais pensar o que tenho de fazer no trabalho no dia seguinte quando for dormir.
-Não vou mais sentir um soco no estômago porque alguém está puto comigo no trabalho.
-Não vou mais sentir um soco no estômago porque errei alguma coisa no trabalho.
-Não vou mais falar de trabalho no blog, porque isso é ridículo.(hã hã...)
 
 
Período eleitoral:
-Mãe, em quem você vai votar?
-No Lula, filha.
-Eu também, mãe.

Depois:
-Mãe, eu vou votar em você!
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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