Página Preta
quarta-feira, setembro 17, 2003
 
Tenho da vida alguns pedaços engasgados
Alguns dias partidos
Divididos
Em feixes de ternura
E poeira.
Tenho uns dias sentidos
Quase nada
Uma janela seca
Empoeirada
Cheia de chuva
Do lado de fora.
Tenho às vezes memória
Às vezes vontade
Às vezes penso em cantar mas depois esqueço
Às vezes
Você me reparte
 
 
A festa
(Milton Nascimento)

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito,
Nem acredito no sonho que vejo
E seguimos dançando
Um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito prá nós
Nesse som que nos toca

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas
A banda toca
Parece magia
E é pura beleza
E essa música sente
E parece que a gente
Se enrola, corrente
E tão de repente você tem a mim

 
segunda-feira, setembro 15, 2003
 
Bordei um segredo pra você. Um daqueles bonitos, de brilhinho agudo de areia no sol. É que já disse muita coisa mas ainda queria um segredo pra você. Queria um segredo bonito pra termos juntos porque, quando eu era pequena, pensava que amigo era quem contava e escutava segredo. Quem tinha um segredo junto com alguém era amigo do alguém. E o segredo era a coisa dos dois, que os dois guardavam juntos. Tenho um segredo com você. Mais que segredo de amigo. Segredo de sentir as coisas escuras e com um brilhinho pequeno de areia molhada no sol. Segredo que não é nem de palavra mas que você cuida comigo e guarda pequenininho numa caixinha. E ninguém pergunta o que é porque sabem que segredo assim, não se conta, não se mostra, não é de ver nem é de palavra. Mas só de olhar já se sabe que nós dois temos um segredo de silêncio.
 
domingo, setembro 14, 2003
 
Roubado:


Férias do mundo aos bêbados de amor


Aos bêbados de amor deveriam ser concedidas férias do mundo. Veja bem, não digo férias da vida, pois esta é campo aberto para os que amam. Estou falando do mundo tal que conhecemos em seu dia-a-dia-a-dia-a-dia-a-dia adia ardia... a matemática do acordar, trabalhar, ir pra casa, dormir. A rotina enferruja o amor, pois ele é ser criativo, precisa de telas para pintar, papel branco para escrever líricos poemas sobre coisas inúteis à vista de quem passa a passos largos.

Ah! Dêem férias do mundo aos que não conseguem pensar em outra coisa senão no entrelaçar dos olhos, peito sobre peito, tum tum, coração! Não sejamos rabugentos, nem gaiolas, nem durex, a ponto de acharmos fútil presentear com a liberdade esses seres inundados de canto solto sem porque.

Desabito o mundo, desabito o mundo, desabito o mundo e levo comigo quem de asa for tão leve que não suporte mais deixar pelo caminho o amor em cacos, pois é férias o que estou me dando!

 
 
De onde vem? De onde veio se não da cabeça, do centro, do coração, das veias, do plexo solar, do pulso? De onde vem a vida? Ela veio de desejo, de capricho, de destino, de conspiração celeste, da própria vida, do hábito, do inevitável, do amor? Como se expande pelo mundo, incontrolável, longe de qualquer plano prepotente, tangente a algum limite que exista, desafiando músculos e nervos com a dor? De onde surge e explode a vida?
 
terça-feira, setembro 09, 2003
 
Subject: carta-de-papel
Date: Fri, 5 Sep 2003 14:54:08 -0300

Do lado de cá tudo bem, como em qualquer dia de vento gelado ou de
sol-eterno-a-pino, sempre tudo muito bonito na cidade de asfalto e gente.
Do lado de cá é bonito e vai bem. Ando transbordando um amor pra dentro,
feito aquelas vasilhas de ferver leite que inventaram pra não derramar.
Derramo por dentro uns olhos fundos que me olham com rugas entre as
sobrancelhas às três da manhã e uma mistura de temperaturas e
sentimentalismo precipitado. Consigo, às vezes, até me conter mas pra quê
mesmo que serve. Pra nada e as coisas não têm de ser úteis.
 
segunda-feira, setembro 08, 2003
 
www.cabezamarginal.org/cambalhotas
 
sexta-feira, setembro 05, 2003
 
Quero uma vida em forma de espinha

Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um troço solitário
Quero uma vida em forma de areia nas mãos
Em forma de pão verde ou de moringa
Em forma de sapato velho
Em forma de tiroliroliro
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra coberta de seixos
De cabeleireiro selvagem ou de edredom louco
Quero uma vida em forma de você
E a tenho, mas ainda não é o bastante
Nunca estou contente.

(Boris Vian)
 
quinta-feira, setembro 04, 2003
 
Amor, aquele filme que eu não vi. Já te quis mas passou enquanto eu andava ali no quarteirão fechado. Tropecei no paralelepípedo fora do lugar, sou distraída. Não traio minhas mãos nunca, e você?Podemos nos conhecer, ouvir qualqer coisa em três ou quatro vozes ou tons. Não casei. Faz um tempo, já.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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