Página Preta
quarta-feira, janeiro 29, 2003
 
De Prestes para Olga
Fragmento de carta do livro “Anos Tormentosos"

“Rio de Janeiro, 16/07/1937,

Minha pequena querida,

Escrevo-te, hoje, para enviar-te notícias e para responder tua bela carta de 2 de junho, a qual, como as outras anteriores, me proporcionou uma grande alegria. Imagina que não tenho aqui ao menos um pequeno dicionário de francês... Preciso, portanto, de uma grande coragem e uma imensa vontade para escrever em nossa linguagem comum.
Falemos, antes de tudo, de nossa pequena Anita Leocádia. Tu me perguntastes em tua carta se gostei do seu nome. Mas ainda na minha primeira carta, é verdade que de uma maneira indireta, eu te dizia de como estava feliz com o seu nome. Naturalmente, eu teria lhe dado o nome de Olga Leocádia. Mas tua imaginação, bem mais rica do que a minha, encontrou um nome de significado mais amplo e bem mais justo para o momento e a situação. E Olga ela será sempre, porque ela é uma parte de ti mesma, um verdadeiro milagre de tua dedicação e de teu amor. Hoje já não posso ver-te sem ter em teus braços esta pequenina, que é toda a nossa vida. Lembro-me muito bem desta reflexão de que falas em tua carta e vejo na prática que, mesmo após uma tão longa separação, ama-se sempre mais, quando se ama de verdade. E nossa separação foi bem triste e bem dura, querida. Tu me perguntas se recebi tuas cartas e um telegrama. Não. Eu nada recebi (...)".

“Anos Tormentosos" _ De Luiz Carlos Prestes. Organização de Anita Leocádia e Lygia Prestes.
 
segunda-feira, janeiro 27, 2003
 
Como tudo era tão Chagal. Antes. Antes daquele prédio, logo antes de virar aquela esquina. Aquela anterior à praça que já teve coreto. Antes, quando eu era uma bailarina,
Não, engano seu. Meus olhos não eram fortes antes. E hoje talvez seja só maquiagem. Mas o que interessa é antes. Porque afinal, antes daquela praça não havia ainda chuva, eu não estava encharcada e não era obrigada a sorrir discreta quando tinha vontade de andar bem devagar na chuva. Antes, os bicos dos meus seios não estavam à mostra sob a blusa molhada, o velho truque das dançarinas de cabaré. Cabaré? Cabaré era antes. E eu não precisava escondê-los com as mãos, nem ficar tensa ao sentir que o melhor, antes, era abrir os braços e pisar nas poças. E antes eu não era melhor. Não era mais bonita, talvez nem cinco minutos mais jovem. Talvez nem mais vistosa. Antes, a chuva não havia me pegado de surpresa no meio do caminho, eu não havia ficado sem graça, sozinha, andando escondida com as mãos nos seios. O que importa é que eu sabia que o melhor era gargalhar.
 
 
- Quando eu crescer vou ser pai do meu pai.
- Não, quando você crescer, o seu pai vai ser velhinho.
- É, aí, quando ele estiver bem velhinho, ele vai lá no cemitério morrer. Ele vai deitar no caixão e dormir. Morto.
 
 
Não ficaram ruins meus bolinhos de chuva. Os meninos gostaram. As vezes eu sou muito mãe, mesmo.
 
sexta-feira, janeiro 24, 2003
 
Não acabou...

Insensatez

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah! Porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah! Meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado
Vai meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai meu coração
Pede perdão, perdão apaixonado
Vai porque não pede perdão
Não é nunca perdoado



Ou



How Insensitive
How Insensitive
I must have seemed
When she told me that he loved me
How unmoved and cold
I must have seemed
When she told me so sincerely
Why she must have asked
Did I just turn and stare in icy silence
What was I to say
What can you say when a love affair is over
Now she's gone away
And I'm alone with the memory of her last look
Vague and drawn and sad
I see it still
All her heartbreak in that last look
Why she must have asked
Did I just stare in icy silence
What was I to do
What can one do when a love affair is over





Você vai ver

Você vai ver
você vai implorar me pedir pra voltar
e eu vou dizer
dessa vez não vai dar
eu fui gostar de você
dei carinho, amor pra valer
dei tanto amor
mas você queria só prazer
você zombou
e brincou com as coisas mais sérias que eu fiz
quando eu tentei
com você ser feliz
era tão forte a ilusão
que prendia o meu coração
você matou a ilusão
libertou meu coração
hoje é você que vai ter que chorar
você vai ver





Pelos ares

Não lhe peço nada
Mas se acaso você perguntar
Por você não há o que eu não faça
Guardo inteira em mim
A casa que mandei
Um dia
Pelos ares
E a reconstruo em todos os detalhes
Intactos e implacáveis
Eis aqui
Bicicleta, planta, céu,
Estante cama e eu
Logo estará
Tudo no seu lugar
Eis aqui
Chocolate, gato, chão,
Espelho, luz, calção
No seu lugar
Pra ver você chegar




Cinco Minutos

Pedi você
Prá esperar 5 minutos só
Você foi embora
sem me atender
Não sabe o que perdeu
Pois você não viu,
você não viu...
Como eu fiquei
Pedi Você
Prá esperar 5 minutos só
você foi embora,
embora, embora
sem me atender...
pois você não viu,
não viu, não viu
como eu fiquei
dizem que foi chorando,
sorrindo, cantando
Os meus amigos,
meus amigos, até disseram
Que foi amando, amando
Pois você não sabe,
você não sabe
E nunca, e nunca,
E nunca, e nunca,
E nunca, e nunca,
Vai saber porque
Pois você não sabe
quanto vale cinco minutos,
Cinco minutos na vida




Só Tinha De Ser Com Você

É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que o mundo não vê
O amor que chegou para dar
E que ninguém deu pra você
O amor que chegou para dar
E que ninguém deu pra você
É, você que é feito de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonito demais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
E você sempre foi só de mim




Quero esquecer você
Quero esquecer você
mas não consigo porque
por você eu me enfeiticei
por você eu me enamorei
Sei que não devo
querer ser tanto assim
pois esse desejo
é proibido para mim
Mas foi aquele beijo
sem querer que você me deu
que meu amor por você nasceu




Onde Andarás

Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces de mim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces...
Eu sei, meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela, perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve... eu sei





Você vai ver
Você vai ver
Você vai implorar me pedir pra voltar
E eu vou dizer
Dessa vez não vai dar
Eu fui gostar de você
Dei carinho, amor pra valer
Dei tanto amor
Mas você queria só prazer
Você zombou
E brincou com as coisas mais serias que eu fiz
Quando eu tentei
Com você ser feliz
Era tão forte a ilusão
Que prendia o meu coração
Você matou a ilusão
Libertou meu coração
Hoje é você que vai ter de chorar
Você vai ver

 
terça-feira, janeiro 21, 2003
 
Não vendo fiado.
Favor não insistir.
 
 
Só digo até não me comprometer. Pés, papéis, olhos, boca, joelhos, cacos. Me guardo num mosaico. Só sabe quem espia pelo buraquinho. Surpresa, me ofereço aos pedaços. Mutilada, em grossas postas, talvez entenda melhor a matéria de que me faço. mas, em tempos modernos, não abro mão do anonimato. Depois de me ver na bandeja, escondo o nome, me perguntam o que faço, do que vivo, como sou, a quem devo explicações(?). Mas, se mostro o resto, arranco a pele. E vice-versa. E ponto final.
 
 
Depois De Ter Você

Depois de ter você
Pra que querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que é que serve
Uma canção como esta?
Depois de ter você
Poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas
Pra que amendoeiras pelas ruas?
Pra que servem as ruas?
Depois de ter você...



Samba do grande amor

Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim o grande amor mentira
me atirei assim de trampolim fui até o fim um amador
passava um verão a água e pão dava o meu quinhão pro grande amor mentira
eu botava a mão no fogo então com meu coração de fiador
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor mentira
Fui muito fiel comprei anel botei no papel o grande amor mentira
reservei hotel sarapatel e lua-de-mel em Salvador
fui rezar na sé pra São José que eu levava fé no grande amor mentira
fiz promessa até pra oxumaré de subir a pé o Redentor
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande
e dou risada do grande
e dou risada do grande
e dou risada do grande amor..
menti-ra..



Joana Francesa

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda



Disfarça e chora

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outro
Ò triste senhora
Disfarça e chora
Todo pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar, só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E seu pranto ò triste senhora
Vai molhar o deserto
Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora



Eu amei

Eu amei
E amei, ai de mim, muito mais do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer e me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza aconteceu você
Encontrei
Em você a razão de viver e de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste quando se desfaz



Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto,
E que no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes,
velhos fatos,
Que num álbum de retratos,
Eu teimo em colecionar.
Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes,
noites claras,
Versos, cartas, minha cara,
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado,
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu cora- ção
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu cora- ção



Dor de Cotovelo

o ciúme dói nos cotovelos
na raiz dos cabelos
gela a sola dos pés
faz os músculos ficarem moles
e o estômago vão
e sem fome
dói da flor da pele ao pó do osso
rói do cóccix até o pescoço
acende uma luz branca em seu umbigo
você ama o inimigo
e se torna inimigo do amor
o ciúme dói do leito à margem
dói pra fora na paisagem
arde ao sol do fim do dia
corre pelas veias na ramagem
atravessa a voz e a melodia.
 
 
"oi.

é só pra dizer que a fitinha chama "fragmentos de um discurso amoroso: disfarça e chora". diz qui eu tucanei "o fino da fossa".

pois é.

e a cristina disse que "é preciso entender o engatamento neurótico" que existe entre nós duas.

eu ri. mas ela disse que "querer e não querer" é neurose. então, não é coisa de escorpiano. é coisa de mim mesmo. o fábio tá errado.

mas tá valendo. e continua o que eu te pedi... "não me procure mais/não me lembre/ cada um sofre pro seu lado". ESTILHAÇO, do cacaso, mais uma vez salvando a pátria.

pelo menos por uns tempos. a cristina falou que isso dura, normalmente uns três meses. eu ri. mas ela confirmou. e então tá. tomara que seja mais ou menios isso.

tudo da cristina é três meses.

então, que tudo fique bem por aí. "
 
segunda-feira, janeiro 20, 2003
 
Direito de Resposta

Um dia cinza em janeiro. Todas as bossas. A chuva estiou. Todas as Joanas Francesas, V de vingança. Um samba-canção pra ter ironia. Uma fita cassete noventa minutos e você me toma até o samba do grande amor. Grande amor. Merece até vingança.
 
quinta-feira, janeiro 16, 2003
 
Dia desses, ela veio me explicar porque não se pode deixar nada prendendo a circulação no pulso, no braço ou nos dedos.
- Mãe, sabia que não pode deixar nada apertando aqui?
- É mesmo? Porque?
- Fecha a sua mão bem forte.
- Ãh.
(ela empurra o dedinho pelo buraco dos meus dedos fechados)
- Viu? Não passa. Quando alguma coisa aperta, o sangue também não passa.
- Sei. Mas pra quê o sangue precisa passar?
- Pra chegar ao coração, ué.
- Mas pra quê o sangue tem que chegar ao coração?
(pausa)
– Pra colorir o coração de vermelho.
 
 
Menina Maluquinha, fazendo hora pra escovar os dentes em uma casa em obras:

- Mãe, quero a minha pasta de dentes. (é daquelas com gosto doce)
- A sua acabou. Escova com a outra.
- Ah, não, não quero pasta ardida.
- Mas só tem dela, não vai Ter jeito.
(ela vai falar pro avô, pra avó, pro tio, pro papagaio e pro peixinho que acabou a pasta dela. Escuto os passinhos no corredor e o barulho de uma coisa caindo. Ela chega.)
- Mãe, vai Ter que comprar uma escova de dente nova pra mim.
- Porque?
- Por que a minha caiu no chão.
- Não tem problema, lava.
- E se cair na tinta?
- Aí você toma um coro.
 
 
Eu engasgo nos olhos quando leio seus e-mails. “Engatamento Neurótico”. Deve estar nos anais da psicologia louca das nossas psicólogas. Elas deveriam fazer terapia de casal.
 
 
“Bom, você joga. Se der água, é só batalha naval!”
 
 
Quando eu for gente grande quero escrever assim.
 
quarta-feira, janeiro 15, 2003
 
Fiz figa. Inventei superstições. Sonhei acordada. Nem dormi. Te inventei também. Me inventei também. E tudo que existe, não é de mentirinha?
 
 
Ah, minha amada me perdoa, pois embora ainda te doa a tristeza que causei

Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas por um mal que já paguei
 
quinta-feira, janeiro 09, 2003
 
Será que eu tenho o que dizer? Claro que não! Que pergunta... Dormi pouco. Estou bem. Vendo o dia nublar e o céu aparecer várias vezes da janela desse escritório estúpido. Está bom trabalhar. Agora chove, me deu preguiça de ir embora. Porque já posso. Liberdade é engraçado.
 
quarta-feira, janeiro 08, 2003
 
Atemporais
de Pedro Amaral

"um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê."
Luís de Camões

Como será que o amor,
Ou seja lá o que for,
Como será que isso consegue

Embrenhar-se nessas pequenas coisas
Tolas — olhar, sorriso, rubor
... Tão pequenas que mal se as percebe?

Como é que isso pode se imiscuir
No gesto mínimo de partilhar
— Idéia, cigarro, lugar,
De modo que não se o possa omitir?

Como, e aliás, com que direito
Ela vem, adentra meu vazio,
Se assoma nele, e com efeito,
Deita-me a sonhá-la horas a fio?

(do livro "Vívido", editora Sette Letras, 1995)
 
 
Soltem as feras! E que venham armadas à altura, que hoje sou maior que algumas estrelas. Amanhã não sei, então andem rápido e abram as comportas para a água entrar. Se protejam, eu vou virar água e seguir contra a enxurrada, andar sobre a queda, profetizar.
 
 
Discutindo relacionamento, segundo Freud, Dr. Psicóloga e GH - Uma aula de psicologia de butequim

- Te procurar é como chamar meu pai quando eu tinha medo do escuro à noite.
- É?
- É.
(...)
- Mas você acha mesmo que eu sou igual a seu pai?
- Não sei. O que significa ser igual a meu pai?
- Significa que eu sou um estepe.
- Não!
- Sim! É sim, eu sou um estepe pra você.
- Não é não. Porque não é qualquer pessoa.
- Como assim?
- Estepe pressupõe que qualquer pessoa serve.
- Então eu sou um estepe fixo.
- Mas aí é uma contradição. Um estepe nunca é fixo, por definição.
- Então eu sou um macaco.
(...)
 
terça-feira, janeiro 07, 2003
 
Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço. . . .

Paulo Leminski
 
 
"Será que vendem morfina para míopes?" (roubado da Giu)
 
 
Minha doutora-salvadora-psicóloga "não está me reconhecendo". Essa foi ótima. Bom, espero que eu não me reconheça em alguns dias. Espero que eu pare este blog, que eu pare de escrever, que eu fique normalzinha. Espero que eu não queira tanto da vida. E que eu consiga saber que as estrelinhas que eu vejo do mísero quadradinho da minha janela, nem elas, não cabem na minha cabeça.
 
sábado, janeiro 04, 2003
 
Eu vou te esquecer completamente. Não vai ficar nada. Não fica nada. Não é assim. É assim. Então vai embora. Não vou. Não adianta porque eu não vou. Eu vou esquecer. Eu me lembro. Mesmo que eu não queira eu me lembro. Mesmo que você se esqueça até de você, eu me lembro.
 
 
A urgência me move, me faz andar em círculos, chegar à urgência. A urgência é ainda móvel mas já tem um tremor por dentro: vê-se pela caligrafia. A urgência é a falta me deixando cega, me cegando a vista.

 
 
“sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro”
Clarice, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”

 
 
Como pude me esquecer do clássico: "Natal"? E de sua óbvia continuação "Ano Novo"? O segundo, como de praxe, é mais fraco que o primeiro. Não chorei.
 
 
Sentimentalismo barato, baratíssimo.


"Fale com Ela" - Chorei.
"Iris" - Chorei.
"Filme em que a Meg Rian é alcólatra" - Chorei.
"Filme em que se discute um namoro que já acabou muito muito muito bêbada, em que se ouve a descrição detalhada da tatuagem da atual da sua ex" - Chorei
"Continuação do filme anterior, quando a ex diz que dois anos de um namoro que mudou a sua vida, matou você de tristeza e felicidade não significou nada" - Chorei (Ah! Bêbada, claro.)
"Filme em que se espera o telefone tocar eternamente" - Chorei.
"Filme sobre a vida do chato do Paul com os piores atores do século" - Chorei.
"Alta fidelidade", pela milésima vez - Chorei.
 
quinta-feira, janeiro 02, 2003
 
Estou muito mulherzinha pro meu gosto. Eu e Pola. As coisas têm sido estranhas nesse fim de ano. Algumas pessoas novas, umas pessoas que pra mim eram só imaginação. Minha imaginação é fértil como a de uma menina de dez anos. Desde os dez anos. "Já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar." Sim, tenho ouvido Tribalistas escondido, como diz a Laura. E sonhado muito, acordada, dormindo, como nos dez, nos quinze e nos vinte anos.
 
 
Quero falar com alguém. Alguém pode me atender por favor?
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

ARCHIVES
09/01/2001 - 10/01/2001 / 10/01/2001 - 11/01/2001 / 11/01/2001 - 12/01/2001 / 12/01/2001 - 01/01/2002 / 01/01/2002 - 02/01/2002 / 02/01/2002 - 03/01/2002 / 03/01/2002 - 04/01/2002 / 04/01/2002 - 05/01/2002 / 05/01/2002 - 06/01/2002 / 06/01/2002 - 07/01/2002 / 07/01/2002 - 08/01/2002 / 08/01/2002 - 09/01/2002 / 09/01/2002 - 10/01/2002 / 10/01/2002 - 11/01/2002 / 11/01/2002 - 12/01/2002 / 12/01/2002 - 01/01/2003 / 01/01/2003 - 02/01/2003 / 02/01/2003 - 03/01/2003 / 03/01/2003 - 04/01/2003 / 04/01/2003 - 05/01/2003 / 05/01/2003 - 06/01/2003 / 06/01/2003 - 07/01/2003 / 07/01/2003 - 08/01/2003 / 08/01/2003 - 09/01/2003 / 09/01/2003 - 10/01/2003 / 10/01/2003 - 11/01/2003 / 11/01/2003 - 12/01/2003 / 01/01/2004 - 02/01/2004 / 02/01/2004 - 03/01/2004 / 03/01/2004 - 04/01/2004 / 04/01/2004 - 05/01/2004 / 05/01/2004 - 06/01/2004 / 06/01/2004 - 07/01/2004 / 07/01/2004 - 08/01/2004 / 08/01/2004 - 09/01/2004 / 09/01/2004 - 10/01/2004 / 10/01/2004 - 11/01/2004 / 11/01/2004 - 12/01/2004 / 12/01/2004 - 01/01/2005 / 01/01/2005 - 02/01/2005 / 03/01/2005 - 04/01/2005 / 04/01/2005 - 05/01/2005 / 05/01/2005 - 06/01/2005 / 06/01/2005 - 07/01/2005 / 07/01/2005 - 08/01/2005 / 08/01/2005 - 09/01/2005 / 11/01/2005 - 12/01/2005 / 01/01/2006 - 02/01/2006 / 02/01/2006 - 03/01/2006 / 03/01/2006 - 04/01/2006 / 04/01/2006 - 05/01/2006 / 05/01/2006 - 06/01/2006 / 08/01/2006 - 09/01/2006 / 09/01/2006 - 10/01/2006 / 10/01/2006 - 11/01/2006 /


Powered by Blogger