Página Preta
terça-feira, agosto 31, 2004
 
Ardiam os olhos e as solas dos pés da moça da estrada. A estrada era plana, ainda bem. O sol rachava, mas brotavam olhos d´água fresca pelos barrancos. Enfim, havia um certo alívio na terra vermelha. Os pés ardidos agradeciam quando a lama abraça os dedos. A moça parava algumas vezes, para olhar os feixes de lama emergindo entre seus dedos. Outras vezes deslizava e se desequilibrava. E pensava que é muito bom que, quando o sol está assim tão forte, existam olhos d´água brotando dos barrancos. Até que teve um pedaço da terra molhada em que ela deu de pisar, e se apoiou com o calcanhar, e o outro pé patinou e caiu toda a roupa no chão. A saia ficou molhada, as mãos cheias de lama. A moça pensou em chorar, pensou em abrir os olhos, pensou em se levantar depressa, pensou em sentir calor. Mas então ela se arrastou para a margem da estrada, como se não pudesse mais se levantar, se recostou na terra do barranco e deixou a água barrenta rolar sobre a testa, o nariz, a boca, o queixo e o pescoço. A moça deu um grito. Um grito de fonema aberto, um “á” interminável até esvaziar o ar dos pulmões. Era muito mais. Era tanto mais que não havia o que dizer, que não havia tempo pra chorar, era só o deleite. Só o deleite silencioso da lama cobrindo o rosto da moça, escorrendo pela barriga, por entre as pernas, pela coxa. Foi o deleite de não sentir mais que ela era feita de ar empoeirado por dentro, de se ver livre da tosse, de sentir a matéria úmida e densa da lama nas entranhas, de sentir seu corpo todo preenchido como se gozasse fundo e rouco sob a lama. A moça percebeu que era tão feita de terra molhada quanto uma minhoca. Podia comer terra. E que o ar seco e a poeira vermelha que a invadiu pela boca e narinas quando ainda era menina, na beira da estrada, agora a abandonariam para sempre.
 
quinta-feira, agosto 26, 2004
 
Namorim

Sinta o beijo
Da lua:
Sou eu, sua.
 
segunda-feira, agosto 23, 2004
 
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

Paulo Leminski
 
sexta-feira, agosto 20, 2004
 
logo depois da cerca de ficus há o portão. Branco e retorcido em formas redondas que lembram flores. Abrindo o portão, avista-se a porta de madeira, meio metro depois. Depois da porta; Ah, depois da porta é o mundo. É uma fotografia em grande-angular, uma chuva caindo mansa e exércitos de formigas carregando flores. É uma sinfonia grandiosa, são os cabelos da bailarina se soltando no meio do rodopio, as sapatilhas caindo pesadas sobre palcos de madeira. É uma fruta, uma firula, um furto de goiaba, um tédio. No centro, ao fundo, há um bebê de ventre aberto. Um grande corte vai do peito ao umbigo do menino, que é muito negro e ri sossegado. Seu corpo pulsa e permanece aberto e indolor. O menino está envolto em ar perfumado, não sente fome, nem frio nem dor. Nada incomada o menino, embora ele não possa ser tocado. Nada faz com que ele respire, nada perde o movimento lento de sua boca, nada o ignora. Ele não chega a nenhuma conclusão e é sábio o suficiente pra permanecer na falta de desejos. Ele não precisa. O menino não tem dentes. O menino é só um meio sorriso insistente de lábios doces de mais. E a medida que é observado mais e mais de perto, mais e mais longamente, ele se torna cínico, irônico, imoral, insuportável. Não se move mas do alto de sua satisfação emite sensações de medo, dor e uma doçura amedrontadora na lingua. Não toque-o. Ele irá persegui-lo a vida toda.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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