Página Preta
sábado, dezembro 28, 2002
 


Tatiana,

Me disseram que você enxerga como se tudo fosse de pedra, em preto e branco, sem cheiro e sem calor. Imagino como seria a avenida Paraná sem cheiro. Um shopping center, você deve enxergar. Com um burburinho constante, sem definir sons e vozes, como as dos homens que gritam na avenida Paraná.
Você sabe que quando crescemos o mundo vira outro? Que bebemos cachaça pra dançar? E que andamos de jeito esquisito porque pensamos em como os outros estão nos vendo andar? Eu, por exemplo, pequena Tatiana, uso óculos escuros pra poder olhar para os olhos sem disfarçar. O maior disfarce. Sempre tenho que me preocupar em não virar o rosto ao olhar, não é? Ou então iriam me descobrir...
Mas nada como a esbelta senhora em que me transformarei. Não somos mesmo nós quando crianças. Ou quando velhos.
Você sabia que quando você ficar velha vai pensar diferente? Vai enxergar diferente, vai ouvir diferente, vai andar diferente. Seu tato será outro e, quando te abraçarem, será de outro jeito.
Mesmo as coisas que você escutar, também estarão velhas. O volume estará mais baixo, pelo menos.
E quando ficarmos velhas, Tatiana, será que os anjos virão nos visitar? Seremos pobres mulheres com medo da morte. Como hoje temos medo do escuro. Talvez alguma criança menos educada diga que não quer um abraço, porque a pele é esquisita, mole, cheia de dobras e áspera. É verdade mesmo...
E não corra, Tatiana. Porque eu vou segurar seu braço pra contar o que quero. Não é pra correr ou baixar os olhos. É simples assim: uma verdade. Não sinta medo só porque meus olhos não tem rumo. Talvez quando você for velha fique assim. Quando esperar seus filhos fazerem compras conversando com estranhos no banco em frente ao caixa do supermercado. Quando você for velha seus filhos não terão onde deixá-la para ir fazer compras. Quando você for mãe, dirá aos seus filhos que eles fracassaram. Tantas vezes quantas forem necessário para saciar sua mágoa pelo fracasso dos seus filhos. Quando você crescer, vai abrir a boca e se encher de lua. Vai caber. Quando você crescer, vai caber tudo o que não quiser em você. E isso é natural, Tatiana. É muito normal nas famílias que existem por aí. Você será assim e não sentirá culpa. Sim, querida, a gente apodrece muito rápido mesmo. A propósito, é Tatiana o seu nome, não é?


 
sexta-feira, dezembro 27, 2002
 
Tudo calmo no país das maravilhas. Rá, “maravilhas”... Tudo calmo, enfim. Doroty continua feliz para sempre e Lori Lambe não saiu do lugar. Entra ano, sai ano, a mesma loucura. Dizem os astrólogos que 2003 será calmo para os aquarianos. Rá! Calmo, aquário. Só se for o do peixinho aqui de casa. Não que eu não queira calma. Tudo que eu queria era um pouquinho mais de calma. Mas eu me conheço. Agora que me conheço, sei que na próxima esquina vai passar um trem. De duas uma: ou ele me passa por cima ou eu passo por cima dele. Tudo bem, eu podia entrar, dar uma voltinha, mas é muita calma pra mim. Talvez esteja aqui de castigo, como Ulisses colocou a outra Lori. Só que sem Ulisses. Bom, a vida continua pra todo mundo e eu continuo dançando como uma louca. Talvez nem tenha percebido meu castigo. Não aprendo a lição. Mas esse ano vou entrar na academia da Pola, vamos fazer musculação (!), vou comprar uma bicicleta e talvez casar. Talvez um carrinho, mudar de casa, pelo menos. Olho pra trás e custo a crer que tenho 22 aninhos. Nem faço retrospectiva, pra não desesperar. Começo pela última passagem de ano, eu buscando GH às 23:40 na porta da Telemarte. E acabo o ano aqui, nem sei como, nem sei de nada. Dá medo do que me espera no próximo verão. No próximo agosto. Socorro! Alice, segure forte a minha mão antes de entrar no buraco do coelho. É com você que vou dormir esta noite.
 
quarta-feira, dezembro 25, 2002
 
Ah, antes que eu me esqueça, muito feliz natal e próspero 2003 pra todo mundo. é que não gosto muito dessas datas não. Sei lá porque. Nada dramático não. Ninguém morreu, ninguém cometeu suicídio, eu não tenho nenhum trauma. Mas acho um saco e fico meio melancólica.
Só é bom pela Menina Maluquinha. Aliás, é maravilhoso.
 
 
O mundo é azul -
de que cor é o amor?
O mundo é blues,
o amor dói muito mais.
 
 
Foi dia 24 de dezembro, o encontro de assombrar. Na catedral, claro. Doze anos depois, quem não tem uma música assim? Sempre haverá uma música pra amores assim.


 
 
Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia.
Oceanchild
Seashell eyes, windy smile
Morning moon, touch me
Sleeping sand, silent cloud, touch me
So I sing a song of love.
 
quinta-feira, dezembro 19, 2002
 
COMENTÁRIOS NEGATIVOS OU POLÊMICOS SERÃO SOLENEMENTE IGNORADOS NESTE BLOG QUANDO FEITOS POR ANÔNIMOS. SE VAI CRITICAR OU CONTRARIAR, QUE PELO MENOS TENHA CORAGEM DE DIZER QUEM É. CASO CONTRÁRIO, A GENTE PENSA QUE NEM O ANÔNIMO ACREDITA NO QUE DISSE.
 
 
"Bailarina, enquanto você duvida do próprio adestramento, assombrada pelo temor da estréia, enquanto você se move em mito, criado pelo gesto e jeito que extasia (...), o homem do camarote oficial e ocasional (...) nunca perceberá a liberdade dos seus pés, conquista dos exercícios lancinantes, nunca conhecerá seus labirintos de dúvidas, transformadas em instrumentos de audácias, nunca frequentará seus bastidores, onde os corações se afliguem disparados."

Do Ricardo Teixeira de Salles, no Hoje em Dia de hoje. Talvez ele tenha dito muito mais do que pensa.
 
 
Duas de Udo Baingo, do Balaio de Textos

Pegue às cinco

Naquele cruzamento a direção
Poderá faltar a qualquer rã
Com a lanterna apontada para
O céu, capturando insetos
Que pegam ônibus às cinco.
E às cinco os lábios serão
Mais vermelhos e ásperos,
Enquanto que seus cabelos
Mais quentes e perfumados;
Minha mão, mais trêmula...
Sua pele, mais branca,
O adeus, mais brando e
O caminho, mais acinzentado.
Pegue às cinco a mão,
Os lábios e o ônibus.



Tá na mesa

Tu agora já sabes
Que nomeio teu Carma
E que faço tua cama
Sem manias de clima
Ou mentiras, chacinas, chazinhos...
 
quarta-feira, dezembro 18, 2002
 
É estranho. Mas estou feliz por você. É estranho ficar feliz por você.
 
 
Do Linus Boy (posso dizer que é Lindus também? com todo o respeito!), provavelmente o melhor presente de natal que já ganhei. Até chorei!


Para

Ana que quando escreve
Cuida da cria
Sorri de saquê
Passeia na praça
Ou ganha um buquê

Ana que quando pode
Sai sem dizer
O porquê

Ana que quando está por perto
Amamenta
Crias alheias
 
terça-feira, dezembro 17, 2002
 
Tem tempo, moço, tem tempo que não me sento assim, pra contar um caso. E eu gosto de contar caso. Mas não tem tempo. Antes o tempo não faltava. Antes era só tempo pra gastar pra chegar no fim. Porque é assim a vida né, moço. Agente gastando tempo pra chegar no fim. Agora não sei se o fim chega mais depressa ou se a vida é que é mais cheia. Às vezes eu penso que o dia corre mais depressa, que o mundo roda mais rápido e agente não nota. Que o sol vai de ponta a ponta no céu tão rápido e a gente acha que é só impressão. Pois sim, tem tempo, tem muito tempo que não me sento e tenho alguém pra ouvir um caso meu. Pois é...
 
 
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
Parecia que o disco tinha arranhado. As roupas fedendo, as toalhas escurecendo, eu chegando a conclusão de que preciso de um agasalho novo pela milésima vez, em pleno verão. É um alívio ver um pedacinho de azul no céu.
 
domingo, dezembro 15, 2002
 
Um risco, um passo, um gesto rio afora....
 
 
"e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto"

 
 
Eu te vi, perdi o prumo. "Ana, querida, não se atreva a fazer previsões." Não existe rumo, essa vida, esse delírio. Não existe certo, incerto, errado. "Invente o mundo, Ana." Não gostei do que vi. Fui embora. Pra isso serve esquecer. Eu te vi, perdi o esquecimento. "Achou que ia sair impune?" E se eu passar batido? Não é pra isso que serve essa vida, esse delírio. "Você tem de inventar um rumo, Ana, e fingir que é real."
 
sexta-feira, dezembro 13, 2002
 
As deusas trocando sorrisos sobre poemas que eu nunca li. Malditos. Eu, sempre silêncio, num olhar que grita baixo demais para os tímpanos de alguém. As deusas despencam do Olimpo, se é que lá é alto. monogamia, politeísmo, nada dá certo mesmo.
 
domingo, dezembro 08, 2002
 
Sem assunto de tudo. Calminha, calminha. Voltei pra minha vida, e achava que ela era boa, achava que ia ser bom voltar.
 
 
E o pior, Ângela, é que eu ignoro todas as regras anteriores...

"Mas não deixe de tentar. Eu quero um frio na barriga que persista, na saúde e na doença. Na pobreza e na riqueza. "
 
quinta-feira, dezembro 05, 2002
 
Tem de saber perder, né. De preferência sem envolver que não tem a ver, sem procurar culpa, sem bode espiatório. Fica mais elegante. Tem de admitir quando erra, preservar quem está em volta, quem é amigo, quem tenta ajudar. É feio, é muito feio se aproveitar de situações, de posições, de amizades, de confidências. Fazer chantagem. É muito feio noticiar para o mundo um problema que é seu, do qual tem outra pessoa que faz parte, tentar fazer as pessoas tomarem partido, serem contra ou a favor. Não é assim que as coisas são. É muito feio tomar partido, ainda mais quando só se ouve um lado da questão, ainda mais quando o lado que não foi ouvido merece consideração.
É também muito ruim quando acaba. E nem sempre quem coloca o ponto final é o vilão. As vezes é simplesmente quem tem coragem de acabar com um sofrimento ao qual os dois já se acostumaram. Agente se apega até ao sofrimento. E o fato de não dar certo não quer dizer que alguém é louco. Ou que não sabe o que quer. Sabe pelo menos o que não quer. Já é um bom começo.
 
quarta-feira, dezembro 04, 2002
 
RFFSA
Santa Terezinha de Minas, as cores estendidas nos quintais, igreja, praça, casas em tom de terra, telhas escurecidadas, crianças em tom de terra, gente de olhos apertados, rugas.
 
 
"É difícil seduzir os que têm asas." Caio Fernando, O Ovo Apunhalado
 
 
Tem umas coisas que eu queria dizer mas que não saem. Você sabe, todos sabem. Tem sempre essas coisas que queriam gritar e ficam em algum ponto entre a boca, o esôfago e o seio direito. Não me escutam. Não me deixam falar e eu fico presa no quarto 2 x 2 do hotel barato, de um lado pro outro pela janela, música, tv, a luz esquentando minha cabeça e eu nem fumo. Foda. Eu bebo mas não tem bebida e eu ia me sentir mal de beber assim, sozinha, deliberadamente pra ver se resolvo meus problemas de personalidade mais freudianos, se paro de querer dizer minha vida por aí ou se grito de vez pra depois dormir e ver que não adianta dizer nada se ninguém quer escutar. Eu quero você.
 
 
"Uma mulher
bêbada prima
quer?
uma chávena de chá? é muito mais ordinária
mais açúcar prima? do que prima
um homem
está bem assim? bêbado"

Adília Lopes
 
 
Já sei namorar, já sei beijar de lingua, agora só me resta sonhar.
 
 
Finalmente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Muito bom estar em casa. Não aguentava mais sem escrever. As coisas explodindo na minha cabeça, como de costume. Eu fazendo tipo e implodindo, sem nem escrever! AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Pena que não dá pra gritar pelo computador!
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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