Página Preta
terça-feira, agosto 31, 2004
 
Ardiam os olhos e as solas dos pés da moça da estrada. A estrada era plana, ainda bem. O sol rachava, mas brotavam olhos d´água fresca pelos barrancos. Enfim, havia um certo alívio na terra vermelha. Os pés ardidos agradeciam quando a lama abraça os dedos. A moça parava algumas vezes, para olhar os feixes de lama emergindo entre seus dedos. Outras vezes deslizava e se desequilibrava. E pensava que é muito bom que, quando o sol está assim tão forte, existam olhos d´água brotando dos barrancos. Até que teve um pedaço da terra molhada em que ela deu de pisar, e se apoiou com o calcanhar, e o outro pé patinou e caiu toda a roupa no chão. A saia ficou molhada, as mãos cheias de lama. A moça pensou em chorar, pensou em abrir os olhos, pensou em se levantar depressa, pensou em sentir calor. Mas então ela se arrastou para a margem da estrada, como se não pudesse mais se levantar, se recostou na terra do barranco e deixou a água barrenta rolar sobre a testa, o nariz, a boca, o queixo e o pescoço. A moça deu um grito. Um grito de fonema aberto, um “á” interminável até esvaziar o ar dos pulmões. Era muito mais. Era tanto mais que não havia o que dizer, que não havia tempo pra chorar, era só o deleite. Só o deleite silencioso da lama cobrindo o rosto da moça, escorrendo pela barriga, por entre as pernas, pela coxa. Foi o deleite de não sentir mais que ela era feita de ar empoeirado por dentro, de se ver livre da tosse, de sentir a matéria úmida e densa da lama nas entranhas, de sentir seu corpo todo preenchido como se gozasse fundo e rouco sob a lama. A moça percebeu que era tão feita de terra molhada quanto uma minhoca. Podia comer terra. E que o ar seco e a poeira vermelha que a invadiu pela boca e narinas quando ainda era menina, na beira da estrada, agora a abandonariam para sempre.
 
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A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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