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segunda-feira, março 31, 2003
 
21 de diciembre
Alejandra Pizarnick

Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.
 
 
Eu caminho entre as sombras
Eu caminho através das sobras
Eu caminho por entre as sombras
É por isso que o escuro é meu pesadelo
Eu caminho.
Foi surpreendente quando apaguei as luzes.
Eu percebi, não havia mais ninguém em casa.
E era até calma e confortante a penumbra, o ar fresco e as luzes da cidade.
É por isso que, agora, o escuro é meu pesadelo e eu não posso fechar meus olhos.

Se lembre das cicatrizes porque elas não ferem mais.
Eu caminho
E o momento em que há alguma memória
De luz
É quando eu percebo a sombra e caminho
E eu caminho
E quando já é fim do dia e o sol vem de lado sobre os prédios e a vista é bonita da janela mas a luz laranja não esquenta nem os olhos de dentro do ar condicionado
E quando
Eu caminho
E quando
É então.
 
domingo, março 30, 2003
 
"PRECISA-SE"


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo.
 
sexta-feira, março 28, 2003
 
18 de diciembre
Alejandra Pizarnick

Noche crucial. Noche en su noche. Mi noche. Mi importancia. Mí misma. La asfixiada ama la ausencia del aire. Memorias de una náufraga. Sueños de una náufraga. Qué puede soñar una náufraga sino que acaricia las arenas de la orilla.
 
quinta-feira, março 27, 2003
 
As quatro melhores músicas de todos os tempos. Começando pela primeira, necessariamente. Necessariamente com Billie Holliday. A segunda e a terceira necessariamente na voz da Nina Simone. A quarta só já ouvi com a Nina, mas diz a Flávia que com a Billie também é lindo. Eu viciei mesmo... As quatro se revezam nos meus ouvidos 24 horas por dia.

These Foolish Things

A cigarette that bears a lipstick's traces
An airline ticket to romantic places
And still my heart has wings
These foolish things remind me of you

A tinkling piano in the next apartment
Those stumblin' words that told you what my heart meant
A fairground's faded swings
These foolish things remind me of you

You came, you saw, you conquered me
When you did that to me
I knew somehow that this had to be

The winds of March that make my heart a dancer
A telephone that rings but who's to answer?
Oh, how the ghost of you clings
These foolish things remind me of you


How strange, how sweet, to find you still
These things are dear to me
They seem to bring you near to me

The sigh of midnight trains in empty stations
Silk stockings thrown aside, dance invitations
Oh, how the ghost of you clings
These foolish things remind me of you








I Put a Spell on You

I put a spell on you
'Cause you're mine

You better stop the things you do
I ain't lyin'
No I ain't lyin'

You know I can't stand it
You're runnin' around
You know better daddy
I can't stand it cause you put me down

I put a spell on you
Because you're mine
You're mine

I love ya
I love you
I love you
I love you anyhow
And I don't care
if you don't want me
I'm yours right now

You hear me
I put a spell on you
Because you're mine







My Baby Just Cares For Me

My baby don't care for shows
My baby don't care for clothes
My baby just cares for me
My baby don't care for cars and races
My baby don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Lana Turner's smile
Is somethin' he can't see
My baby don't care who knows
My baby just cares for me

Baby, my baby don't care for shows
And he don't even care for clothes
He cares for me
My baby don't care
For cars and races
My baby don't care for
He don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Liberace's smile
Is something he can't see
Is something he can't see
I wonder what's wrong with baby
My baby just cares for
My baby just cares for
My baby just cares for me









Love Me or Leave Me



Love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonely than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
There's no love for nobody else

Say, love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonely than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

Say I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
My love is your love
There's no love for nobody else

 
 
Esoterismo mulherzinha:

"Esta linha está relacionada à terceira, que é o companheiro que tem algo a dizer. A quinta linha é o vizinho. Aqui uma linha fraca encontra-se no clímax do choque e, portanto, não está à altura da situação. A comoção ameaça arruinar, assim como num terremoto; por isso o espreitar temeroso em torno de si. Tentar empreender alguma coisa nessas condições seria desastroso. Mas se uma pessoa toma a experiência do vizinho como uma advertência (neste caso, a quinta linha) e se mantém a calma, erros são evitados. A terceira linha, o companheiro, é forçada a se mover em virtude de sua situação e, por isso, não pode compreender por que a sexta linha permanece tranqüila. Porém, a diferença de atitudes é resultante da diferença de posição. Assim sendo, é preciso ser totalmente independente em suas ações."
 
terça-feira, março 25, 2003
 
A cama me deita, deixa
Acolhe
traz alguém pra me cuidar.
Algumas pílulas.
Meu passo maior que a perna
A cama não cabe em meus braços abertos.
You´ve got to feel it
in your bones
Alguém me diz.
Nem Quintana,
Quem virá?
O anjo abatido me mostra os caninos.
Eu não conjugo o verbo.
O verbo me mata.
 
 
Mal-me-quer

Segredos que conto só pra você
Assuntos proibidos. Pra quê?
Bem-me-quer
Menina - me sinto com uma margarida nas mãos.
Sonho que te amo, odeio e grito.
 
 
Me arraste um bonde, amor.
Me proteja quando eu sismar com
malabares e saltos mortais
Sou um perigo, amor.
Só não morro de medo.
 
 
Acordo pré-nupcial:
Libertas quae sera tamem.
Agora doeu de verdade
 
 
Vinte e cinco de março. Ando longe de tudo e de mim. Ando pra lá dos meus olhos, que são fundos, temendo ficar a sós comigo mesma. Ando buscando cada próximo passo, cada sensação, a palavra seguinte desse terço. Vejo o chão se formar no centímetro seguinte, quebradiço. Ando querendo o desejo pra mim.
 
segunda-feira, março 17, 2003
 
"Os morangos mofaram", ela disse, depois de morder meia fruta e espremer a outra metade aveludada entre os dedos.
 
 
- Eu sei de tudo o que você sente e faz.
- Eu estava ansiosa.
- Você disse.
- Eu estava ansiosa.
- Você é mais clara quando está longe.
- Você não sabe. Eu disse mas foi prematuro decidir.
- Eu sei de tudo. Aquela noite só havia nós dois.
- Você não se lembra.
- Eu me lembro de você.
- Três horas.
- Quinze minutos.
- As Horas.
- Eu sei o que você sente, acredita?
- Eu sou transparente. Eu quase não existo.
- Eu não vou até aí te beijar.
- Você sabe o que eu sinto, eu não preciso dizer.
- Uma semana.
- Eu tenho o que eu quero. Eu não sei mais o que eu sinto. mas não preciso, você sabe o que eu sinto.
- Você odeia estar errada.
- Eu odeio estar errada.
- Você não sabe se me quer.
- Eu não sei se eu te quero.
- Você está errada.
- Eu estou errada.
- Eu quero ver se te quero.
- Eu quero que seja.
- Eu sei.
- Eu quero você na palma da mão, na ponta da língua.
- Você sabe.
 
sábado, março 15, 2003
 
When You Sleep

when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

when you sleep
do they tremble on the edge of the bed
or do you fold them neatly by your head
do they clench like claws against your own skin
when you're living your day al over again

when you sleep
when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

do they play guitar in a latin bar
are they strangers or lovers
do they drive your car
are they swimming submissively
sex acts of life
or just cutting through jello with a very sharp knife

now zeus was a womanizer
always on the make
but hera usually punished her that zeus was one to take

when you sleep where do your fingers go?

are they pulling out weeds from the dusty soil
but then never rewarded with the fruits of their toil
are they scratching their nails on the chalkboards of death
only seeking attention when everyone in the room has left

when you sleep
when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

when you sleep
do they tremble on the edge of the bed
or do you fold them neatly by your head

 
sexta-feira, março 14, 2003
 
Um brinde à ressaca, se bem que minha ressaca não é alcoólica, é de falta de sono mesmo. Acho que abstraí totalmente a necessidade de dormir. Não dormi terça, nem quarta e nem ontem por mais de cinco horas. Pra quem gosta de dormir dez, isso é um desafio.


Alcoólicas
Hilda Hilst


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)


 
quinta-feira, março 13, 2003
 
Olho muito tempo o corpo de um poema
Ana Cristina Cesar

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
 
segunda-feira, março 10, 2003
 

olhos miúdos miram meus lábios. Adivinham minha língua. Nem sonham.
Disparam, mas eu vou sorrir.
Você não sabe, Olhos Miúdos, mas eu vou saber.
 
domingo, março 09, 2003
 
Pra lembrar a Lapa, o Sargento, samba, suor e cerveja.


Agonizas mas não morre
(Nelson Sargento)


Samba
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro

Samba
Negro forte destemido
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro

Samba
Inocente, pé no chão
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram toda a tua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você não percebeu

 
sábado, março 08, 2003
 
Você não percebeu que falava de você.

Ana, você não é mais uma menina. É quase um bebê pedindo peito e acha que sabe de alguém. Ana, o nome disso é pretensão. O nome disso é tédio. O nome disso é umbigo. Umbigo é o centro da espiral. É o que liga ao lugar de onde você veio mas que já não pode ver. O nome disso, Ana, é ponto final.

Os meninos nadam cinqüenta metros enquanto eu penso. Ando entre as pessoas e coloco a ponta do pé na água. Finjo que não gostei e vou embora. E se a água estiver a vinte e oito graus centígrados? Os meninos fazem abdominais sobre a grama e algumas bitucas de cigarro úmidas. As mães estão felizes: os filhos não sofrem. Eles apenas saltam com perfeição em direção à margem oposta, alternam as pernas em movimentos curtos e decididos, flexionam os cotovelos e erguem os braços junto à cabeça. Respiram. Deslizam como golfinhos, centésimos de segundos mais e mais rápido. Golfinhos não sofrem.

Você acha que sabe, Ana, mas é tudo conversa fiada. Você sabe dizer besteiras, inventar raciocínios pra justificar suas falhas. Pra explicar porque se decepciona quando o mundo não cabe no espaço dos seus braços abertos. Afinal, você abriu os braços!

Faça o seguinte: como se estivesse sozinha, ande até a borda, olhe a água bem fundo, como se fossem olhos. Se abaixe e estique os dedos da mão para tocar a água. Sinta a temperatura e depois pense. Decida então se mergulha. Caso entre na água, forme uma opinião. Sente-se no fundo, de pernas cruzadas (caso tenha dificuldades de afundar, é só esvaziar o ar dos pulmões), abra os olhos se não tiver cloro de mais. Pense amenidades.
 
sexta-feira, março 07, 2003
 
E a cidade ainda avisa:
"O pôr do sol é de quem olha."
 
 
Aviso de perda
Enzenberger (estou amando o livro, Fábio!)


Perder os cabelos, o controle,
entendem o que eu digo, o tempo precioso,
numa batalha perdida perder
a altivez, o brilho, lamento,
não faz mal, perder por pontos,
não me interrompam, perder
sangue, o pai e a mãe,
perder uma vez mais, num piscar
de olhos, o coração perdido
em Heidelberg, perder o encanto
da novidade, são águas passadas,
os direitos políticos, ah bom!
a cabeça, Deus do céu, a cabeça,
caso seja indispensável,
o paraíso perdido, não estou nem aí,
o emprego, o Filho Pródigo,
o prestígio, bons ventos o levem,
perder um molar, duas guerras mundiais,
perder três quilos de excesso de peso,
perder, sempre só perder, inclusive
as ilusões há muito perdidas,
e daí, nenhuma palavra
sobre os esforços perdidos,
mas nenhuma mesmo, perder
a vista de vista, a inocência,
que pena, perder-se, perdido
em pensamentos, na multidão,
não me interrompam,
o juízo, o último centavo,
deixa pra lá, estou quase terminando,
a compostura, o senso do ridículo,
perder tudo de uma vez,
até mesmo, ai, o fio da meada,
a carteira de habilitação e a vontade.
 
domingo, março 02, 2003
 
Esta noite dormi nua e casta pra pensar em você.
No quarto escuro, um pouco quente do verão, a janela aberta, imaginei não as cenas de sexo de livros para moças
mas algumas conversas insones e os faróis marcando a sombra da janela no teto.
 
 
Beira do mar
Lugar comum
 
 
O Rio de Janeiro não me deixa pensar. Estou feliz e tenho medo, claro. Existe algo a perder.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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