Página Preta
segunda-feira, junho 20, 2005
 
“Ai, que bobagem” – eu gemia os entulhos, as molduras dos quadros que eu gosto. Ia até a cozinha, fervia água, preparava a refeição e tinha mais panelas do que comia. Pecava pelo excesso e decidi jogar tudo fora. Até as colheres de pau. Até os lençóis. Até a espera que contava as horas do meu dia. E as horas. E a porta que afinal se abriria. E as cortinas. E os lábios, o cachorro, a visita, o cartão do banco, cada livro, cada palavra que eu diria e cada som que talvez saísse das caixas. O microfone e o papel de presente eram, então, inúteis. E as canetas, e os papéis, o teclado do computador. E assim eu teria o silêncio porque dentro de mim é como no centro da cidade que bobagem, entulho, barulho, palavras, gente e a espera impaciente pelo silêncio do fim do dia. Eu joguei fora a espera que contava as horas do meu dia e ela saiu acompanhada das horas do meu dia e do talão de cheques. Assim escorreu a porta que afinal se abriria. Ficou tão vazio que nem o silêncio chegou.
 
Comments:
ah, adorei esse também.
 
não há como jogar fora a polifônia, essa matéria de que somos feitos...nada é capaz de preencher o espaço das cadeiras espatifando-se contra as paredes!

p.s.era para escrever mesmo moça, de verdade!estou aqui para retribuir a visita, valeu!

beijos,

lenise
 
Dear!
 
Olá

fiquei encantada,chocada na cadeira

pois " E as horas. E a porta que afinal se abriria."

Ai,tanta coisa...

até moça

Volto sempre
 
É madrugada. Re-ínicio de semana. Venho te buscar e encontro isso...!
Paro no primeiro texto. Céus! Que mal estar! Antes eu tivesse ido para cama naquela hora! Como é que eu vou conseguir fechar meus olhos, se tenho agora, em cichê maior, meu peito aberto. Não, aberto não. Dilacerado mesmo.

Esse texto, esse texto... ahhh...
Até lembrei-me do Vinícius, em "Ausência":
"E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz."

OBS¹: sugiro que antes da sua página abrir, apareça um tipo de "alerta", deixando o leitor ciente que estará entrando em uma zona com um conteúdo extrema-mente forte. Ah! E claro, com botões "aceito" e "não aceito".

OBS²: leia o que Pascal fala sobre o vazio e o silêncio! Imperdível!
 
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A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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