Página Preta
Sexta-feira, Outubro 20, 2006
 
Dia aflito fim da
florada travessia - viaduto.
Todo dia ando viaduto como deus -
sobre o fluxo de automóveis:
Debaixo de viaduto não passa rio braço
mar
Mas fluidos carros se espalham pelo leito,
Serve.
Mais de-tardinha, escorrem faróis vermelhos
Fumaças franzidas de dia aflito fuligem e,
Todo dia
Penso em cair sobre o piso raso viaduto
oco tempo, fluxo barulho automóveis correm leitos de gente
Rios exalam fumaça.
 
Quinta-feira, Setembro 28, 2006
 
Parto. Não me cabe essa fatia. Dou a volta em torno da mesa. A torta é a mesma. Torta. Barulho em baixo da toalha lisa. Nada. As formigas fazem silêncio. Emergem xadrezas sob a torta. Sobre a toalha, debaixo da torta. Clara. Torta. Cruzo as pernas. Cadeira. Frases sempre mais curtas. Pés resignados. Meus. As formigas caminham e fazem silêncio e caminham sempre. Tortas caminham sob o forro da mesa. A fatia aguarda.
 
Sexta-feira, Agosto 18, 2006
 
Ar condicionado

Sóbrias gotas correm teias, toldos
tendas, têmporas chocadas

Tâmaras tardias
Caem ácidas nas línguas
Ingênuas dos pequenos
Silêncio de boca assus
tada -
olhos atentos enxergam setembro
 
Quinta-feira, Maio 18, 2006
 
Sente-se, meus verbos serão todos tão imperativos quanto meus desejos.
Voltarei quando você se sentar.
Ainda, anda, senta.
Não, volta, senta. É vazia a boca que te cospe.
É manco o gesto que te interrompe.

Senta e podemos até criar um livro de provérbios milenares.
Ejacular a faca da sua mão
Tombar sobre a pedra crânios vermelhos

Senta, vamos tentar. O tempo está bom, senta.
Guardarei a sobremesa permanecerei quieta, aqui, neste mesmo lugar.
Você agüenta esse pulso, a pele espessa, os tendões
Você senta e eu te compro uma revista, um bombom, haverá uma brisa
Faço companhia até alguém voltar. Discutiremos cidades, concretos,
áreas de lazer.
Concordaremos. Farei café e o tempo vai passar. Estaremos despertas,
de pé, sobre a pedra fundamental. Afundaremos juntas, porque cabe a
nós e a mais ninguém. Assistir programas na televisão, dormir tarde,
ter cachorros, filhos, paredes, cds. Não sucumbir ao sorriso do céu
cinzento deixar que uma nuvem apenas espanque nossos corpos sobre o
asfalto, despenque molhada, gasosa e, gentil como carne de mãe, não
provoque nenhum espanto.
No tempo, as roupas irão secar.
 
Segunda-feira, Maio 08, 2006
 
Pra quem voltei a fazer versos desavergonhados de flor, dor, amor


Amor, marca a nota
Amor e traços frágeis contornam o tempo fresco, uma varanda
Amor, nome, tela, luta, lastro de céu sobre papel timbrado
Amor, timbre bem feito, gesto contado
Amor, o idiota sob a lâmpada apagada
Amor, minha idiossincrasia mais ousada
Amor, meus caninos em sua direção.
 
Quarta-feira, Maio 03, 2006
 
Mais uma de flor e dor.



Sempre-vivas

Certo é tirar a flor
deixar o talo
secar ao sol
comprar a dor
Arranjar num vaso sobre a mesa de centro
à vista
ao sol
a dor.
Ano que vem o cerrado sopra outra vez.
 
Quinta-feira, Abril 13, 2006
 
Eu mesma surgirei alegria
como bolha sob o mar
Eu mesma sei do tempo perdido
Do olho partido na palma da mão
Eu mesma segurei o corpo vencido
Eu mesma perdi a visão

Permitirei a fenda no olhar
Serei vereda quando o sal passar
Serei eu a eclodir do sal
Mas guardo uma cavidade para o sol

Será a mesma ardida alegria
Sem antigos olhos densos
Ainda assim será arder
Ainda assim serei sorrisos
Ainda assim cobrirei o rosto
E seguirei sem saber o tamanho do mar
 
Segunda-feira, Abril 10, 2006
 
Tenho um retrato surdo do tempo
Um retalho de carne
O vão cardíaco
Um último corte
O que tenho vai longe
É fio de voz em canção de ninar
São braços cheios que ninam meu resto
Um sono que embala meu corpo ereto
Tenho um talho do tempo em minha mão
De braços vazios não sei ninar
 
Terça-feira, Abril 04, 2006
 
Summer is ready when you are.
 
Quinta-feira, Março 30, 2006
 
Melhor chorar o leite derramado

Carrego alguém que não vem mais, perdi o eclipse do sol, perdi o sol dentro dos bolsos. Meu tempo era só esperar, agora. Agora não é mais. Agora não é mais tempo. Agora não tenho mais sol. Agora é um quando que ficou no começo da semana. Agora foi embora e eu fiquei, preciso que alguém me dê a mão, um copo d´água, uma pílula. Preciso de uma mãe. Estou presa na quarta-feira, na lua errada, no tempo escuro de quando chove à tarde. Eu vou chorar, chorar. Eu vou contar o tempo ainda assim. Eu vou chorar, não se engane. Meu rosto é são mas o resto é vulto estarrecido que não se revela.
 
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
 
Sentaí, ela disse, dizendo que ia fazer uma música comigo. Disse e já foi rabiscando o papel, não interessa a palavra mas a tentativa. Ah, a tentativa é que era bom, ela dizia e inventava letras, vocábulos, toda a Ópera. Eu faço a letra, ela não parava de dizer, e você faz o ‘ritmo’.Você quis dizer melodia, ousei e, desta vez calada, me calou com o olhar. Escreveu e ia dizendo o mar, o som, a mulher, o homem, o beijo de lingua, sorvete de creme holandês, mar. Perguntou pelo violão e eu lá parado, sem dizer palavra, que ela só dizia. Quando eu disse que a palavra tava repetida ela, repetida? A repetição é que importa, amor.
 
Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
 
Se são só palavras tontas
Se são tantas palavras e ainda só
Ainda só me penetram a pele e as veias
Me correm e comprimem artérias
Atravessam ilesas sístole e diástole
Sons vadios pelos olhos, cabelos
Tontura, criança, gozo, cubos de gelo
São só,
Porque tão só consolam o tempo em que não existo?
 
Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
 
A mulher se perdeu em seu próprio ventre. A mulher se matou por dentro porque seu ventre não estava mais lá. Seu útero já se espalhava pelo asfalto quente, estava calor, ela se lembra. Ela não se esquece, a mulher despedaçada sobre a cama. Ela desfalece em seus guardados, seus filhos, seus lençóis. Mas isso não é esquecer. Argumenta. Sua boca larga tem força pra dizer. Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abra. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padece com coragem e precisa de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos.
 
 
Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abram feridas. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padeceu com coragem e precisou de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos que criou.
 
Terça-feira, Janeiro 10, 2006
 
O papel travesseia com letras
Guerreia - são só travesseiros
Apesar de temer gemidos e gritos de horror
Trapaceia cordões de carícias do colo da mãe
que dá voltas pelo pescoço, cuida, cuida e beija, a mãe
Deixa roubar, distraída, devota do santo cordão
Corre vestida de letras e leva no colo o pobre papel
 
 
breve o tempo quente
branda o meio dia
bebe o sol de canudinho
de cabeça pra baixo
quente chupa o pé
penetra a telha
goza a gota:
breve, breve.
Atrás da montanha
o cobertor se esconde.
 
Terça-feira, Novembro 29, 2005
 
Ainda é tarde, o sol venta imóvel
sobre as plantas da sala.
Imóveis as
Plantas não se aguentam
Tarde e o sol vai baixar
erguer serras sobre a cidade de edifícios.
Tarde não há lua
não é verão
Não há tempo
para um banho de mar.
O mar já vai longe
Tarde
A tarde lança velhos hinos
Dança
velhos homens
traz meninos
e caminhões
Vão brincar
correr para oeste
permanecer.
 
 

Me respeitem! Agora sou uma senhora casada.
 
Sexta-feira, Agosto 19, 2005
 
Um poeminha de palavras fáceis que não faço mais drama:

Eu vou ouvir uma música assim:
Que expurgue água e verme
Que zuna um ruido leve
Que zombe a rua do eco
Que eu perca de cor
Que se preste ao calor
Que me faça calar

Uma que sirva na luz
da manhã de domingo
E que o domingo seja agora
E que agora não demore
Domingo, demais.
 
Terça-feira, Agosto 09, 2005
 
Existe pouca coisa
O mundo, pouca coisa
O que existe não serve
Por isso eu vago noites
ao redor da sua boca
e procuro minhas mãos
entre dobras de tecidos.

O que há, não se vê
Há que se penetrar
Há música pra saber
E não conter os passos
Embora eu te olhe
Embora você atravesse a sala
Embora eu sorria
Não contenha os passos

Se a cortina for aberta
A luz da noite é que existe
E à noite há pouca coisa
Há música pela casa, três quartos
Há espaço e o espaço é triste
Há que se dançar
 
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
 
No poema
A tela é mármore sobre meus olhos
Clara, nua, luz, lúcida e meus olhos
Deita-se preguiçosa sobre a retina
molda-se a seu formato, ganha o páreo
Meus olhos ficam brancos e a tela é minha
Minha tela, leitura em branco, clave incolor

Meu poema, a ser escrito sem louvor
Sem bravura, sem leitor,
Sem o que manche mármore,
Ainda leva meus olhos brancos
Ao pátio, ao lago, ao campo.
Trava o frio em minhas mãos
Deita o repouso rígido
Vela o silêncio
Sela a lápide
Guarda da terra a carne
E a carne dorme.
 
Sexta-feira, Julho 22, 2005
 
Eu não

E quem sabe o aniversário não chega pra eu te dar o presente que escolhi a dedo? Questão de tempo, virá numa caixa, terá um escrito, você se assustará. Quem sabe você não se assusta pra eu te deixar de boca aberta, de olhos grandes e eu não enlouqueça pra saber de dentro da sua cabeça o que acontece a cada momento de boca aberta? Abre, meu bem, quem sabe não chega o dia em que eu vou parir e eu deixe vir a dor e o sangue como prova de amor? O amor é vermelho, me disseram quando eu ia pra escola. Quem sabe o amor não é verde-oliva-bandeira-mangueira-pasto? Em que cor você me ama? Que amor tem por mim? Quem sabe você não me ama? Quem sabe o amor é só o frenesi incolor de não ver dentro da sua cabeça? De ter que perguntar: Você me ama? De que cor você me ama? E agora, você ainda me ama? Ou o amor é só a prova de que eu sou manca? De que não ando com as próprias pernas? De que a felicidade é uma questão de tempo e de que o tempo foi feito para que fôssemos mancos. Todos. Ou eu não amo?
 
Segunda-feira, Junho 20, 2005
 
“Ai, que bobagem” – eu gemia os entulhos, as molduras dos quadros que eu gosto. Ia até a cozinha, fervia água, preparava a refeição e tinha mais panelas do que comia. Pecava pelo excesso e decidi jogar tudo fora. Até as colheres de pau. Até os lençóis. Até a espera que contava as horas do meu dia. E as horas. E a porta que afinal se abriria. E as cortinas. E os lábios, o cachorro, a visita, o cartão do banco, cada livro, cada palavra que eu diria e cada som que talvez saísse das caixas. O microfone e o papel de presente eram, então, inúteis. E as canetas, e os papéis, o teclado do computador. E assim eu teria o silêncio porque dentro de mim é como no centro da cidade que bobagem, entulho, barulho, palavras, gente e a espera impaciente pelo silêncio do fim do dia. Eu joguei fora a espera que contava as horas do meu dia e ela saiu acompanhada das horas do meu dia e do talão de cheques. Assim escorreu a porta que afinal se abriria. Ficou tão vazio que nem o silêncio chegou.
 
Quinta-feira, Junho 16, 2005
 
paul éluard na tradução do Léo

nudez da verdade
“eu bem sei”

o desespero não tem asas
o amor também não,
nem rosto,
não falam,
eu não me mexo
não olho pra eles
não lhes dirijo a palavra
mas estou tão vivo quanto o meu amor e o meu despero
 
 
Enquanto dormia, a parede cresceu. Enquanto a parede crescia, escrevia. Traçava impressões, inventava conclusões, sorria, apertava os dentes, criava rugas, curvas, gotas, cores. Entortava linhas. Enquanto a parede escrevia aliviava a pressão do sangue que circulava no plexo solar. A parede fazia bem. Em perspectiva, enquanto ameaçava cair devagar sobre sua cabeça. Esquecia, enquanto isso, impressões importantes bicolores, grandes palavras mãos que ultrapassavam o concreto e procuravam pouso em seu seio esquerdo, enquanto trancava a porta do quarto antigo.
 
Quarta-feira, Maio 11, 2005
 
Esse é da Lenise Regina. O de baixo é ainda pensando nesse. E eu gosto de tudo o que essa moça escreve. E tem outras coisas legais dela e de outros no número novo da Revista Etcetera.



menos

Não calava vozes.
Dizia o silêncio. Em silêncio.
Traço. Mantra.
Medo despido de
medo.
De corpo e verbo ainda
letárgicos,
flocos-doces na boca
da criança.
Incômodo sorriso sem remorsos,
de quem também tinha borboletas
no coração.
Tesão apavorado ante o negror do
buraco.
Caberá tudo num só gozo?
 
Terça-feira, Maio 10, 2005
 
Antes


Naquele tempo o silêncio
era mantra
repetido até quando,
circular,
ciranda de gotas de chuva em viagem ao chão.
O silêncio, o chão.
Circulares, infinitos, salgados, temidos
curtidos como couro até perderem o sentido.
E no dito tempo, a mãe dizia:
"O sentido do céu
está embaixo do chão."
No momento rígido em que
a gota beija o chão.
 
Terça-feira, Maio 03, 2005
 
O Dia
Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam o cálcio branco, duro e estridente e fazem doer a mandíbula. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra. No fundo, só sangue trincado nas veias, giros no tronco como se vestisse um espartilho torcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam somados ao calor úmido do fim da tarde. Só a mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece, mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. O sangue torcido em espiral invadindo a garganta. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa. Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica. A água como que salgada cheia de calafrios e águas-vivas queimando os olhos, rondando as sombras, “a água” - ela pensou - “a água permite que eu doa sem contrair os músculos”. “É muito difícil manter todos os músculos relaxados, sabia?”, ela insiste. Vista assim a meia-distância, era como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há”. Como se fosse possível ser implacável, como se houvesse coragem. Não há.

Para a menina sentada a frente dela, nada daquilo parecia inteligível. Os lábios se moviam e a menina se restringia a achar tudo muito bonito: aquela mulher, aquele cheiro, a fivela no cabelo, a paisagem atrás. Não sabia o porque do choro, do sorvete, da tarde fria e suja sobre a calçada portuguesa. Nem porque é que olhava a sua volta com cara de pena enxergando pessoas carregando cansaço e certeza de morte a cada próximo passo sobre a calçada portuguesa. A certa altura desistiu de tentar entender e se distraiu reparando as janelas de um edifício e picando os guardanapos e palitos de dentes. Na menina não havia um grito aterrorizado.
Ela, afinal, era parecida com Laura: chorou um pouquinho, calou-se e dormiu sobre a mesa com gosto de menta morna nos olhos.
Foi quando chegou em casa que Laura pensou, em frente ao espelho, reparando de muito perto alguns aspectos de sua expressão. Laura pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adiantava mesmo pensar. E, se chorasse, logo ela se distrairia com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas. Questões morais não faziam mais sentido e Laura andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado. Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Cada palavra se encarregava de alienar seu sentido diante dos olhos de Laura mas a cada passo ela não caía. Porque pisava, mas não via o chão. “Não sei de nada. Não li o livro”. Estava vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.


O dia seguinte nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul.





















Pelo Meio do Caminho de NuvensLivre como uma água-viva. Havia tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olhava nuvens a cinco metros de distância. Por um tempo, ela foi assim. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando água vivendo água. Não se concentrava. Não lia. Não fazia. Não saía do lugar. Quando se movia era porque o mundo se move, lento como um Titanic e perplexo diante de cada revelação do sol. Não achava as palavras. Não pensava antes de falar. Não olhava nos olhos, não sabia apertar mãos. Não causava boa impressão. Avisava: “não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa”. Temia os versos de sua cabeça. A cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. É mentira a sensação que corre as pernas, a espinha, enche o crânio, ferve a face e fecha os olhos diante da palavra. Não rimo, minto. E na cabeça quase podia enxergar as células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase podia ver a respiração crescer, o corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista levou a obra inteira pra tocar.













Ela sorriu, ela sorriu, ela brincou, ela dançou, pendurou no lustre, rolou, caiu, fugiu. Ah, ela dançou, dançou, dançou e seus braços ocuparam todos os cantos do quarto do hotel. Ela abriu a janela, os braços e dedos começaram a crescer, se enrolaram em cada quina do quarto, debaixo da cama, atrás do lustre. Mas o chão suou, ela deu cambalhotas e rapidamente se viu presa entre a TV, a mesa de anotações, a cama, o armário e o banheiro. Escolheu o banheiro, se trancou no espelho porque dava a sensação de ter pra onde ir, de ter gente pra olhar. Olhou o próprio rosto, achou uma pinta pequenininha no lábio esquerdo, se lembrou do parto, de ver a pinta no lábio do bebê e afirmar: é minha. E não era. Laura é que era daquele bebê. Laura pertencia àquele bebê e só sairia do pé da cama quando ele permitisse. “Quem cala consente”, ela pensou antes de adormecer sobre mármore da pia.


















O sonho

Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes). Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.




















Depois de alguns dias a vida virou tentativa. Para Laura, o momento em que os dedos entravam lentamente nos chinelos de manhã era o mais longo. Durava cerca de duas horas. Os centímetros se arrastavam sob os pés e ela fixava os olhos pra não perder a concentração. Ao meio-dia os pés chegavam aos chinelos. Ao meio dia ela erguia a cabeça e se sentia profundamente cansada. Ao meio-dia havia o barulho do mar doze andares abaixo e depois de evitar a janela Laura se animava.

An attempt to
Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.

O Encontro
A dor do encontro foi definida em corte cirúrgico com um único telefonema, sem resistência, sem perguntas. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. Amanhã, onde a cidade deixou de existir. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetrava pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos mediam 24 anos, os olhos agora são fixos. O ventre vazio. O coração agora é espuma e as bolhas ferventaram e transbordaram dentro do tórax. Laura chegou e avistou o vulto da moça triste na janela. A sombra no muro de chapisco. A moldura entristecia o vulto da moça. Não há motivo, não há moldura, a sombra no muro triste de chapisco. E mesmo a sombra, ela não há. O vulto do muro de chapisco gritado da janela não há tom de azul assim no céu. O muro da moça na janela triste, só há o preceito da tristeza, o muro chora chapisco, receita familiar, implacável. Vontade.
(Pausa. Laura desembrulha o papel azul do bolso e estica sobre a mesa. Câmera no papel, legível)
Só há a pergunta. Calada, Laura sentiu pena da sombra dos próprios cílios na parede e entregou o bilhete em letra caprichada e papel de carta azul.













O Bilhete
“É que eu sonhei com a água, filha. Eu sonhei com o mar revolto. Azul-sombrio e o cheiro de rocha. Era duro como rocha, o meu sonho. Ah, filha, era assim: você abandonava o bebê ao mar. Você o deixava ir e me contava com expressão inocente, de quem desconfia que fez algo de errado. E o bebê era meu, filha, veja, eu sonhei. O nome era Francisco. Você disse que ele quis. E eu procurava por ele no mar. Por toda a baía. Talvez desse tempo. Você havia pintado seus cabelos de azul. Por todo canto e as ondas de azul-petróleo eram cada vez mais sombrias. Filha, a água ia acolher o meu bebê. Ele também era meu filho! E o acolheria tão completamente que ele desejaria afundar. O mar era denso, seu nariz e sua boca estariam travados, ele não iria mais querer respirar. Ele fecharia os olhos e, embrulhado na manta de linha de algodão, afundaria. Você sabe, eu gritei, era meu filho. E eu não quis que você escutasse o grito, menina. Porque você, afinal, também é minha filha! Filha! O menino afundava e todos me consolavam porque eu sou mãe. E eu já temia encontra-lo. Eu não queria ver seu corpo boiando, preferia sonhar que o mar o estava ninando e que o acolhia e escurecia seus olhos como o sono chegando manso em meus braços. Preferia sonhar que ele não sentia frio.”
 
Quinta-feira, Abril 07, 2005
 
Ai que bonito eu achei, do Felipe Fortuna, depois de ler um artigo muito do malumorado sobre os marginais.



Gritos e Sussurros

Alguma coisa em mim é a tua dor.
Com ela eu adoeço; mas não dou
meu corpo à tua dor, senão me perco.
Senão me esqueço de tocá-lo, assim
como a flor sobre o muro esquecido.
E me calo: a dor é o silêncio e o muro.

A dor é o mundo? Mas não a sinto.
E, armado até os dentes,
mordo o mundo, mordo o corpo
por pertencer à minha vida, por estar junto
à minha dor, à dor de todo mundo.
Venha então o meu corpo ou o teu corpo,

pois tanto faz, se a dor é a mesma, gritar sozinho.
 
Terça-feira, Março 08, 2005
 
Dentro da casa, só

Dói, insisto.
Paro, sento, teço a dor
Faço rosas, faço ventos, cubro-me
Tranço linhas confusas e frias.
É por nada
Porque só caminho sobre a brita
Surda leio lábios
Cruzo as pernas com displicência
olho pra baixo.
De pernas trançadas
lanço ventos frios pra uma trama piniquenta.
Depois retorço as mãos segurando a colcha em direção
ao seio. Sonho lutas que não se acabam.
Não sou eu. Apenas faço votos de felicidade sob a colcha.
E assim, quando algo me aplaca deixo pela metade.
Paro, sento, teço a dor e o
tecido não me cobre.
Minto a idade,
O vento do tempo me revela.
 
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
 
Você me cobre o frio? A mudez? O calor? Você me cobre o rosto? Você me cobre os olhos? E se for mesmo bonita a falta? Você me cobre o vento? O dorso? O volume, o império? Você vem com flores? E eu deito um pedido branco-eterno, uma espera inconformada, uma esperança insatisfeita sob tecido em forma de noite. Eterna. Muda.
 
Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
 
É que eu ando tão depressa... E se o tempo quebrar? E se o céu partir o tempo, o vento for comprido? Vão saber costurar? Vai ter corda pra prender? Vai ter gente pra puxar?
Ainda saio da covarde corrente do sal, discordo do mar. Ainda tento ser maior que o pai e saber que costuro cacos se o tempo quebrar.Talvez aprenda valentia e não precise coser, não haja louça, não haja passo. Talvez eu consiga haver só o tempo. Batendo. Em silêncio.
 
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
 
O vento novo carrega a areia, o tempo, tijolo e pedra
Deixa o sol pra trás
Varre o corpo, a criança, o mar
O vento novo traz a tarde, sopra os olhos, salga a nuca
E deixa delicada a noite pequena, a maré cheia, o céu de brigadeiro
Depois suspira
e só desfalece.
que tem cargo vitalício
e não morre nunca.
 
Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
 
O livro


Havia de encontar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto :
outonos e invernos
esquecidos
entre páginas amarelas
e a dor,
essa traça inútil.


Micheliny Verunschk
 
 
E eu ganhei uma menção honrorosa na bienal dos piores poemas. Recriei Frank O´hara. Olha que m.:



Thinking of James Dean

For a young actor I am begging
peace, gods. Alone
in the empty streets of New York
I am its dirty feet and head
and he is dead

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Pense em outra coisa

Peço paz a James Dean
O que espero?
Ruas vazias em Nova Iorque?
Um atentado sobre minha cabeça suja.
Ora, James Dean está morto!
 
Quarta-feira, Dezembro 15, 2004
 
Meu poema de natal

Branca. Muito branca a pele da nuvem. É sobre ela que o sol se espalha quando é verão. É da nuvem - que entre trôpegos acentos avança para reerguer sua alegria - que emergem pés brincando de bailarina e submergem faces enrugadas de olhos fechados. É assim que se prepara a cambalhota do tempo, da intenção, da bondade, do futuro; pra que a nuvem espalhe seus traços e aplaque qualquer caldalosa angústia com sua espuma etérea, branca, cheirosa.
 
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
 
Ainda não dormi. É que a gente não fica de bem e aí não conversa. Aí não dorme aí tenta dormir. E não dorme. Mas uma hora dorme, é a minha esperança. Primeiro franze a testa, tem vontade de chorar mas não consegue. Primeiro é assim, cheio de raiva. Depois só sente a falta do abraço de ninar, da cantiga de ventilador-velho da respiração no ouvido da gente. Tem medo de tudo, levanta da cama, vai pra sala, acende a luz e espera pelo resgate. Mas você não é disso. Cansa mas aí volta pra cama e você ronca... E é como que impossível dormir e mesmo que eu tente fazer as pazes não tem jeito e você não me consola do peso do dia de amanhã e não me beija e eu não me esqueço. Penso nos compromissos, nos emails, na agenda, nos textos, tenho raiva. Só então é que tem jeito de chorar de verdade. A vida pesa, dizem que é carma, eu acredito. O fato é que o resgate não chega e eu de luz acesa sentada no sofá. É que se for pra cama vou esperar a todo momento a sua mão no meu ombro. Só saiba que, quando você me abraçar de novo, eu vou estar muito brava.
 
Terça-feira, Novembro 23, 2004
 
Frescor de noite barata, de ceia de rua, de credo rezado a dois. Inveja matou meus calos, trombou o fusca da esquina no tênis e baratas moravam nas frestas. Você protegia meus entrededos. É de quando meu leite derramava e você sorvia sorrindo, tanto quanto é possível. Uma poça de dias não-passados pingava debaixo do asfalto mas nós não sabíamos. O medo é meu substantivo recorrente, de presença tão certa quanto o assento flutuante do avião. Inveja antiga me cutuca, refresca a memória, o leite dela respinga e uma gota atinge meus olhos. Sinto sabor.
 
Segunda-feira, Novembro 01, 2004
 
Tenho linhas nas mãos, elas caminham como vermes pelo meu corpo. Sentidos partidos me tiram conclusões débeis enquanto tomo a xícara de café muito forte e troco as letras do alfabeto. O tapa olho persegue a mira do meu olhar mas é mais ágil que eu. Eu suo. Faço votos de que termine tudo bem e a esperança é patética. Densa. Corruptora. Eu me entrego ao consolo porque no fim de toda a coisa me descubro fraca, fraca, fraca. Frágil. A certeza quebra junto com o salto da sandália que me encomprida as pernas. São bonitas e eu preferia estar sobre elas. Você me segura pelo braço, machuca. Deixa um vergão vermelho quando seus dedos escorregam. Planejo as próximas férias. Eu não caio porque do chão não passo.
 
Segunda-feira, Outubro 25, 2004
 
Memory dials
primeiro discado
"é verso antigo"
diz o recado
é noite branca
é fada fresca
sonho partido
gesso trincado.
E suas mãos me enchem de úmida espera.
 
Sexta-feira, Outubro 08, 2004
 
Os meninos andam em círculos pelas árvores. Têm faces sardentas, mãos rudes, olhos intactos, pênis delicados. Suspiram ares salgados e portas fechadas. Encontram o vento, levam presentes. Entoam o coro: "então nós vencemos, o perdido vive sob o mar, somos vento. Então, meu amor, feche os olhos". O vento se cala enlutado em choramingo contínuo, semitonado, imperceptível.
 
Quinta-feira, Setembro 30, 2004
 
Meu barco segue seu enredo, querido. Suas veias, seu teto, sua saliva. Irei sempre te estender a mão querendo ajuda, não porque eu possa te salvar. Minhas costas eretas sempre seguram seus cabelos. Além disso fazia frio, na ilha e eu não queria estar lá. Você me busca? Você me encontra? Você consegue encontrar a ilha fria no meio do mar? Você segura a minha mão quando o lençol afundar?
 
Quarta-feira, Setembro 29, 2004
 
Espere o calor passar,
o sono ventar.
A senha é
sede
seda
servo
senso
silva
salmo
sonho
sol
Espalme a mão esquerda sobre a minha barriga esticada sobre a cama.
 
Quinta-feira, Setembro 23, 2004
 
Corrigindo: a Micheliny não ganhou ainda, é "só" uma das dez finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
 
 
A libélula chega dançando mansa sobre a piscina. Ameaça o equilibrio do corpo que bóia de maiô preto. A libélula se aproxima, salpica a água, contorna a moça, começa pelos pés. Joelho, quadril, cintura, ombros. Chega ao ouvido, se demora mais um instante, sussurra dois saltinhos. Oferece mais um e a moça consente com a cabeça. Na testa e a moça se desequilibra, balança, entorna duas gotas, encontra o chão com os pés - perde o jogo.

 
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
 
Olha, que bonito! É daquela moça que ganhou o prêmio, Micheliny Verunschk (ô diabo de nome difícil).

Segredo de camarinha

Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.


Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.


Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.


Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.


(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)


Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.

 
Segunda-feira, Setembro 06, 2004
 
"(...) a cada momento, tudo se perde." (caio fernando e a sensação do dia)
 
Terça-feira, Agosto 31, 2004
 
Ardiam os olhos e as solas dos pés da moça da estrada. A estrada era plana, ainda bem. O sol rachava, mas brotavam olhos d´água fresca pelos barrancos. Enfim, havia um certo alívio na terra vermelha. Os pés ardidos agradeciam quando a lama abraça os dedos. A moça parava algumas vezes, para olhar os feixes de lama emergindo entre seus dedos. Outras vezes deslizava e se desequilibrava. E pensava que é muito bom que, quando o sol está assim tão forte, existam olhos d´água brotando dos barrancos. Até que teve um pedaço da terra molhada em que ela deu de pisar, e se apoiou com o calcanhar, e o outro pé patinou e caiu toda a roupa no chão. A saia ficou molhada, as mãos cheias de lama. A moça pensou em chorar, pensou em abrir os olhos, pensou em se levantar depressa, pensou em sentir calor. Mas então ela se arrastou para a margem da estrada, como se não pudesse mais se levantar, se recostou na terra do barranco e deixou a água barrenta rolar sobre a testa, o nariz, a boca, o queixo e o pescoço. A moça deu um grito. Um grito de fonema aberto, um “á” interminável até esvaziar o ar dos pulmões. Era muito mais. Era tanto mais que não havia o que dizer, que não havia tempo pra chorar, era só o deleite. Só o deleite silencioso da lama cobrindo o rosto da moça, escorrendo pela barriga, por entre as pernas, pela coxa. Foi o deleite de não sentir mais que ela era feita de ar empoeirado por dentro, de se ver livre da tosse, de sentir a matéria úmida e densa da lama nas entranhas, de sentir seu corpo todo preenchido como se gozasse fundo e rouco sob a lama. A moça percebeu que era tão feita de terra molhada quanto uma minhoca. Podia comer terra. E que o ar seco e a poeira vermelha que a invadiu pela boca e narinas quando ainda era menina, na beira da estrada, agora a abandonariam para sempre.
 
Quinta-feira, Agosto 26, 2004
 
Namorim

Sinta o beijo
Da lua:
Sou eu, sua.
 
Segunda-feira, Agosto 23, 2004
 
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

Paulo Leminski
 
Sexta-feira, Agosto 20, 2004
 
logo depois da cerca de ficus há o portão. Branco e retorcido em formas redondas que lembram flores. Abrindo o portão, avista-se a porta de madeira, meio metro depois. Depois da porta; Ah, depois da porta é o mundo. É uma fotografia em grande-angular, uma chuva caindo mansa e exércitos de formigas carregando flores. É uma sinfonia grandiosa, são os cabelos da bailarina se soltando no meio do rodopio, as sapatilhas caindo pesadas sobre palcos de madeira. É uma fruta, uma firula, um furto de goiaba, um tédio. No centro, ao fundo, há um bebê de ventre aberto. Um grande corte vai do peito ao umbigo do menino, que é muito negro e ri sossegado. Seu corpo pulsa e permanece aberto e indolor. O menino está envolto em ar perfumado, não sente fome, nem frio nem dor. Nada incomada o menino, embora ele não possa ser tocado. Nada faz com que ele respire, nada perde o movimento lento de sua boca, nada o ignora. Ele não chega a nenhuma conclusão e é sábio o suficiente pra permanecer na falta de desejos. Ele não precisa. O menino não tem dentes. O menino é só um meio sorriso insistente de lábios doces de mais. E a medida que é observado mais e mais de perto, mais e mais longamente, ele se torna cínico, irônico, imoral, insuportável. Não se move mas do alto de sua satisfação emite sensações de medo, dor e uma doçura amedrontadora na lingua. Não toque-o. Ele irá persegui-lo a vida toda.
 
Terça-feira, Julho 06, 2004
 
Momento Malu no teço-teco balançante indo em direção a uma enorme nuvem negra entre Salvador e Morro de São Paulo:

Ela: Mãe, aquilo ali é Salvador?
Eu: É.
Ela: E aquilo lááá longe, é Belo Horizonte?
Eu: não, filha, é Itaparica.
Ela: e cadê Belo Horizonte, mãe?
Eu: Iihh... Ta tão longe que não dá nem pra ver.
Ela: ahn... (pensando)
Ela: mãe?
Eu: quê?
Ela: o mundo é bem maior do que eu pensava.
 
 
Momento Carrie Bradshaw da Malu

Ela, olhando pro meu pé: E esse sapato novo, heim!
Eu (de plataforma): Pois é, você viu? Bonito, né?
Ela: lindo... Você me empresta?
Eu: não cabe, né.
Ela: mas quando o meu pé for do tamanho do seu você me dá TODOS os seus sapatos? Porque não vai mesmo caber no seu pé, né. Ele já vai estar deeeste tamanho...
Eu: não, filha, o meu pé não cresce mais.
Ela: mas você vai estar velha, não vai usar sapato de “nova”...


 
Sexta-feira, Junho 25, 2004
 
Ela vivia um amor de mãos atadas. Um amor sem abraços, alguns beijos e muito sexo. Ela vivia um amor assim, meio seco e encarava aquela fisionomia com cara de interrogação. Como assim? Não era como ela conhecia o amor. E apesar de estar convencida de que era um graaande amor, duvidava de tanto olhar. Procurava nas sombras de seu rosto irregular a face fresca e aveludada. Vez em quando perguntava: é você mesmo? Ele concordava balançando a cabeça. Continuava de sobretudo preto e braços cruzados. Atados na postura militar como se fossem ordens superiores. O amor não se movia. E, quanto mais ela olhava, mais duvidava. Rodeava, fazia cócega, soprava o ouvido. Ele permanecia imóvel. Em silêncio. Não o silêncio denso entre o amor e o amante. Só um silêncio. Quando ela ameaçava ir embora ele tossia. E ela voltava a olhá-lo nos olhos. Ou então ele tirava uma das mãos duras do sovaco e encaixava no queixo-maxilar-orelha-nuca dela. E era tão quente a mão que ela fechava os olhos e conseguia enxergar o amor. Mas ela vivia muito o amor de mão atadas. E quando ele parava de se dedicar a ludibria-la, ela percebia que não tinha o que fazer com aquele armário de sobre-tudo preto. Se guardava na geladeira pra não perder, se tirava do meio do caminho, se o abraçava sozinha, se sorria pra ele. E pra que serve um amor de sobretudo? Onde é que se coloca? Como é que se conserva, o que se dá de comer? Ele precisa dormir? Ele vai à escola? De toda forma, não podia se livrar. Ela estava líquida de amor e escorria a volta dele formando uma pequena poça leitosa na taboa corrida.
Ele ficou muito tempo por lá. Meses, mais de ano. Ela chegava de noite do trabalho, dava um beijo no rosto, tomava banho e ia dormir. De manhã comentava alguma coisa do trabalho enquanto tomava café e saía. E era assim todos os dias. Ela não engravidou sem planejar. Ele envelheceu mais rápido. Enfim, eram um casal. E havia uma certa química entre eles que só era interrompida pelas duvidas a respeito da idoneidade do rapaz. Ela não dizia mais nada. Só murmurava “você vai ter que mudar” pra não ter que discutir o relacionamento e espernear de novo. Ela sabia, ele não mudou. E assentiria com a cabeça eternamente se ela perguntasse “você é mesmo o amor?”. “Você é mesmo assim?” “Eu te amo.”


(continua)
 
Terça-feira, Junho 01, 2004
 
É o primeiro dia de junho do ano 2004 a contar do nascimento de Jesus cristo. Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam umas contra as outras as células repletas de cálcio branco, duro e estridente. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra, dada a força de tudo o que ela tinha a dizer. No fundo, banalidades de sangue trincado nas veias, giros no tronco feito espartilho retorcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam, somados ao calor úmido do fim da tarde. Na verdade eram as banalidades da mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa.Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica como que mortos. Como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há.” Laura falava como se fosse eu implacável, como se houvesse coragem. Não há.
 
Quinta-feira, Maio 27, 2004
 
Fragmentos necessários I - Já é amor


Aí já é o amor. Você finge não saber, mas aí já é. O pensamento não cria outras formas além do seu caminhar, a maneira como prende os cabelos, suas opiniões sobre filmes que falam do amor assim como dito aqui. Entende? Você não pode negar que é amor, mesmo que ache outras palavras para apontar como esse sentimento usa roupas maltrapilhas. Minha querida, antes que sua boca termine o contorno de uma difamação, o amor troca de roupas e se oferece com o frescor de rara manhã de céu aberto. Portanto, abaixe essa armadura, destranque o sorriso e se for beber, que ao menos nos entrelacemos na possível busca de novos prazeres.

(do Walrus)
 
Segunda-feira, Maio 24, 2004
 
Mordo meu peito feito maçã. O suco espirra a um metro e vinte, não prego os olhos.Você mastiga. Só pisco. Você pega a toalha e vai pro chuveiro colher maçãs.
 
Quarta-feira, Maio 05, 2004
 
Natureza Morta

Cinco. Abdominal Class, ovos mexidos, garrafa plástica. Suculenta, Montesquieu, 126-240. Papel. Cartão de visita, meus documentos, fine line pen. Ponto final. Sete pontos. Ao vivo. “Você quer?” Quero. Sigo cega sono afora, trancada pelas costas, rendida pelo cansaço dez metros por segundo ao quadrado, farta, até o chão.
 
Terça-feira, Maio 04, 2004
 
Seu entorno espontâneo tênue névoa rosa-pele pigmenta o papel fotográfico. Nos meus olhos, a luz sorteia contornos e páupebras e borboletas e as veias rudes da sua mão. Meu corpo enquadra seus olhos. Não sou paciente. Não desconfio. Minhas palavras são sempre não.
 
Segunda-feira, Abril 26, 2004
 
O dia nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul. A dimensão da dor foi definida em corte cirúrgico. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetra pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos medem 24 anos, os olhos agora são fixos.
 
 
O homem dos livros põe de lado o almanaque. Não se engane, ele não lê. Só enxerga de longe pretensos poetas – os óculos são para perto. O homem dos livros tem barba e estantes. Pilhas nas mesas, cadeiras e no chão. Faz promoções de letras usadas, tratadas, amarelas e relegadas aos pés-de-página. O homem dos livros conhece a força das letras encorpando uma onda. A maior da lua, a que tem a arrebentação mais bonita, a de água morna, a que pensa que vai partir a rocha. Os óculos são para ver de perto o azul-petróleo denso do mar de palavras formando a onda mais espessa. E é ele quem permanece de pé para ver a última espuma se desmanchar e guarda em segredo que é esse o deleite do poema.
 
Segunda-feira, Abril 12, 2004
 
Olás, se é que ainda tem alguém aqui. Estou perdida em Salvador. Algum soteropolitano por aqui? Mande email, deixe comentário, please! Espero dicas de programas para uma Belo Horizontina já com saudade de casa.
 
Quarta-feira, Março 24, 2004
 
Foi aí que Luiza pensou, com seus botões, em frente ao espelho, reparando de perto muito perto alguns aspectos de sua expressão. Luiza pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adianta mesmo pensar. A bezerra morreu, o leite derramou e, se Luiza chora, logo já se distrai com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas.
Então ela não pensa, chora um pouquinho, se cala e vai dormir com gosto de menta morna nos olhos.
 
Terça-feira, Março 23, 2004
 
Há 11 meses

-----Mensagem original-----
Enviada em: terça-feira, 23 de março de 2004 17:33
Assunto: RES: sonhos, sonhos são

eh... tá com cabelo preso pra cima, tá com um sorriso bem bobo por dentro
mas um quase sorriso por fora, porque tem que disfarçar. Tá com expressão de
suspiro, olhando longe. Projetada na testa está a cena do encerramento do
Comida di Buteco com você me apertando até me deixar sem ar e me pedindo
desculpa por estar Meloso. Caetano Meloso. E eu rindo, rindo da piada. E eu
me sentindo feito uma coisa de pelúcia no meio de toda a "gente bonita" e da
"festa bombando", achando que tava todo mundo olhando pra gente e pensando
porque aquele rapaz ficava apertando aquele urso azul. Atenção especial à
legenda "eu te amo, você sabe" em times do email de hoje cedo.
 
Quarta-feira, Março 17, 2004
 
Mulherzinha


Continuo tentando escolher suas palavras à dedo. Planejo colocá-las em papel azul-claro, fazer eu mesma uma moldura de flores coloridas, caprichar na letra e pregar na parede do quarto do Drummond (será que ele vai dormir lá?).
Cada vez que te olho, encontro seus olhos e me assusto, tenho medo de estragar coisas, trocar os pés pelas mãos, vestir a camiseta “DRAMA” e foder as coisas. Eu me conheço e não quero isso pra mim.
Dessa vez vou cuidar bem, parar minha cabeça no ar quando vier a queda livre.
Um dia eu acho as palavras pra você. Prometo não cansar de procurar. Vai ser alguma coisa com MANHÃ, ALGODÃO 200 FIOS, BANHO DE MAR EM RIO DE JANEIRO COM CHUVA, LEVE, INESCAPÁVEL E FELICIDADE.
Por enquanto, espero que essas te beijem o coração, pra eu poder deitar no seu peito de novo e ouvir barulho de onda sossegada em mar fresco-quase-morno.



Salete Goldfinger



Seus olhos furtados no trânsito
o bejio não acabou
quando o sinal abril
fechou
o sinal abril, veja: verde
sobre a lataria
em energia elétrica,
aço empoeirado
e vidro. Verde.
Amo a hora de te deixar na cama
de ver a distância o seu amor
de ser torrente de ternura em olhos
e um beijo no rosto.
 
 
A mágoa parecia transbordar o crânio e encher os olhos, o peito. Assim, tomada do líquido aquoso e rosado da mágoa, Luiza já não dizia coisa com coisa e só queria ficar alegre de novo pra poder dormir. Questões morais não faziam mais sentido mas Luiza andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado.
 
 
Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Luiza vence o vento e avança. Segura os cabelos e continua. Enfrenta a areia e segue. A cada passo ela não cai. Porque pisa mas não vê o chão.
 
Quarta-feira, Março 10, 2004
 
por 26 de fevereiro:

a vontade é tanta que perde o alvo
a vontade é flecha que goza no ar
a vontade não quer gozar
a vontade é mantra repetida em si mesma
espalhada a esmo, barata tonta
a vontade é alienada
é alegria entrincheirada
infértil
quando atinge o alvo
a vontade é tanta
tanta
a vontade é tanta lama, casca, caule, folha, flor
é esparramada no deleite de correr
correr correr
 
 
O ventre vazio. Meu coração foi transmutado em espuma e agora bolhas ferventam e transbordam dentro do tórax. Calada, eu sinto pena da sombra dos meus cílios na parede.
 
 
É só que hoje me deu uma saudade muito grande do cheiro do ar quando alguma coisa boa vai acontecer.


Acaso e Caos

E alguém sabe porque é
Que dia desses
Sem menos
Sem tempo
O show não deu pé
A cerveja acabou
E a gente foi parar naquele beijo?
 
Sexta-feira, Março 05, 2004
 
o vulto da moça triste na janela
A sombra no muro de chapisco
a moldura entristece o vulto da moça
não há motivo, não há moldura
a sombra no muro triste de chapisco
e mesmo a sombra, ela não há.
o vulto do muro de chapisco gritado da janela
não há tom de azul assim no céu
o muro da moça na janela triste
só há o preceito da tristeza
o muro chora chapisco
a receita familiar
o implacável
a vontade
só há a pergunta
 
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
 
Mil coisas. Outra casa, outro tempo, outra versão. Bem, está dito o essencial: não aceito unhas cortadas junto com casca de banana podre na esquadria da janela. Calma, quem está na chuva é pra se molhar. Retiro o dito, apenas olhe a expressão das minhas mãos na beirada do sofá. Repito. Não sei pra quando. Prazo prorrogado indefinidamente até que tudo se acerte, até que o mundo se deite e eu tenha sossego e fume e tenha cigarro e uma varanda sem parede mofada.
 
 
"Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."


(Drummond)