Página Preta
sexta-feira, junho 25, 2004
 
Ela vivia um amor de mãos atadas. Um amor sem abraços, alguns beijos e muito sexo. Ela vivia um amor assim, meio seco e encarava aquela fisionomia com cara de interrogação. Como assim? Não era como ela conhecia o amor. E apesar de estar convencida de que era um graaande amor, duvidava de tanto olhar. Procurava nas sombras de seu rosto irregular a face fresca e aveludada. Vez em quando perguntava: é você mesmo? Ele concordava balançando a cabeça. Continuava de sobretudo preto e braços cruzados. Atados na postura militar como se fossem ordens superiores. O amor não se movia. E, quanto mais ela olhava, mais duvidava. Rodeava, fazia cócega, soprava o ouvido. Ele permanecia imóvel. Em silêncio. Não o silêncio denso entre o amor e o amante. Só um silêncio. Quando ela ameaçava ir embora ele tossia. E ela voltava a olhá-lo nos olhos. Ou então ele tirava uma das mãos duras do sovaco e encaixava no queixo-maxilar-orelha-nuca dela. E era tão quente a mão que ela fechava os olhos e conseguia enxergar o amor. Mas ela vivia muito o amor de mão atadas. E quando ele parava de se dedicar a ludibria-la, ela percebia que não tinha o que fazer com aquele armário de sobre-tudo preto. Se guardava na geladeira pra não perder, se tirava do meio do caminho, se o abraçava sozinha, se sorria pra ele. E pra que serve um amor de sobretudo? Onde é que se coloca? Como é que se conserva, o que se dá de comer? Ele precisa dormir? Ele vai à escola? De toda forma, não podia se livrar. Ela estava líquida de amor e escorria a volta dele formando uma pequena poça leitosa na taboa corrida.
Ele ficou muito tempo por lá. Meses, mais de ano. Ela chegava de noite do trabalho, dava um beijo no rosto, tomava banho e ia dormir. De manhã comentava alguma coisa do trabalho enquanto tomava café e saía. E era assim todos os dias. Ela não engravidou sem planejar. Ele envelheceu mais rápido. Enfim, eram um casal. E havia uma certa química entre eles que só era interrompida pelas duvidas a respeito da idoneidade do rapaz. Ela não dizia mais nada. Só murmurava “você vai ter que mudar” pra não ter que discutir o relacionamento e espernear de novo. Ela sabia, ele não mudou. E assentiria com a cabeça eternamente se ela perguntasse “você é mesmo o amor?”. “Você é mesmo assim?” “Eu te amo.”


(continua)
 
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A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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