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sábado, outubro 25, 2003
 




 
 
Torquato

“(...)eu pensava: eu te amo. Eu não podia dizer nada disso, só que eu não podia nem posso explicar minha vida, o meu amor, senão através de sua própria minha própria prática, como se diz, caminho, como se diz, traço, destino, como se diz, como se diz: tese, filme, estilo, caráter, ideal de relacionamento, antítese, tese, amizade, ódio, ternura – ‘como se diz’ – posso dizer e explicar isso tudo mas não explico nada com isso, o mistério sou eu muito simples e ainda por cima tentando explicar e pedindo, finalmente, desculpa.(...)”

 
 
“Seu corpo é o meu descanso, Ana.”
 
 
Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes)
 
 
O sonho
Eu fazia sonhos com Tereza, pra você. Mas fazia errado. Enrolava os bolinhos, eles cresciam um pouco, ressecavam. Aí eu me lembrava que tinha de por queijo, apesar de desconfiar que eles eram doces. Aí abria-os com a unha e colocava pedacinhos de queijo. Havia menos queijo que o suficiente.
 
 
19 de outubro
O tempo e você não chega. Leio você e você não vem. Ouço barulhos de você chegando. Vou chorar pra ir embora. Sou assim. Tenho saudade, faço carinho e temo o fim. Vejo outros beijos. Olho pra porta muitas vezes. Sofro à toa. O que eu faço? Preciso. A jogada aérea. Perdi uma hora. Considerou. Intenção. Tiro direto. Seis meses. Amor se mede pela entrega. Sabe o que eu quero mesmo? Que você chegue e me beije muito. Minutos contados à caneta. Páginas. Nada que preste nesse caderno, ou nessa tarde, como de costume. Melhores momentos. Pra você. Meu anjo me guarda.
 
sexta-feira, outubro 24, 2003
 
-----Mensagem original-----
De: Ana H. [mailto:ateuspes@hotmail.com]
Enviada em: sábado, 18 de outubro de 2003 15:24
Para: Imprensa
Assunto: bom dia


Vou te dar um poema,
Preste atenção.
È um poema pra você
Então leia devagar
Palavra a palavra,
Sabendo que cada uma
Escolhi a dedo
Pra você ler
Saiba que são suas
E têm boas intenções.
Depois leia depressa
Encontre o ritmo da minha respiração
No momento da escritura
Veja com qual aflição
Fiz pensar o poema
Fiz dizer o poema
E ele disse.
Faça com que ele diga.
Preste atenção,
Que é seu o poema,
Não o deixe falar sozinho
Não me responda qualquer coisa
Não ignore
É seu o poema.
Love,
Yours.
 
sexta-feira, outubro 17, 2003
 
Olha que coisa, do Mário Prata, no Estadão, em 95.


O Caio F. (Fernando Abreu) sempre me faz lembrar a Ana C. (Cristina Cesar). Sempre. Encontrei-me com ele na semana passada numa boate absurdamente gay (A Louca) e me lembrei da Ana. Da Ana, do verão de 82. Não sei se falamos sobre ela entre uma música e outra da Laura Finokiaro. Mas que ela estava presente, estava.

No domingo, duas divinas páginas do Caio sobre ela, aqui no Estadão. Cartas dela para ele. 82, 83. Só que o Caio se esqueceu de me citar nos encontros aqui em São Paulo com a Maria Emília Bender, o Reinaldo Moraes (aliás, como perguntou Ricardo Soares, ninguém vai reeditar o desconcertante e vagabundo Tanto Faz?), ele e ela. Citou os bares certos: Longchamp, Pirandelo, Frevinho, etc. Mas eu o perdôo como ele perdoou Ana C. por "ter conseguido".

Conheci a Ana na casa do Reinaldo e da deliciosa Maria Emília (mais o gostoso Ruy Fontana Lopes). Grandes jantaradas, bons vinhos e tome papo. Discutíamos o nada e o tudo. Ficamos amigos. Aliás, as pessoas não ficavam amigas da Ana. As pessoas simplesmente se apaixonavam por ela. Que coisa bonita! Que cabeça! E aqueles poucos cílios brancos num dos olhos? O esquerdo? Nada mais cativante.

Um dia ela veio a São Paulo para participar de uma mesa redonda para a revista Istoé, organizada pela Marta Góes. Me ligou do Rio. Queria me ver. Hospedou-se no Hotel Jaraguá onde, lá mesmo, era a mesa redonda sobre os novos valores da cultura brasileira, ou algo assim. Fiquei de pegá-la à meia-noite. Serviram bebida durante o debate. Assim que cheguei, o Cacaso vomitou na minha camisa ao me cumprimentar. Tive que pegar uma camiseta da Ana no apartamento dela.

Fomos para um japonês na Liberdade tomar sakê, nós dois. Lá pelas três, ela me diz:

- Quer ir dormir comigo no hotel? Sem compromisso?

Fomos. Dormimos sem compromisso, completamente sakeados. Manhã seguinte, levei-a ao aeroporto e nunca devolvi a camiseta. Mas sempre devolvi o carinho. Aliás, onde andará aquela camiseta?

Reinaldo Moraes morreu de ciúmes. Simplesmente porque ela esteve em Sáo Paulo e não ligou para ele. Uns dois meses depois, estávamos os dois a tomar a cervejinha da tarde no La Villette e ele não parava de olhar no relógio.

- Que foi, cara?

- Sabe o que é? Tem um jantar lá em casa hoje à noite (morávamos no mesmo prédio, na Alagoas) com a mãe da Maria Emília. Coisa meio formal, se não, te convidava.

Fomos embora, peguei o elevador e ainda vi o Reinaldo abrindo a porta dele no térreo. Chego no meu apartamento e a deliciosa e poética voz da Ana C. na secretária eletrônica, entregava o mentiroso:

- Estou jantando aqui embaixo. Desça quando chegar. Ana C.

Não sei se a história ficou clara: o que o Reinaldo queria era aproveitar sozinho a Ana C. Queria a Ana só para ele. Era assim que as pessoas amavam Ana C. Ciumentamente.

Não tive dúvidas. Peguei o elevador e desci os dois andares. Ele abriu a porta já pedindo desculpas. E a Ana a me dizer que assim que ele entrou ela perguntou por mim e o sujeito teve a cara de pau de dizer que não me via há dias. Aproveitamos a Ana, juntos.

No dia seguinte ele me mandaria um buquê de rosas com um bilhete, pedindo desculpas mais uma vez. Tanto Faz, Reinaldo.

Isso foi meses antes dela conseguir se matar, depois de tantas tentativas e sofrimento. Uma vez entrou no mar gelado, de noite, nua. Depois, não sei porquê, voltou e estava atravessando a rua quando um sujeito viu, saltou do ônibus e a vestiu com seu paletó. Será que esse anônimo sabe a quem ele acalentou?

Maria Emilia liga para o hospital, no Rio. Fala com ela. Ela estava mesmo mal. Daí a uns dias ela voou pela janela, de um sétimo andar.

Como sabiamente disse o Caio F, ela precisava fazer isso. Tinha que fazer isso. Fazia parte da poesia dela. Ana C. virou um mito mais vivo do que nunca. E, como sempre, dormiu. Sem compromissos.

Preciso achar aquela camiseta.
 
quinta-feira, outubro 16, 2003
 
Esqueceu? Te achei tão frio no email. Coisa de mulherzinha. Coisa de homem. Não entendo. Nem entenda. Não pense. Poesia? Pra quê, porque, por onde? Não comece. E tem mais. Não valho nada.
 
 
Que dor, esse poema. Que vontade de escrever. Que exatidão absurda e ansiosa. Que engasgo, que não-saber-o-que-dizer.

Um Beijo
(Ana Cristina César)

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
 
 
bu
 
quarta-feira, outubro 15, 2003
 
Pelo Meio do Caminho de Nuvens

Livre como uma água-viva. Há tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olho nuvens a cinco metros de distância. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando a água vivendo água.
Não me concentro. Não leio. Não faço. Não saio do lugar. Se me movo é que o mundo se move, tão lento e perplexo diante de cada revelação lenta do sol. Não acho as palavras. Não penso antes de falar. Não olho nos olhos, não sei apertar mãos. Não causo boa impressão. Aviso e reafirmo: não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa. Não sei de nada. Não li o livro. Estou vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.
 
 
Roubado do blog do Negrão que é um cara legal com quem eu fui antipática um dia. (Logo eu, A simpática, não é Blue e Colibri?!!)


"tarde da madrugada
seu rosto brilha
orvalha lágrima

não faça alarde
acorda tarde
embala a noite
até o sol raiar

nosso abraço
ultrapassa
o luar

a paz só quer nosso amor
fresta de luz sobre a dor
e não tememos o que virá

tem tanta estrela
na noite acesa que passa
- nos vem de graça -

somos nós dois
o sol da luz do olhar

alda rezende jonathan crayford renato negrão"
 
 
Senhores, apertem os cintos: a montanha russa já saiu e ninguém viu!
 
sábado, outubro 04, 2003
 
isto é só um teste
 
 
Três vivas para Torquato Neto, que comprei "Os últimos dias de Paupéria":

Ponto de Bala
os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
 
 
Um dia
Depois outro
Depois outro
Outro
Depois
Outro depois outro
Depois outro
Outro depois.
Assim, 365
Mais 365
Mais 365
365 mais
os 365 anteriores
e os 365 seguintes
menos o dia em que perdi a memória
menos o seguinte, depois
outro, depois outro
depois outro
outro depois
em que vivi de uma vez
de um dia
depois outro
tudo só
Um tempo
Uma vírgula
Um contratempo e um
E
Dois e um
E dois e outro um
Soma-se
a dor do
parto
Vale 5
subtraindo noites
Sem sentir
Os pés
Divide-se por
365
dias e quantos serão até que
a vida esgote
e seja o saldo
a liberdade
seja findo o salto
nu pela janela
do arrepio
de tocar a vida
de dias
e verter a morte
de curvas
 
quarta-feira, outubro 01, 2003
 
São cinco meses. Cinco meses do ano de 2003. Cinco meses do meio de um ano de um século novo. Nem o i ching me dá um norte, eu espero direções de braço cruzado. Ou quero o mundo todo em noites de beijos nos pés. Hoje faço votos: prometo não ter medo, prometo fehcar os olhos e me jogar no mar, prometo voar, prometo o mundo, prometo não saber, prometo a humildade de saber que não sei, prometo que te amo.
 
 
Abandonei, né dear. Vou pro Rio segunda, tava em salvador agorinha. Depois eu volto, porque andei lendo muita coisa séria, fiquei vazia de coisas bobas pra dizer.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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