Página Preta
sexta-feira, agosto 29, 2003
 
Tá tarde. Mas vim aqui porque aqui não tenho cara, não quero nada, não sou ninguém. Não tenho história não tenho o tempo não ganho nada, nem perco. Aqui o tempo passa e eu despejo segredos. Lavo as mãos, quem quiser que leia. Aqui não sou ninguém. Ninguém. Aqui não tenho nome, nada me oprime, não há exigência, expectativa, pré-requisito. Ninguém. Aqui sou incondicional, contraditória, escrota, mentirosa, digo tudo, lavo a alma e não há ninguém. Aqui falo sozinha e falo pra olhos de ninguém, sem cara, sem nome, sem cargo, sem mentira, sem palavra. Que nem eu. Que nem todo mundo que é gente. Nem todo mundo é gente sempre. Mas às vezes é. Tá tarde.
 
domingo, agosto 24, 2003
 
Escrevo-te, porque não tem fim o domingo. Escrevo-te ao crepúsculo e ofereço-te o domingo. Às fatias choros partidos, fibras dividadas como em um bífe de músculo bovino. Das perguntas vacilantes, entre o peito e o céu da boca, que saem aos pedaços. Meus olhos se encheram d´água algumas vezes, porque pensei, pensei, pensei. E quis adivinhar seus olhos e quis sentir todo o seu desejo por mim de uma só vez. Mas domingo é tudo partido e também suas mãos nas minhas pernas eram reticentes. Te escrevo então mais um pedaço de domingo, pra me desengasgar, pra eu me livrar, pra tirar de mim esse domingo espinho de peixe atravessado na garganta. Durma bem.
 
quarta-feira, agosto 20, 2003
 
Rabisco o amor em papéis de recado, bagunça de escritório, janela de concreto, amor s/a. Reescrevo e risco porcarias sérias e sentimentais em papel embolado, triturado e confidencial. Refaço o beijo. Os quinze anos não me deixam.
 
 
Aquele amor nem te conto, já foi, já passou, acabou como outros, passou por cima e foi pra tão longe, mas tão longe, que perdeu a vista, a audição, o paladar. Morreu coitado, não sabe se velho, se amargo, se triste, se de infecção generalizada. Jaz calado, putrefato, a sete palmos, soa como as flores frescas dos dias de finados.
 
terça-feira, agosto 19, 2003
 
Então eu chorei, em meio a tantos mil afazeres, inundada de vida sem graça, nostalgia, amor. Eu só choro de medo, não tenho tempo, escrevo trancada, em folha qualquer rascunho, minhas víceras se espalham no chão do banheiro onde me tranco. Sou aquela que ama, tranco-me. Mas há vida. Há porções de vida que não consigo dividir com você. Busco mais noites encantadas como outras que já foram. Encanto-me, mas o esforço é hercúleo e meus olhos ficam marejados. O esforço de chorar também é hercúleo. Engoli minha própria chave. Ou preciso de férias com você. Preciso não ter medo de roda gigante, porque você disse que vai me beijar na roda gigante de luzes acesas, um dia, quando for noite.
 
sexta-feira, agosto 08, 2003
 
Pérolas do meu atirador tentando ser romântico:

Eu procurando a calcinha no chão do quarto. ele acha, cheira e diz: - Acho que esta é sua.
Eu: - acho que vou ficar menstruada amanhã.
Ele, me abraçando com um sorriso sedutor estilo Mário Lago: - ah, você fica linda menstruada.
A gente encontra pra ir à locadora pegar um filme pra ficar em casa: - nossa, você está tão bonita! merece até sair!
A gente discutindo relacionamento: - Você é igual docinho de festa de criança. A gente come, come e chega uma hora que não aguenta mais, mas sabe que no dia seguinte vai lembrar e pensar que podia ter comido mais.
Ele, negociando um lugar pra sair à noite: - Vamos ver a coisa de uma maneira mais holística.
 
domingo, agosto 03, 2003
 
ausência em meus claros guardados. Te acho. Penso que sinto quando olho seus olhos da distância de nossos narizes. Penso que acho e no entanto é uma angústia. Quero saber tudo, impossível, todo o impassível de qualquer descobrimento. Descubro-te. E sei que me engano. Beijo mais fundo e desvendo sua língua com a minha. Desengano pensando no fim, meus olhos escurecem. Ausência em meus dedos guardados no bolso do paletó. Saudade de dedilhar seu rosto, barba, lábios, orelha e nuca. Nunca, é a palavra que me basta. Ou sempre. No fundo, tanto faz.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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