Página Preta
sexta-feira, maio 30, 2003
 
A menina: Poliana, mas deve ser com ípsulon. Tem sete anos. Me vendeu um
tablete de jujubas coloridas noite dessas. Eu tomava Original e comprei
jujuba, porque eram onze e meia e ela bocejou. Estuda de manhã na "Escola
Municipal Presidente Qualquer Coisa". Acorda às seis, chega às sete. Contei
pra ela que sou preguiçosa, porque dia seguinte "vou trabalhar com sono."
Acordo às oito, chego às nove. Poliana acha uma semana muita coisa porque
quando ficou uma semana sem ir pra escola cansou de ficar à toa. Pegou minha
agenda de telefones do Dali, que namorei na livraria um tempão. Aí pediu,
que o que faz é pedir -"Me dá?" Eu disse não e ela foi folheando, de mãozinha suja e sem cuidado. Viu a menina da janela, viu os tigres abocanhando a moça, viu a língua de colhere disse que era esquisito. "O que é isso?" "O mamá dela. Derreteu..." Por fim, olhou a moça nua e vesga encarando um cisne ou ganso, sei lá. "Ah, esse é bonito! Tenho que ir." Saiu correndo muito moleca com seu cabelo crespo e arrepiado, como se fosse o parque municipal sábado à tarde.
 
quarta-feira, maio 21, 2003
 
Não-gos-to-de-fi-car-a-ce-so-en-quan- to-vo-cê-não-es-tá-por-per-to-o-su-fi-ci -en-te-pa-ra-sen-tir-o-chei-ro-dos-per-f u-mes-e-xa-tos-do-cor-po-i-ma-gé-ti-co-q ue-es-ca-pa-pe-las-ven-to-sas-do-chão-de -a-crí-li-co-do-meu-quar-to-en-lou-que-c i-do. Meuquartoenlouquecido.

Roubado do carioca
 
 
Presságios
Helenice Rocha, no Logo Lógos

Tenho fortes presságios às vezes
Nem sempre acerto o caminho
das profecias.
Minha presença é um sussurro
um débil pedido sobre o seu
descanso
Busco a equação da carícia
a gentileza sem nome
balbucio
como um personagem à deriva.
 
 
Estilhaço

não-tempo
não-espaço
não-medo
não-credo
no corte
no vértice
no conto
no fio

sem fim
sem amém
falta fim
às pontas dos dedos



 
 
É amanhã, Valente.
valente é quem me dá valentia
via correio aéreo.
Só amanhã, Valente, é que
conto o tempo
com aviso prévio.
Envio breve por escrito o alerta:
CUIDADO COMIGO
carta terrorista, letra de revista.
Antes prevenir,
não há remédio pra mim.
 
terça-feira, maio 20, 2003
 
Da filha de uma amiga, de dois aninhos:

- Mamãe, “peido” é feio né?
- É, filhinha.
- “Pum” é bonitinho, né mãe?
- É, filhinha.
- Mas os dois fede, né?
 
segunda-feira, maio 19, 2003
 
Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar.
na mesma base: deixa.

Torquato Neto


Primeiro passo é tomar conta do espaço.
Tem espaço a bessa e só
você sabe o que o que pode fazer do seu.
Antes ocupe. Depois se vire.
Não se esqueça de que você está
cercado, olhe em volta e dê um rolê.
Cuidado com as imitações.

Imagine o verão em chamas e fique
sabendo que é por isso mesmo.
A hora do crime precede a hora da
vingança, e o espetáculo continua.
cada um na sua, silêncio.

Acredite na realidade e procure
as brechas que ela sempre deixa.
Leia o jornal, não tenha medo de
mim, fique sabendo: drenagem, dragas
e tratores pelo pântano. Acredite.

Poesia. Acredite na poesia e viva.
E viva ela. Morra por ela se você
se liga, mas por favor, não traia.
O poeta que trai sua poesia é um
infeliz completo e morto.
Resista, criatura.

Sínteses. Painéis. Afrescos. Repor-
tagens. Sínteses. Poesia. Posições.
Planos gerais. "O Close-up é uma
questão de amor". Amor.

Eu, pessoalmente, acredito em
Vampiros. O beijo frio, os dentes
quentes, um gosto de mel.
 
quinta-feira, maio 15, 2003
 
versos livres doem mais
rimas arredondam
polimento, perfeição, curvas
gosto das arestas
do som que coça a garganta
do começo ao fim, sem premeditações
planícies, sunsets, papel timbrado
de língua
luto pelos versos nada livres
 
terça-feira, maio 13, 2003
 
Hoje eu me senti "Mothern". Minha menina maluquinha fica, às terças, quintas e em fins de semana alternados, na casa do pai. Desde que terminamos é assim, quando ela tinha um ano. E fizemos questão que ele tivesse essa convivência, não se afastasse do cotidiano. Essas coisas de dar banho, arrumar a comida, levar pra escola. E sempre foi um pai excelente, a única coisa que não fez foi amamentar. Aí ontem, ela disse que estava com saudade do pai.

- Mãe, eu quero meu pai.
- Você vai pra casa dele amanhã.
- Mas eu quero agora.
- Mas amanhã é terça e você vai.
- Mas não é um dia lá, outro dia aqui?
- Não filha. É terça e quinta lá e os outros dias aqui.
- Mas assim eu fico mais com você do que com ele.
- É.
- Mas porque?
- Porque os filhos ficam mais com as mães que com os pais.
- Porque?
- Porque os filhos precisam mais das mães que dos pais.
- Porque? O que você faz que meu pai não faz?
- ... Nada. Mas é porque todo mundo é assim. (resposta horrível pra se dar pra um filho, né?)
- Mas então porque eu fico mais aqui do que com ele?
- Ah, porque também o seu pai estuda à noite, tem as coisas dele pra fazer, não pode ficar todo dia.
- ...
- E também, quando você crescer, vai poder ficar com quem quiser o tempo que quiser. Só não pode deixar a mamãe com muita saudade...


Quem mandou criar uma menininha de cinco anos, topetuda, questionadora e feminista, né?
 
segunda-feira, maio 12, 2003
 
Li a historinha pra minha Menina Maluquinha e perguntei se ela gostou. Ela disse: "Gostei!" Aí eu perguntei se ela tinha gostado mesmo ou se ela não tinha entendido nada. Ela disse: "Não entendi nada, mamãe..." Ontem li de novo, falei pra ela me perguntar quando ela não entendesse. Aí expliquei pra ela o que era " buraco negro ", "suave", "alva", "poetisa", "intenso", "oceanos", "abismos", "esqueleto", "interrogações", "reticências" e "dois pontos". Depois disse que queria que eu lesse de novo outro dia porque ela podia ter "se distraído" e esquecido de perguntar alguma coisa. Em resumo, ela acabou com a minha história...
 
sexta-feira, maio 09, 2003
 
Com a história do concurso João de Barro, em que a prefeitura de BH premia contos infantis, pipocaram das gavetas de amigos historinhas inéditas. Eu catei uma, bem do fundo da gaveta, escrita com GH. Se tiver autorização dos autores (!) coloco todas aqui, porque são bem legais. Vira uma seção infantil. Aliás, se alguém que eu não sei também tiver uma historinha infantil guardada, me envie que eu coloco aqui, e ainda leio pra minha Menina Maluquinha, que pode servir de crítico.

A Bailarina e a Poetisa

Não que fosse um ser feito de nuvens, mas quem a olhasse com atenção veria um céu azul intenso num fim de tarde. As estrelas já despontavam no seu olhar de olhos muito grandes – não sei se assustados ou procurando por incertezas – só sei que tinha olhos grandes. Maiores que oceanos; mais profundos que abismos ou buracos negros. Porque aqueles grandes olhos maiores que tudo eram a própria alma da menina.
E, disfarçada como toda boa menina, esta tinha o mais belo de todos os disfarces e caminhava o seu andar flutuante com medo de sujar suas sapatilhas: era uma Bailarina.
Bailarinas sentem muito, coitadas... São maravilhosamente bonitinhas, mas têm o esqueleto de aço. E carregam meio mundo sobre ele. Mas continuam sorrindo. São florzinhas eternamente felizes.
E esta nossa Bailarina era a mais suave entre todas as bailarinas do mundo inteiro.
A Bailarina vinha sorrindo, caminhando em seu silêncio, muito feliz da vida, até que parou e ficou com uma cara que não sei não... E aquela cara parada, linda, uma lua no meio da praça, era um grande susto ao perceber aqueles dois olhos e muitas interrogações a lhe observar.
(era a Poetisa.)
A Poetisa também era uma menina. Mas era uma menina toda feita de interrogações, reticências e mudos dois pontos. Gastava o tempo a observar.... numa procura meio sonsa de algo que a fizesse sorrir e não a assustasse tanto. Vivia muito assustada. Seus olhos, maiores que os da Bailarina, eram do tamanho de suas angústias... Mas eram angústias bem vindas, como as de qualquer poetisa. Ela sabia deixar as coisas doerem, ao passo que a Bailarina só conseguia sorrir, rodopiando desesperada sobre suas pontas de gesso.
E a Poetisa flutuava com os pés descalços pela praça. Sua pele, tão alva que parecia feita de papel, tornou-se o próprio papel: mudo imóvel e branco.
É que a Poetisa andava com os olhos mais arregalados que o de costume por aqueles dias. Ela sentia coisas estranhas de vez em quando. Parecia que adivinhava o futuro. Mas não era vidente, não. Nem acreditava muito nessas coisas... Bola de cristal, então, nem se fala... “Eu acreditar numa coisa dessas?”, ela pensava. Mas ela, às vezes, acreditava nessas sensações estranhas... era como se o Senhor do Tempo dissesse pra ela:

- Ô, Poetisa... deixa de ser bobinha e fique de olhos bem abertos...
- Mas, Senhor do Tempo, meus olhos já são muito muito arregalados...
- Não é o bastante, querida...
- Não me chama de querida que eu não gosto!
- Tudo bem, então... me desculpe... mas me prometa que vai arregalar muito bem esses olhos enormes.

E a Poetisa arregalava os olhos... (mas ninguém percebia, não...)
E nesse dia, a Poetisa estava tranqüilamente flutuando descalça pela praça e de repente ficou muito assustada... Parecia papel mesmo... Com aquela brancura toda esperando que alguém escrevesse algo. É que ela tinha adivinhado o que o Senhor do Tempo estava tentando dizer pra ela.
Ela viu uma Bailarina... não, não... Não era uma bailarina... Era a Bailarina... Uma linda, suave e sorridente Bailarina...
Mas ficou muito sem graça quando viu que a Bailarina tinha percebido que ela, Poetisa, existia. É claro que a Bailarina não sabia que quem a olhava era uma Poetisa, porque se já soubesse, nem ia ficar tão assustada assim.
E a Poetisa viu tanta poesia naquela pluma que flutuava em sapatilhas que nem soube mais o que estava acontecendo... Na verdade ela ficou assim ó: ?!
E nem sabia de mais nada.
A Bailarina, meio muito mais assustada que a Poetisa, nunca havia sido olhada por uma folha de papel. Já estava acostumada a ter árvores, flores, passarinhos e joaninhas a observando e, às vezes, perguntando coisas pra ela... mas uma folha de papel olhando era pedir demais.
Ficaram sem saber o que fazer.
Poetisa queria fazer “plaft” e voar pra bem longe dali. A Bailarina só tentava pensar em dizer algo... “Mas o quê? O quê? Ela nem falou nada... imagina se nem está olhando pra mim... aí eu fico com cara de tacho e falo “ah, desculpa, pensei que você estivesse olhando pra mim... mas tudo bem... não liga não... eu sou meio aérea mesmo... e blá blá blá...”. Ela ficou tão concentrada nisso que até parou de flutuar... e acabou sujando suas sapatilhas.
A Poetisa mais que depressa saiu de seu eterno estado contemplativo e decidiu que tinha de fazer algo, pois bailarinas nunca podem sujar as sapatilhas... principalmente Bailarinas que dançam na nossa imaginação.
E aquela Bailarina... ah, como ela dançava... linda e flutuante...
Percorrendo cada canto da mente da Poetisa... e tudo isso em uma fração... um átimo de segundo!
A Bailarina se aproximou com a delicadeza de costume, deixou desconcertada aquela Poetisa com cara-de-folha-em-branco. Com a ponta dos dedos alongados, percorreu o rosto da Poetisa, da testa até o queixo. Nas pálpebras da folha em branco, deixou escrito assim:
“Só não morro de medo.”
A Poetisa nem quis pegar a mão da Bailarina: não era tão atrevida assim. A única coisa que a Poetisa queria era descobrir o que aqueles enormes olhos tentavam dizer.
A Poetisa, já nos olhos da menina, nem percebeu que eles estavam se fechando... continuou nadando, tentando descobrir... descobrir... Até que o sono chegou.
E os olhos da Bailarina se fecharam de vez.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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