Página Preta
quarta-feira, novembro 24, 2004
 
Ainda não dormi. É que a gente não fica de bem e aí não conversa. Aí não dorme aí tenta dormir. E não dorme. Mas uma hora dorme, é a minha esperança. Primeiro franze a testa, tem vontade de chorar mas não consegue. Primeiro é assim, cheio de raiva. Depois só sente a falta do abraço de ninar, da cantiga de ventilador-velho da respiração no ouvido da gente. Tem medo de tudo, levanta da cama, vai pra sala, acende a luz e espera pelo resgate. Mas você não é disso. Cansa mas aí volta pra cama e você ronca... E é como que impossível dormir e mesmo que eu tente fazer as pazes não tem jeito e você não me consola do peso do dia de amanhã e não me beija e eu não me esqueço. Penso nos compromissos, nos emails, na agenda, nos textos, tenho raiva. Só então é que tem jeito de chorar de verdade. A vida pesa, dizem que é carma, eu acredito. O fato é que o resgate não chega e eu de luz acesa sentada no sofá. É que se for pra cama vou esperar a todo momento a sua mão no meu ombro. Só saiba que, quando você me abraçar de novo, eu vou estar muito brava.
 
terça-feira, novembro 23, 2004
 
Frescor de noite barata, de ceia de rua, de credo rezado a dois. Inveja matou meus calos, trombou o fusca da esquina no tênis e baratas moravam nas frestas. Você protegia meus entrededos. É de quando meu leite derramava e você sorvia sorrindo, tanto quanto é possível. Uma poça de dias não-passados pingava debaixo do asfalto mas nós não sabíamos. O medo é meu substantivo recorrente, de presença tão certa quanto o assento flutuante do avião. Inveja antiga me cutuca, refresca a memória, o leite dela respinga e uma gota atinge meus olhos. Sinto sabor.
 
segunda-feira, novembro 01, 2004
 
Tenho linhas nas mãos, elas caminham como vermes pelo meu corpo. Sentidos partidos me tiram conclusões débeis enquanto tomo a xícara de café muito forte e troco as letras do alfabeto. O tapa olho persegue a mira do meu olhar mas é mais ágil que eu. Eu suo. Faço votos de que termine tudo bem e a esperança é patética. Densa. Corruptora. Eu me entrego ao consolo porque no fim de toda a coisa me descubro fraca, fraca, fraca. Frágil. A certeza quebra junto com o salto da sandália que me encomprida as pernas. São bonitas e eu preferia estar sobre elas. Você me segura pelo braço, machuca. Deixa um vergão vermelho quando seus dedos escorregam. Planejo as próximas férias. Eu não caio porque do chão não passo.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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