Página Preta
sexta-feira, outubro 20, 2006
 
Dia aflito fim da
florada travessia - viaduto.
Todo dia ando viaduto como deus -
sobre o fluxo de automóveis:
Debaixo de viaduto não passa rio braço
mar
Mas fluidos carros se espalham pelo leito,
Serve.
Mais de-tardinha, escorrem faróis vermelhos
Fumaças franzidas de dia aflito fuligem e,
Todo dia
Penso em cair sobre o piso raso viaduto
oco tempo, fluxo barulho automóveis correm leitos de gente
Rios exalam fumaça.
 
quinta-feira, setembro 28, 2006
 
Parto. Não me cabe essa fatia. Dou a volta em torno da mesa. A torta é a mesma. Torta. Barulho em baixo da toalha lisa. Nada. As formigas fazem silêncio. Emergem xadrezas sob a torta. Sobre a toalha, debaixo da torta. Clara. Torta. Cruzo as pernas. Cadeira. Frases sempre mais curtas. Pés resignados. Meus. As formigas caminham e fazem silêncio e caminham sempre. Tortas caminham sob o forro da mesa. A fatia aguarda.
 
sexta-feira, agosto 18, 2006
 
Ar condicionado

Sóbrias gotas correm teias, toldos
tendas, têmporas chocadas

Tâmaras tardias
Caem ácidas nas línguas
Ingênuas dos pequenos
Silêncio de boca assus
tada -
olhos atentos enxergam setembro
 
quinta-feira, maio 18, 2006
 
Sente-se, meus verbos serão todos tão imperativos quanto meus desejos.
Voltarei quando você se sentar.
Ainda, anda, senta.
Não, volta, senta. É vazia a boca que te cospe.
É manco o gesto que te interrompe.

Senta e podemos até criar um livro de provérbios milenares.
Ejacular a faca da sua mão
Tombar sobre a pedra crânios vermelhos

Senta, vamos tentar. O tempo está bom, senta.
Guardarei a sobremesa permanecerei quieta, aqui, neste mesmo lugar.
Você agüenta esse pulso, a pele espessa, os tendões
Você senta e eu te compro uma revista, um bombom, haverá uma brisa
Faço companhia até alguém voltar. Discutiremos cidades, concretos,
áreas de lazer.
Concordaremos. Farei café e o tempo vai passar. Estaremos despertas,
de pé, sobre a pedra fundamental. Afundaremos juntas, porque cabe a
nós e a mais ninguém. Assistir programas na televisão, dormir tarde,
ter cachorros, filhos, paredes, cds. Não sucumbir ao sorriso do céu
cinzento deixar que uma nuvem apenas espanque nossos corpos sobre o
asfalto, despenque molhada, gasosa e, gentil como carne de mãe, não
provoque nenhum espanto.
No tempo, as roupas irão secar.
 
segunda-feira, maio 08, 2006
 
Pra quem voltei a fazer versos desavergonhados de flor, dor, amor


Amor, marca a nota
Amor e traços frágeis contornam o tempo fresco, uma varanda
Amor, nome, tela, luta, lastro de céu sobre papel timbrado
Amor, timbre bem feito, gesto contado
Amor, o idiota sob a lâmpada apagada
Amor, minha idiossincrasia mais ousada
Amor, meus caninos em sua direção.
 
quarta-feira, maio 03, 2006
 
Mais uma de flor e dor.



Sempre-vivas

Certo é tirar a flor
deixar o talo
secar ao sol
comprar a dor
Arranjar num vaso sobre a mesa de centro
à vista
ao sol
a dor.
Ano que vem o cerrado sopra outra vez.
 
quinta-feira, abril 13, 2006
 
Eu mesma surgirei alegria
como bolha sob o mar
Eu mesma sei do tempo perdido
Do olho partido na palma da mão
Eu mesma segurei o corpo vencido
Eu mesma perdi a visão

Permitirei a fenda no olhar
Serei vereda quando o sal passar
Serei eu a eclodir do sal
Mas guardo uma cavidade para o sol

Será a mesma ardida alegria
Sem antigos olhos densos
Ainda assim será arder
Ainda assim serei sorrisos
Ainda assim cobrirei o rosto
E seguirei sem saber o tamanho do mar
 
segunda-feira, abril 10, 2006
 
Tenho um retrato surdo do tempo
Um retalho de carne
O vão cardíaco
Um último corte
O que tenho vai longe
É fio de voz em canção de ninar
São braços cheios que ninam meu resto
Um sono que embala meu corpo ereto
Tenho um talho do tempo em minha mão
De braços vazios não sei ninar
 
terça-feira, abril 04, 2006
 
Summer is ready when you are.
 
quinta-feira, março 30, 2006
 
Melhor chorar o leite derramado

Carrego alguém que não vem mais, perdi o eclipse do sol, perdi o sol dentro dos bolsos. Meu tempo era só esperar, agora. Agora não é mais. Agora não é mais tempo. Agora não tenho mais sol. Agora é um quando que ficou no começo da semana. Agora foi embora e eu fiquei, preciso que alguém me dê a mão, um copo d´água, uma pílula. Preciso de uma mãe. Estou presa na quarta-feira, na lua errada, no tempo escuro de quando chove à tarde. Eu vou chorar, chorar. Eu vou contar o tempo ainda assim. Eu vou chorar, não se engane. Meu rosto é são mas o resto é vulto estarrecido que não se revela.
 
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
 
Sentaí, ela disse, dizendo que ia fazer uma música comigo. Disse e já foi rabiscando o papel, não interessa a palavra mas a tentativa. Ah, a tentativa é que era bom, ela dizia e inventava letras, vocábulos, toda a Ópera. Eu faço a letra, ela não parava de dizer, e você faz o ‘ritmo’.Você quis dizer melodia, ousei e, desta vez calada, me calou com o olhar. Escreveu e ia dizendo o mar, o som, a mulher, o homem, o beijo de lingua, sorvete de creme holandês, mar. Perguntou pelo violão e eu lá parado, sem dizer palavra, que ela só dizia. Quando eu disse que a palavra tava repetida ela, repetida? A repetição é que importa, amor.
 
sexta-feira, janeiro 27, 2006
 
Se são só palavras tontas
Se são tantas palavras e ainda só
Ainda só me penetram a pele e as veias
Me correm e comprimem artérias
Atravessam ilesas sístole e diástole
Sons vadios pelos olhos, cabelos
Tontura, criança, gozo, cubos de gelo
São só,
Porque tão só consolam o tempo em que não existo?
 
segunda-feira, janeiro 16, 2006
 
A mulher se perdeu em seu próprio ventre. A mulher se matou por dentro porque seu ventre não estava mais lá. Seu útero já se espalhava pelo asfalto quente, estava calor, ela se lembra. Ela não se esquece, a mulher despedaçada sobre a cama. Ela desfalece em seus guardados, seus filhos, seus lençóis. Mas isso não é esquecer. Argumenta. Sua boca larga tem força pra dizer. Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abra. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padece com coragem e precisa de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos.
 
 
Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abram feridas. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padeceu com coragem e precisou de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos que criou.
 
terça-feira, janeiro 10, 2006
 
O papel travesseia com letras
Guerreia - são só travesseiros
Apesar de temer gemidos e gritos de horror
Trapaceia cordões de carícias do colo da mãe
que dá voltas pelo pescoço, cuida, cuida e beija, a mãe
Deixa roubar, distraída, devota do santo cordão
Corre vestida de letras e leva no colo o pobre papel
 
 
breve o tempo quente
branda o meio dia
bebe o sol de canudinho
de cabeça pra baixo
quente chupa o pé
penetra a telha
goza a gota:
breve, breve.
Atrás da montanha
o cobertor se esconde.
 
terça-feira, novembro 29, 2005
 
Ainda é tarde, o sol venta imóvel
sobre as plantas da sala.
Imóveis as
Plantas não se aguentam
Tarde e o sol vai baixar
erguer serras sobre a cidade de edifícios.
Tarde não há lua
não é verão
Não há tempo
para um banho de mar.
O mar já vai longe
Tarde
A tarde lança velhos hinos
Dança
velhos homens
traz meninos
e caminhões
Vão brincar
correr para oeste
permanecer.
 
 

Me respeitem! Agora sou uma senhora casada.
 
sexta-feira, agosto 19, 2005
 
Um poeminha de palavras fáceis que não faço mais drama:

Eu vou ouvir uma música assim:
Que expurgue água e verme
Que zuna um ruido leve
Que zombe a rua do eco
Que eu perca de cor
Que se preste ao calor
Que me faça calar

Uma que sirva na luz
da manhã de domingo
E que o domingo seja agora
E que agora não demore
Domingo, demais.
 
terça-feira, agosto 09, 2005
 
Existe pouca coisa
O mundo, pouca coisa
O que existe não serve
Por isso eu vago noites
ao redor da sua boca
e procuro minhas mãos
entre dobras de tecidos.

O que há, não se vê
Há que se penetrar
Há música pra saber
E não conter os passos
Embora eu te olhe
Embora você atravesse a sala
Embora eu sorria
Não contenha os passos

Se a cortina for aberta
A luz da noite é que existe
E à noite há pouca coisa
Há música pela casa, três quartos
Há espaço e o espaço é triste
Há que se dançar
 
sexta-feira, agosto 05, 2005
 
No poema
A tela é mármore sobre meus olhos
Clara, nua, luz, lúcida e meus olhos
Deita-se preguiçosa sobre a retina
molda-se a seu formato, ganha o páreo
Meus olhos ficam brancos e a tela é minha
Minha tela, leitura em branco, clave incolor

Meu poema, a ser escrito sem louvor
Sem bravura, sem leitor,
Sem o que manche mármore,
Ainda leva meus olhos brancos
Ao pátio, ao lago, ao campo.
Trava o frio em minhas mãos
Deita o repouso rígido
Vela o silêncio
Sela a lápide
Guarda da terra a carne
E a carne dorme.
 
sexta-feira, julho 22, 2005
 
Eu não

E quem sabe o aniversário não chega pra eu te dar o presente que escolhi a dedo? Questão de tempo, virá numa caixa, terá um escrito, você se assustará. Quem sabe você não se assusta pra eu te deixar de boca aberta, de olhos grandes e eu não enlouqueça pra saber de dentro da sua cabeça o que acontece a cada momento de boca aberta? Abre, meu bem, quem sabe não chega o dia em que eu vou parir e eu deixe vir a dor e o sangue como prova de amor? O amor é vermelho, me disseram quando eu ia pra escola. Quem sabe o amor não é verde-oliva-bandeira-mangueira-pasto? Em que cor você me ama? Que amor tem por mim? Quem sabe você não me ama? Quem sabe o amor é só o frenesi incolor de não ver dentro da sua cabeça? De ter que perguntar: Você me ama? De que cor você me ama? E agora, você ainda me ama? Ou o amor é só a prova de que eu sou manca? De que não ando com as próprias pernas? De que a felicidade é uma questão de tempo e de que o tempo foi feito para que fôssemos mancos. Todos. Ou eu não amo?
 
segunda-feira, junho 20, 2005
 
“Ai, que bobagem” – eu gemia os entulhos, as molduras dos quadros que eu gosto. Ia até a cozinha, fervia água, preparava a refeição e tinha mais panelas do que comia. Pecava pelo excesso e decidi jogar tudo fora. Até as colheres de pau. Até os lençóis. Até a espera que contava as horas do meu dia. E as horas. E a porta que afinal se abriria. E as cortinas. E os lábios, o cachorro, a visita, o cartão do banco, cada livro, cada palavra que eu diria e cada som que talvez saísse das caixas. O microfone e o papel de presente eram, então, inúteis. E as canetas, e os papéis, o teclado do computador. E assim eu teria o silêncio porque dentro de mim é como no centro da cidade que bobagem, entulho, barulho, palavras, gente e a espera impaciente pelo silêncio do fim do dia. Eu joguei fora a espera que contava as horas do meu dia e ela saiu acompanhada das horas do meu dia e do talão de cheques. Assim escorreu a porta que afinal se abriria. Ficou tão vazio que nem o silêncio chegou.
 
quinta-feira, junho 16, 2005
 
paul éluard na tradução do Léo

nudez da verdade
“eu bem sei”

o desespero não tem asas
o amor também não,
nem rosto,
não falam,
eu não me mexo
não olho pra eles
não lhes dirijo a palavra
mas estou tão vivo quanto o meu amor e o meu despero
 
 
Enquanto dormia, a parede cresceu. Enquanto a parede crescia, escrevia. Traçava impressões, inventava conclusões, sorria, apertava os dentes, criava rugas, curvas, gotas, cores. Entortava linhas. Enquanto a parede escrevia aliviava a pressão do sangue que circulava no plexo solar. A parede fazia bem. Em perspectiva, enquanto ameaçava cair devagar sobre sua cabeça. Esquecia, enquanto isso, impressões importantes bicolores, grandes palavras mãos que ultrapassavam o concreto e procuravam pouso em seu seio esquerdo, enquanto trancava a porta do quarto antigo.
 
quarta-feira, maio 11, 2005
 
Esse é da Lenise Regina. O de baixo é ainda pensando nesse. E eu gosto de tudo o que essa moça escreve. E tem outras coisas legais dela e de outros no número novo da Revista Etcetera.



menos

Não calava vozes.
Dizia o silêncio. Em silêncio.
Traço. Mantra.
Medo despido de
medo.
De corpo e verbo ainda
letárgicos,
flocos-doces na boca
da criança.
Incômodo sorriso sem remorsos,
de quem também tinha borboletas
no coração.
Tesão apavorado ante o negror do
buraco.
Caberá tudo num só gozo?
 
terça-feira, maio 10, 2005
 
Antes


Naquele tempo o silêncio
era mantra
repetido até quando,
circular,
ciranda de gotas de chuva em viagem ao chão.
O silêncio, o chão.
Circulares, infinitos, salgados, temidos
curtidos como couro até perderem o sentido.
E no dito tempo, a mãe dizia:
"O sentido do céu
está embaixo do chão."
No momento rígido em que
a gota beija o chão.
 
terça-feira, maio 03, 2005
 
O Dia
Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam o cálcio branco, duro e estridente e fazem doer a mandíbula. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra. No fundo, só sangue trincado nas veias, giros no tronco como se vestisse um espartilho torcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam somados ao calor úmido do fim da tarde. Só a mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece, mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. O sangue torcido em espiral invadindo a garganta. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa. Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica. A água como que salgada cheia de calafrios e águas-vivas queimando os olhos, rondando as sombras, “a água” - ela pensou - “a água permite que eu doa sem contrair os músculos”. “É muito difícil manter todos os músculos relaxados, sabia?”, ela insiste. Vista assim a meia-distância, era como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há”. Como se fosse possível ser implacável, como se houvesse coragem. Não há.

Para a menina sentada a frente dela, nada daquilo parecia inteligível. Os lábios se moviam e a menina se restringia a achar tudo muito bonito: aquela mulher, aquele cheiro, a fivela no cabelo, a paisagem atrás. Não sabia o porque do choro, do sorvete, da tarde fria e suja sobre a calçada portuguesa. Nem porque é que olhava a sua volta com cara de pena enxergando pessoas carregando cansaço e certeza de morte a cada próximo passo sobre a calçada portuguesa. A certa altura desistiu de tentar entender e se distraiu reparando as janelas de um edifício e picando os guardanapos e palitos de dentes. Na menina não havia um grito aterrorizado.
Ela, afinal, era parecida com Laura: chorou um pouquinho, calou-se e dormiu sobre a mesa com gosto de menta morna nos olhos.
Foi quando chegou em casa que Laura pensou, em frente ao espelho, reparando de muito perto alguns aspectos de sua expressão. Laura pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adiantava mesmo pensar. E, se chorasse, logo ela se distrairia com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas. Questões morais não faziam mais sentido e Laura andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado. Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Cada palavra se encarregava de alienar seu sentido diante dos olhos de Laura mas a cada passo ela não caía. Porque pisava, mas não via o chão. “Não sei de nada. Não li o livro”. Estava vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.


O dia seguinte nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul.





















Pelo Meio do Caminho de NuvensLivre como uma água-viva. Havia tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olhava nuvens a cinco metros de distância. Por um tempo, ela foi assim. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando água vivendo água. Não se concentrava. Não lia. Não fazia. Não saía do lugar. Quando se movia era porque o mundo se move, lento como um Titanic e perplexo diante de cada revelação do sol. Não achava as palavras. Não pensava antes de falar. Não olhava nos olhos, não sabia apertar mãos. Não causava boa impressão. Avisava: “não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa”. Temia os versos de sua cabeça. A cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. É mentira a sensação que corre as pernas, a espinha, enche o crânio, ferve a face e fecha os olhos diante da palavra. Não rimo, minto. E na cabeça quase podia enxergar as células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase podia ver a respiração crescer, o corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista levou a obra inteira pra tocar.













Ela sorriu, ela sorriu, ela brincou, ela dançou, pendurou no lustre, rolou, caiu, fugiu. Ah, ela dançou, dançou, dançou e seus braços ocuparam todos os cantos do quarto do hotel. Ela abriu a janela, os braços e dedos começaram a crescer, se enrolaram em cada quina do quarto, debaixo da cama, atrás do lustre. Mas o chão suou, ela deu cambalhotas e rapidamente se viu presa entre a TV, a mesa de anotações, a cama, o armário e o banheiro. Escolheu o banheiro, se trancou no espelho porque dava a sensação de ter pra onde ir, de ter gente pra olhar. Olhou o próprio rosto, achou uma pinta pequenininha no lábio esquerdo, se lembrou do parto, de ver a pinta no lábio do bebê e afirmar: é minha. E não era. Laura é que era daquele bebê. Laura pertencia àquele bebê e só sairia do pé da cama quando ele permitisse. “Quem cala consente”, ela pensou antes de adormecer sobre mármore da pia.


















O sonho

Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes). Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.




















Depois de alguns dias a vida virou tentativa. Para Laura, o momento em que os dedos entravam lentamente nos chinelos de manhã era o mais longo. Durava cerca de duas horas. Os centímetros se arrastavam sob os pés e ela fixava os olhos pra não perder a concentração. Ao meio-dia os pés chegavam aos chinelos. Ao meio dia ela erguia a cabeça e se sentia profundamente cansada. Ao meio-dia havia o barulho do mar doze andares abaixo e depois de evitar a janela Laura se animava.

An attempt to
Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.

O Encontro
A dor do encontro foi definida em corte cirúrgico com um único telefonema, sem resistência, sem perguntas. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. Amanhã, onde a cidade deixou de existir. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetrava pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos mediam 24 anos, os olhos agora são fixos. O ventre vazio. O coração agora é espuma e as bolhas ferventaram e transbordaram dentro do tórax. Laura chegou e avistou o vulto da moça triste na janela. A sombra no muro de chapisco. A moldura entristecia o vulto da moça. Não há motivo, não há moldura, a sombra no muro triste de chapisco. E mesmo a sombra, ela não há. O vulto do muro de chapisco gritado da janela não há tom de azul assim no céu. O muro da moça na janela triste, só há o preceito da tristeza, o muro chora chapisco, receita familiar, implacável. Vontade.
(Pausa. Laura desembrulha o papel azul do bolso e estica sobre a mesa. Câmera no papel, legível)
Só há a pergunta. Calada, Laura sentiu pena da sombra dos próprios cílios na parede e entregou o bilhete em letra caprichada e papel de carta azul.













O Bilhete
“É que eu sonhei com a água, filha. Eu sonhei com o mar revolto. Azul-sombrio e o cheiro de rocha. Era duro como rocha, o meu sonho. Ah, filha, era assim: você abandonava o bebê ao mar. Você o deixava ir e me contava com expressão inocente, de quem desconfia que fez algo de errado. E o bebê era meu, filha, veja, eu sonhei. O nome era Francisco. Você disse que ele quis. E eu procurava por ele no mar. Por toda a baía. Talvez desse tempo. Você havia pintado seus cabelos de azul. Por todo canto e as ondas de azul-petróleo eram cada vez mais sombrias. Filha, a água ia acolher o meu bebê. Ele também era meu filho! E o acolheria tão completamente que ele desejaria afundar. O mar era denso, seu nariz e sua boca estariam travados, ele não iria mais querer respirar. Ele fecharia os olhos e, embrulhado na manta de linha de algodão, afundaria. Você sabe, eu gritei, era meu filho. E eu não quis que você escutasse o grito, menina. Porque você, afinal, também é minha filha! Filha! O menino afundava e todos me consolavam porque eu sou mãe. E eu já temia encontra-lo. Eu não queria ver seu corpo boiando, preferia sonhar que o mar o estava ninando e que o acolhia e escurecia seus olhos como o sono chegando manso em meus braços. Preferia sonhar que ele não sentia frio.”
 
quinta-feira, abril 07, 2005
 
Ai que bonito eu achei, do Felipe Fortuna, depois de ler um artigo muito do malumorado sobre os marginais.



Gritos e Sussurros

Alguma coisa em mim é a tua dor.
Com ela eu adoeço; mas não dou
meu corpo à tua dor, senão me perco.
Senão me esqueço de tocá-lo, assim
como a flor sobre o muro esquecido.
E me calo: a dor é o silêncio e o muro.

A dor é o mundo? Mas não a sinto.
E, armado até os dentes,
mordo o mundo, mordo o corpo
por pertencer à minha vida, por estar junto
à minha dor, à dor de todo mundo.
Venha então o meu corpo ou o teu corpo,

pois tanto faz, se a dor é a mesma, gritar sozinho.
 
terça-feira, março 08, 2005
 
Dentro da casa, só

Dói, insisto.
Paro, sento, teço a dor
Faço rosas, faço ventos, cubro-me
Tranço linhas confusas e frias.
É por nada
Porque só caminho sobre a brita
Surda leio lábios
Cruzo as pernas com displicência
olho pra baixo.
De pernas trançadas
lanço ventos frios pra uma trama piniquenta.
Depois retorço as mãos segurando a colcha em direção
ao seio. Sonho lutas que não se acabam.
Não sou eu. Apenas faço votos de felicidade sob a colcha.
E assim, quando algo me aplaca deixo pela metade.
Paro, sento, teço a dor e o
tecido não me cobre.
Minto a idade,
O vento do tempo me revela.
 
sexta-feira, janeiro 28, 2005
 
Você me cobre o frio? A mudez? O calor? Você me cobre o rosto? Você me cobre os olhos? E se for mesmo bonita a falta? Você me cobre o vento? O dorso? O volume, o império? Você vem com flores? E eu deito um pedido branco-eterno, uma espera inconformada, uma esperança insatisfeita sob tecido em forma de noite. Eterna. Muda.
 
sexta-feira, janeiro 21, 2005
 
É que eu ando tão depressa... E se o tempo quebrar? E se o céu partir o tempo, o vento for comprido? Vão saber costurar? Vai ter corda pra prender? Vai ter gente pra puxar?
Ainda saio da covarde corrente do sal, discordo do mar. Ainda tento ser maior que o pai e saber que costuro cacos se o tempo quebrar.Talvez aprenda valentia e não precise coser, não haja louça, não haja passo. Talvez eu consiga haver só o tempo. Batendo. Em silêncio.
 
quarta-feira, janeiro 19, 2005
 
O vento novo carrega a areia, o tempo, tijolo e pedra
Deixa o sol pra trás
Varre o corpo, a criança, o mar
O vento novo traz a tarde, sopra os olhos, salga a nuca
E deixa delicada a noite pequena, a maré cheia, o céu de brigadeiro
Depois suspira
e só desfalece.
que tem cargo vitalício
e não morre nunca.
 
quarta-feira, dezembro 22, 2004
 
O livro


Havia de encontar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto :
outonos e invernos
esquecidos
entre páginas amarelas
e a dor,
essa traça inútil.


Micheliny Verunschk
 
 
E eu ganhei uma menção honrorosa na bienal dos piores poemas. Recriei Frank O´hara. Olha que m.:



Thinking of James Dean

For a young actor I am begging
peace, gods. Alone
in the empty streets of New York
I am its dirty feet and head
and he is dead

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Pense em outra coisa

Peço paz a James Dean
O que espero?
Ruas vazias em Nova Iorque?
Um atentado sobre minha cabeça suja.
Ora, James Dean está morto!
 
quarta-feira, dezembro 15, 2004
 
Meu poema de natal

Branca. Muito branca a pele da nuvem. É sobre ela que o sol se espalha quando é verão. É da nuvem - que entre trôpegos acentos avança para reerguer sua alegria - que emergem pés brincando de bailarina e submergem faces enrugadas de olhos fechados. É assim que se prepara a cambalhota do tempo, da intenção, da bondade, do futuro; pra que a nuvem espalhe seus traços e aplaque qualquer caldalosa angústia com sua espuma etérea, branca, cheirosa.
 
quarta-feira, novembro 24, 2004
 
Ainda não dormi. É que a gente não fica de bem e aí não conversa. Aí não dorme aí tenta dormir. E não dorme. Mas uma hora dorme, é a minha esperança. Primeiro franze a testa, tem vontade de chorar mas não consegue. Primeiro é assim, cheio de raiva. Depois só sente a falta do abraço de ninar, da cantiga de ventilador-velho da respiração no ouvido da gente. Tem medo de tudo, levanta da cama, vai pra sala, acende a luz e espera pelo resgate. Mas você não é disso. Cansa mas aí volta pra cama e você ronca... E é como que impossível dormir e mesmo que eu tente fazer as pazes não tem jeito e você não me consola do peso do dia de amanhã e não me beija e eu não me esqueço. Penso nos compromissos, nos emails, na agenda, nos textos, tenho raiva. Só então é que tem jeito de chorar de verdade. A vida pesa, dizem que é carma, eu acredito. O fato é que o resgate não chega e eu de luz acesa sentada no sofá. É que se for pra cama vou esperar a todo momento a sua mão no meu ombro. Só saiba que, quando você me abraçar de novo, eu vou estar muito brava.
 
terça-feira, novembro 23, 2004
 
Frescor de noite barata, de ceia de rua, de credo rezado a dois. Inveja matou meus calos, trombou o fusca da esquina no tênis e baratas moravam nas frestas. Você protegia meus entrededos. É de quando meu leite derramava e você sorvia sorrindo, tanto quanto é possível. Uma poça de dias não-passados pingava debaixo do asfalto mas nós não sabíamos. O medo é meu substantivo recorrente, de presença tão certa quanto o assento flutuante do avião. Inveja antiga me cutuca, refresca a memória, o leite dela respinga e uma gota atinge meus olhos. Sinto sabor.
 
segunda-feira, novembro 01, 2004
 
Tenho linhas nas mãos, elas caminham como vermes pelo meu corpo. Sentidos partidos me tiram conclusões débeis enquanto tomo a xícara de café muito forte e troco as letras do alfabeto. O tapa olho persegue a mira do meu olhar mas é mais ágil que eu. Eu suo. Faço votos de que termine tudo bem e a esperança é patética. Densa. Corruptora. Eu me entrego ao consolo porque no fim de toda a coisa me descubro fraca, fraca, fraca. Frágil. A certeza quebra junto com o salto da sandália que me encomprida as pernas. São bonitas e eu preferia estar sobre elas. Você me segura pelo braço, machuca. Deixa um vergão vermelho quando seus dedos escorregam. Planejo as próximas férias. Eu não caio porque do chão não passo.
 
segunda-feira, outubro 25, 2004
 
Memory dials
primeiro discado
"é verso antigo"
diz o recado
é noite branca
é fada fresca
sonho partido
gesso trincado.
E suas mãos me enchem de úmida espera.
 
sexta-feira, outubro 08, 2004
 
Os meninos andam em círculos pelas árvores. Têm faces sardentas, mãos rudes, olhos intactos, pênis delicados. Suspiram ares salgados e portas fechadas. Encontram o vento, levam presentes. Entoam o coro: "então nós vencemos, o perdido vive sob o mar, somos vento. Então, meu amor, feche os olhos". O vento se cala enlutado em choramingo contínuo, semitonado, imperceptível.
 
quinta-feira, setembro 30, 2004
 
Meu barco segue seu enredo, querido. Suas veias, seu teto, sua saliva. Irei sempre te estender a mão querendo ajuda, não porque eu possa te salvar. Minhas costas eretas sempre seguram seus cabelos. Além disso fazia frio, na ilha e eu não queria estar lá. Você me busca? Você me encontra? Você consegue encontrar a ilha fria no meio do mar? Você segura a minha mão quando o lençol afundar?
 
quarta-feira, setembro 29, 2004
 
Espere o calor passar,
o sono ventar.
A senha é
sede
seda
servo
senso
silva
salmo
sonho
sol
Espalme a mão esquerda sobre a minha barriga esticada sobre a cama.
 
quinta-feira, setembro 23, 2004
 
Corrigindo: a Micheliny não ganhou ainda, é "só" uma das dez finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
 
 
A libélula chega dançando mansa sobre a piscina. Ameaça o equilibrio do corpo que bóia de maiô preto. A libélula se aproxima, salpica a água, contorna a moça, começa pelos pés. Joelho, quadril, cintura, ombros. Chega ao ouvido, se demora mais um instante, sussurra dois saltinhos. Oferece mais um e a moça consente com a cabeça. Na testa e a moça se desequilibra, balança, entorna duas gotas, encontra o chão com os pés - perde o jogo.

 
segunda-feira, setembro 20, 2004
 
Olha, que bonito! É daquela moça que ganhou o prêmio, Micheliny Verunschk (ô diabo de nome difícil).

Segredo de camarinha

Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.


Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.


Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.


Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.


(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)


Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.

 
segunda-feira, setembro 06, 2004
 
"(...) a cada momento, tudo se perde." (caio fernando e a sensação do dia)
 
terça-feira, agosto 31, 2004
 
Ardiam os olhos e as solas dos pés da moça da estrada. A estrada era plana, ainda bem. O sol rachava, mas brotavam olhos d´água fresca pelos barrancos. Enfim, havia um certo alívio na terra vermelha. Os pés ardidos agradeciam quando a lama abraça os dedos. A moça parava algumas vezes, para olhar os feixes de lama emergindo entre seus dedos. Outras vezes deslizava e se desequilibrava. E pensava que é muito bom que, quando o sol está assim tão forte, existam olhos d´água brotando dos barrancos. Até que teve um pedaço da terra molhada em que ela deu de pisar, e se apoiou com o calcanhar, e o outro pé patinou e caiu toda a roupa no chão. A saia ficou molhada, as mãos cheias de lama. A moça pensou em chorar, pensou em abrir os olhos, pensou em se levantar depressa, pensou em sentir calor. Mas então ela se arrastou para a margem da estrada, como se não pudesse mais se levantar, se recostou na terra do barranco e deixou a água barrenta rolar sobre a testa, o nariz, a boca, o queixo e o pescoço. A moça deu um grito. Um grito de fonema aberto, um “á” interminável até esvaziar o ar dos pulmões. Era muito mais. Era tanto mais que não havia o que dizer, que não havia tempo pra chorar, era só o deleite. Só o deleite silencioso da lama cobrindo o rosto da moça, escorrendo pela barriga, por entre as pernas, pela coxa. Foi o deleite de não sentir mais que ela era feita de ar empoeirado por dentro, de se ver livre da tosse, de sentir a matéria úmida e densa da lama nas entranhas, de sentir seu corpo todo preenchido como se gozasse fundo e rouco sob a lama. A moça percebeu que era tão feita de terra molhada quanto uma minhoca. Podia comer terra. E que o ar seco e a poeira vermelha que a invadiu pela boca e narinas quando ainda era menina, na beira da estrada, agora a abandonariam para sempre.
 
quinta-feira, agosto 26, 2004
 
Namorim

Sinta o beijo
Da lua:
Sou eu, sua.
 
segunda-feira, agosto 23, 2004
 
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

Paulo Leminski
 
sexta-feira, agosto 20, 2004
 
logo depois da cerca de ficus há o portão. Branco e retorcido em formas redondas que lembram flores. Abrindo o portão, avista-se a porta de madeira, meio metro depois. Depois da porta; Ah, depois da porta é o mundo. É uma fotografia em grande-angular, uma chuva caindo mansa e exércitos de formigas carregando flores. É uma sinfonia grandiosa, são os cabelos da bailarina se soltando no meio do rodopio, as sapatilhas caindo pesadas sobre palcos de madeira. É uma fruta, uma firula, um furto de goiaba, um tédio. No centro, ao fundo, há um bebê de ventre aberto. Um grande corte vai do peito ao umbigo do menino, que é muito negro e ri sossegado. Seu corpo pulsa e permanece aberto e indolor. O menino está envolto em ar perfumado, não sente fome, nem frio nem dor. Nada incomada o menino, embora ele não possa ser tocado. Nada faz com que ele respire, nada perde o movimento lento de sua boca, nada o ignora. Ele não chega a nenhuma conclusão e é sábio o suficiente pra permanecer na falta de desejos. Ele não precisa. O menino não tem dentes. O menino é só um meio sorriso insistente de lábios doces de mais. E a medida que é observado mais e mais de perto, mais e mais longamente, ele se torna cínico, irônico, imoral, insuportável. Não se move mas do alto de sua satisfação emite sensações de medo, dor e uma doçura amedrontadora na lingua. Não toque-o. Ele irá persegui-lo a vida toda.
 
terça-feira, julho 06, 2004
 
Momento Malu no teço-teco balançante indo em direção a uma enorme nuvem negra entre Salvador e Morro de São Paulo:

Ela: Mãe, aquilo ali é Salvador?
Eu: É.
Ela: E aquilo lááá longe, é Belo Horizonte?
Eu: não, filha, é Itaparica.
Ela: e cadê Belo Horizonte, mãe?
Eu: Iihh... Ta tão longe que não dá nem pra ver.
Ela: ahn... (pensando)
Ela: mãe?
Eu: quê?
Ela: o mundo é bem maior do que eu pensava.
 
 
Momento Carrie Bradshaw da Malu

Ela, olhando pro meu pé: E esse sapato novo, heim!
Eu (de plataforma): Pois é, você viu? Bonito, né?
Ela: lindo... Você me empresta?
Eu: não cabe, né.
Ela: mas quando o meu pé for do tamanho do seu você me dá TODOS os seus sapatos? Porque não vai mesmo caber no seu pé, né. Ele já vai estar deeeste tamanho...
Eu: não, filha, o meu pé não cresce mais.
Ela: mas você vai estar velha, não vai usar sapato de “nova”...


 
sexta-feira, junho 25, 2004
 
Ela vivia um amor de mãos atadas. Um amor sem abraços, alguns beijos e muito sexo. Ela vivia um amor assim, meio seco e encarava aquela fisionomia com cara de interrogação. Como assim? Não era como ela conhecia o amor. E apesar de estar convencida de que era um graaande amor, duvidava de tanto olhar. Procurava nas sombras de seu rosto irregular a face fresca e aveludada. Vez em quando perguntava: é você mesmo? Ele concordava balançando a cabeça. Continuava de sobretudo preto e braços cruzados. Atados na postura militar como se fossem ordens superiores. O amor não se movia. E, quanto mais ela olhava, mais duvidava. Rodeava, fazia cócega, soprava o ouvido. Ele permanecia imóvel. Em silêncio. Não o silêncio denso entre o amor e o amante. Só um silêncio. Quando ela ameaçava ir embora ele tossia. E ela voltava a olhá-lo nos olhos. Ou então ele tirava uma das mãos duras do sovaco e encaixava no queixo-maxilar-orelha-nuca dela. E era tão quente a mão que ela fechava os olhos e conseguia enxergar o amor. Mas ela vivia muito o amor de mão atadas. E quando ele parava de se dedicar a ludibria-la, ela percebia que não tinha o que fazer com aquele armário de sobre-tudo preto. Se guardava na geladeira pra não perder, se tirava do meio do caminho, se o abraçava sozinha, se sorria pra ele. E pra que serve um amor de sobretudo? Onde é que se coloca? Como é que se conserva, o que se dá de comer? Ele precisa dormir? Ele vai à escola? De toda forma, não podia se livrar. Ela estava líquida de amor e escorria a volta dele formando uma pequena poça leitosa na taboa corrida.
Ele ficou muito tempo por lá. Meses, mais de ano. Ela chegava de noite do trabalho, dava um beijo no rosto, tomava banho e ia dormir. De manhã comentava alguma coisa do trabalho enquanto tomava café e saía. E era assim todos os dias. Ela não engravidou sem planejar. Ele envelheceu mais rápido. Enfim, eram um casal. E havia uma certa química entre eles que só era interrompida pelas duvidas a respeito da idoneidade do rapaz. Ela não dizia mais nada. Só murmurava “você vai ter que mudar” pra não ter que discutir o relacionamento e espernear de novo. Ela sabia, ele não mudou. E assentiria com a cabeça eternamente se ela perguntasse “você é mesmo o amor?”. “Você é mesmo assim?” “Eu te amo.”


(continua)
 
terça-feira, junho 01, 2004
 
É o primeiro dia de junho do ano 2004 a contar do nascimento de Jesus cristo. Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam umas contra as outras as células repletas de cálcio branco, duro e estridente. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra, dada a força de tudo o que ela tinha a dizer. No fundo, banalidades de sangue trincado nas veias, giros no tronco feito espartilho retorcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam, somados ao calor úmido do fim da tarde. Na verdade eram as banalidades da mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa.Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica como que mortos. Como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há.” Laura falava como se fosse eu implacável, como se houvesse coragem. Não há.
 
quinta-feira, maio 27, 2004
 
Fragmentos necessários I - Já é amor


Aí já é o amor. Você finge não saber, mas aí já é. O pensamento não cria outras formas além do seu caminhar, a maneira como prende os cabelos, suas opiniões sobre filmes que falam do amor assim como dito aqui. Entende? Você não pode negar que é amor, mesmo que ache outras palavras para apontar como esse sentimento usa roupas maltrapilhas. Minha querida, antes que sua boca termine o contorno de uma difamação, o amor troca de roupas e se oferece com o frescor de rara manhã de céu aberto. Portanto, abaixe essa armadura, destranque o sorriso e se for beber, que ao menos nos entrelacemos na possível busca de novos prazeres.

(do Walrus)
 
segunda-feira, maio 24, 2004
 
Mordo meu peito feito maçã. O suco espirra a um metro e vinte, não prego os olhos.Você mastiga. Só pisco. Você pega a toalha e vai pro chuveiro colher maçãs.
 
quarta-feira, maio 05, 2004
 
Natureza Morta

Cinco. Abdominal Class, ovos mexidos, garrafa plástica. Suculenta, Montesquieu, 126-240. Papel. Cartão de visita, meus documentos, fine line pen. Ponto final. Sete pontos. Ao vivo. “Você quer?” Quero. Sigo cega sono afora, trancada pelas costas, rendida pelo cansaço dez metros por segundo ao quadrado, farta, até o chão.
 
terça-feira, maio 04, 2004
 
Seu entorno espontâneo tênue névoa rosa-pele pigmenta o papel fotográfico. Nos meus olhos, a luz sorteia contornos e páupebras e borboletas e as veias rudes da sua mão. Meu corpo enquadra seus olhos. Não sou paciente. Não desconfio. Minhas palavras são sempre não.
 
segunda-feira, abril 26, 2004
 
O dia nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul. A dimensão da dor foi definida em corte cirúrgico. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetra pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos medem 24 anos, os olhos agora são fixos.
 
 
O homem dos livros põe de lado o almanaque. Não se engane, ele não lê. Só enxerga de longe pretensos poetas – os óculos são para perto. O homem dos livros tem barba e estantes. Pilhas nas mesas, cadeiras e no chão. Faz promoções de letras usadas, tratadas, amarelas e relegadas aos pés-de-página. O homem dos livros conhece a força das letras encorpando uma onda. A maior da lua, a que tem a arrebentação mais bonita, a de água morna, a que pensa que vai partir a rocha. Os óculos são para ver de perto o azul-petróleo denso do mar de palavras formando a onda mais espessa. E é ele quem permanece de pé para ver a última espuma se desmanchar e guarda em segredo que é esse o deleite do poema.
 
segunda-feira, abril 12, 2004
 
Olás, se é que ainda tem alguém aqui. Estou perdida em Salvador. Algum soteropolitano por aqui? Mande email, deixe comentário, please! Espero dicas de programas para uma Belo Horizontina já com saudade de casa.
 
quarta-feira, março 24, 2004
 
Foi aí que Luiza pensou, com seus botões, em frente ao espelho, reparando de perto muito perto alguns aspectos de sua expressão. Luiza pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adianta mesmo pensar. A bezerra morreu, o leite derramou e, se Luiza chora, logo já se distrai com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas.
Então ela não pensa, chora um pouquinho, se cala e vai dormir com gosto de menta morna nos olhos.
 
terça-feira, março 23, 2004
 
Há 11 meses

-----Mensagem original-----
Enviada em: terça-feira, 23 de março de 2004 17:33
Assunto: RES: sonhos, sonhos são

eh... tá com cabelo preso pra cima, tá com um sorriso bem bobo por dentro
mas um quase sorriso por fora, porque tem que disfarçar. Tá com expressão de
suspiro, olhando longe. Projetada na testa está a cena do encerramento do
Comida di Buteco com você me apertando até me deixar sem ar e me pedindo
desculpa por estar Meloso. Caetano Meloso. E eu rindo, rindo da piada. E eu
me sentindo feito uma coisa de pelúcia no meio de toda a "gente bonita" e da
"festa bombando", achando que tava todo mundo olhando pra gente e pensando
porque aquele rapaz ficava apertando aquele urso azul. Atenção especial à
legenda "eu te amo, você sabe" em times do email de hoje cedo.
 
quarta-feira, março 17, 2004
 
Mulherzinha


Continuo tentando escolher suas palavras à dedo. Planejo colocá-las em papel azul-claro, fazer eu mesma uma moldura de flores coloridas, caprichar na letra e pregar na parede do quarto do Drummond (será que ele vai dormir lá?).
Cada vez que te olho, encontro seus olhos e me assusto, tenho medo de estragar coisas, trocar os pés pelas mãos, vestir a camiseta “DRAMA” e foder as coisas. Eu me conheço e não quero isso pra mim.
Dessa vez vou cuidar bem, parar minha cabeça no ar quando vier a queda livre.
Um dia eu acho as palavras pra você. Prometo não cansar de procurar. Vai ser alguma coisa com MANHÃ, ALGODÃO 200 FIOS, BANHO DE MAR EM RIO DE JANEIRO COM CHUVA, LEVE, INESCAPÁVEL E FELICIDADE.
Por enquanto, espero que essas te beijem o coração, pra eu poder deitar no seu peito de novo e ouvir barulho de onda sossegada em mar fresco-quase-morno.



Salete Goldfinger



Seus olhos furtados no trânsito
o bejio não acabou
quando o sinal abril
fechou
o sinal abril, veja: verde
sobre a lataria
em energia elétrica,
aço empoeirado
e vidro. Verde.
Amo a hora de te deixar na cama
de ver a distância o seu amor
de ser torrente de ternura em olhos
e um beijo no rosto.
 
 
A mágoa parecia transbordar o crânio e encher os olhos, o peito. Assim, tomada do líquido aquoso e rosado da mágoa, Luiza já não dizia coisa com coisa e só queria ficar alegre de novo pra poder dormir. Questões morais não faziam mais sentido mas Luiza andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado.
 
 
Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Luiza vence o vento e avança. Segura os cabelos e continua. Enfrenta a areia e segue. A cada passo ela não cai. Porque pisa mas não vê o chão.
 
quarta-feira, março 10, 2004
 
por 26 de fevereiro:

a vontade é tanta que perde o alvo
a vontade é flecha que goza no ar
a vontade não quer gozar
a vontade é mantra repetida em si mesma
espalhada a esmo, barata tonta
a vontade é alienada
é alegria entrincheirada
infértil
quando atinge o alvo
a vontade é tanta
tanta
a vontade é tanta lama, casca, caule, folha, flor
é esparramada no deleite de correr
correr correr
 
 
O ventre vazio. Meu coração foi transmutado em espuma e agora bolhas ferventam e transbordam dentro do tórax. Calada, eu sinto pena da sombra dos meus cílios na parede.
 
 
É só que hoje me deu uma saudade muito grande do cheiro do ar quando alguma coisa boa vai acontecer.


Acaso e Caos

E alguém sabe porque é
Que dia desses
Sem menos
Sem tempo
O show não deu pé
A cerveja acabou
E a gente foi parar naquele beijo?
 
sexta-feira, março 05, 2004
 
o vulto da moça triste na janela
A sombra no muro de chapisco
a moldura entristece o vulto da moça
não há motivo, não há moldura
a sombra no muro triste de chapisco
e mesmo a sombra, ela não há.
o vulto do muro de chapisco gritado da janela
não há tom de azul assim no céu
o muro da moça na janela triste
só há o preceito da tristeza
o muro chora chapisco
a receita familiar
o implacável
a vontade
só há a pergunta
 
sexta-feira, fevereiro 20, 2004
 
Mil coisas. Outra casa, outro tempo, outra versão. Bem, está dito o essencial: não aceito unhas cortadas junto com casca de banana podre na esquadria da janela. Calma, quem está na chuva é pra se molhar. Retiro o dito, apenas olhe a expressão das minhas mãos na beirada do sofá. Repito. Não sei pra quando. Prazo prorrogado indefinidamente até que tudo se acerte, até que o mundo se deite e eu tenha sossego e fume e tenha cigarro e uma varanda sem parede mofada.
 
 
"Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."


(Drummond)
 
 
Paulo Tatit:

Quer saber porque que eu estou cansado?
Cada vez que eu começo a pensar
Me vem tudo de vez
E eu não penso mais nada

Qeur saber como é que eu penso?
Quer saber porque que eu estou cansado?
Cada vez que eu começo a pensar
Me vem tudo de vez
E eu não penso mais nada

Eu vou pensar um assunto, certo?
Um assunto que eu escolho, é claro
Então eu faço força, força, força

E olha o que aocntece!
Não adianta ter cabeça
Ela pensa o que quer...

Pára, cabeça
Assim você me enlouquece
Não cansa você?

Minha cabeça me ajude
Pense tudo tudo com calma
Não se exalte
Nunca te vi tão possuída, nunca!
Você é danada, é mágica

Concentra, reflete
Inverte um pouco o raciocínio
Nem que dê no mesmo ponto
Enfim, você é livre
É livre mas não de mim
 
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
 
"agora vou para casa
estou aguando o parque para a Violetera
nutrindo o preto e o branco de teu amor"
(Frank O´hara)
 
terça-feira, fevereiro 10, 2004
 
Ela: Mãe...
Ela: É....
Ela:Eu queria te falar uma coisa.....
Eu: Fala.
Ela: é....
Ela: é que lembra, que você falou, pra te ligar pra combinar as coisas
(dia desses ela estava almoçando, atrasada, de uniforme e de repente me contou que não tinha tomado banho. O detalhe é que ela tinha feito xixi na cama. Aí a empregada disse que ela não queria tomar banho e pronto. Ficou por isso mesmo. A menina de 5 anos mandando no adulto que era, supostamente, pra estar tomando conta dela. Lógico que eu dei um piti e disse que ela tinha que fazer isso, isso e aquilo, naqueles horários e que qualquer coisa diferente ela tinha que me ligar.)
Eu: Lembro, filha, então combina.
Ela: É que eu nem fiz xixi na cama.
Eu: hã
Ela: e de noite meu pai vai me dar banho.
Eu: hã
Ela: e eu vou falar pra ele dar uma faxina em mim.
Eu: hã
Ela: Eu posso ir pra escola sem tomar banho?
Eu: Pode.
Ela: eba! Mãe, você é a melhor mãe que eu já tive!
 
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
 
"E sendo água, amor, querer ser terra."
 
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
 
E a Hilda Hilst morreu. E o Arthur Xexéu disse que ela se popularizou com livros de auto-ajuda. Alguém me explica isso?
 
sexta-feira, janeiro 30, 2004
 
Não quero nunca mais cantar essa porra de música de dor de cotovelo. Não quero nem lembrar da minha voz chorosa e do travesseiro molhado porque não quero mais essa merda de não dar certo. Vai dar pé. Quero nem saber, vai sim. Quero nem ver. E você não me venha com conversa mole. E não venha mesmo. Só venha se for pra abusar, sempre. Se for pra dar certo. E não venha com essa de aceitar meu cu doce. O cu eu não dou, você sabe. Então larga o mel, esquece o fel, ligue o foda-se, deite e role na lama em que nos afundamos. Sorria comigo essa lama e me deixe pensar que é sempre, sem saber o que é sempre. Sempre, meu bem, sempre. Minha mão é da sua. E é com você que vão dar certo todas as minhas crenças piegas sobre o amor. Eu sei, eu sei, e não diga que eu não sei. Não diga que o poema é feio, que o lugar é comum, que a palavra é melosa, que cor-de-rosa não se usa. Não se usa pra sempre e eu não quero nem saber de aqui é Terra do Nunca proque pra mim é sempre. Sempre.
 
terça-feira, janeiro 27, 2004
 
Quando, querido,
Quando
Você pousa
Palavras feias
Pesa a mão
Estala o quadril
Ah, querido,
Quando
O escuro é forte
E você prende
A luz acesa
O dorso pequeno
Em palavras fluidas
E sorriso doce
Torpe
Feito sombra de
Luz da rua
Então,
 
segunda-feira, janeiro 26, 2004
 
Busco um papel, a gaveta, a pilha, migalhas de celulose, grafite, tampa de caneta. resquício de coisas enfurnadas há mais de dois anos. Música bilhete revista cerâmica moldada dois. A gaveta exala cheiro de clausura de certos objetos indevidos. A poeira de desejos não realizados entra pelas narinas, não deve-se olhar. Recuso, é verdade, o pouco e o fracasso. Engasgo. Poeira de desejo intoxica. Onde está o bronco-dilatador? Onde está? Um, dois, três. Um, dois, três. Onde está? Um, dois, três. Respire a minha boca. Um, dois, três. Até afogar.
 
terça-feira, janeiro 20, 2004
 
merda. crédito. conforto. dois quartos. carro. trabalho. asfalto. medo. gato. cheiro. força. tédio. palavra. chuva. hora. porra nenhuma. gordura. tijolo. concreto. teclado. cão. poste. força. credo. leite. cinto. cruz. pé. força. cartão. verão. centro. força. muito. tênis. fora. espera. correio. mão. força. barriga. gesto. carvão. suor. força. trilho. vento. corretivo. corda. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força.
 
sábado, janeiro 17, 2004
 
todas as dores mal-transbordando, mal-sentidas, mal, paradas na garganta, abaixo do gog?. Ficcionais? Fantasiadas? Vestidas de bailarina. S? na ponta do dedo esfolado sobre o qual ela gira, a dor.
 
 
ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sangüinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(Cruz e Souza)
 
sexta-feira, janeiro 16, 2004
 
An attempt to

Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.
 
 
De 13 de janeiro

A senhora de cóqui no cabelo
a casa
o jardim imenso
ela caminhava.
Tão só que venci
a timidez e a
ofereci meu telefone.
Pra se precisasse.
Então ela recusou: tenho 11 filhos.
 
quarta-feira, janeiro 14, 2004
 
Esquisito. Dearest me deu um cd muito bacana na última visita, do Red Hot Rio. (o melhor é que no fim de ano nós trocamos os presentes que compramos uma pra outro para a visita do carnaval. Aí saíamos juntas e esquecíamos os presentes. A ONG continua firme e forte, né Dear?) Mas eu fiquei com a música mais esquisita na cabeça. “Eu preciso dizer que te amo”, o Cazuza com uma voz bem bicha dando piti no estúdio, violão e a voz da Bebel Gilberto. E eu admito que gostei, apesar de não gostar do Cazuza. Também admito que gosto de algumas coisas do Cazuza. Daqui a pouco vem a Póla me xingar. Mas tem a ver com a minha ansiedade, “eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano”. Tipo “ou vai ou racha” mas dúvida eu não agüento. Nem as que eu invento.

Preciso Dizer Que Te Amo
(Bebel Gilberto, Dé e Cazuza)
Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo (que medo...)
Eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo, tanto
E até o tempo passa arrastado
Só para eu ficar ao teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre, e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo (que amigo!)
Que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Que eu preciso dizer que eu te amo, tanto



Em tempo: O gosto musical da Savrina não é "duvidoso"
 
terça-feira, janeiro 13, 2004
 
Cheiro de noite e foligem.
 
 
Existe um capítulo seu. De como e queria o mundo certo pra você. De como eu me queria certa pra você. Mas não sou. Só espero que me desculpe dessas coisas. Conjunturas, como diz o incompetente. Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.
 
 
Aviso: voltei, mas estou em crise.
Também, estou cheia de Ana C., de rua Tonelero, de Rio de Janeiro com chuva. Á vontade de abrir os braços e sentir frio.

Aviso 2: abandonei o blog porque estava de férias, nem voltei pro pantanal, Lara. Só enchi o saco desse negócio. Mas agora eu acho que desenchi. Vamos ver.
 
sexta-feira, novembro 28, 2003
 
Ganhei até poesia do meu Atirador. Não sei se ele sabe como eu fiquei feliz. Não sei se tem idéia de como me deixa feliz. Mas deixa.

Calo Amor


O amor sempre foi como um calo pra mim:
me incomodava, mas me lembrava
que eu estava vivo.
Quando o encontrei,
fiquei como estou agora - sem palavras
Percebendo meu medo de não estar à altura
de seu merecimento,
ele sorriu,
fechou meus olhos,
e me deu um beijo,
de suavidade e relaxamento.
 
segunda-feira, novembro 24, 2003
 
Tangerina. O poema da palavra ácida invade os ouvidos da moça. E ele repete, “tangerina”, reparando o rosto dela enquanto ouve a sílaba “ri”. Para ele é a penúltima sílaba que faz tangerina ser tão ácida. Tão laranja o tal “i” que invade a boca enquanto arrebentam os minúsculos gominhos da popa. “Tangerina”, ele insiste, ela levanta as sobrancelhas e aperta os olhos, enquanto a língua fresca lhe invade o ouvido.
 
quarta-feira, novembro 19, 2003
 
Todos os suspiros a seu lado, um por um, você ignora. Amor, raiva, cansaço. Você não sabe e eu não escondo. Você dorme. Ignora também a ausência da minha mão. Olha, não quero conversa. Olha. Não se nega um gesto. O gesto não volta atrás. Não escuto meu sono quando é volta.
 
 
Derradeiro suspiro de amor acabado em bits, ofensa, palavrão, abreaspas, versão amigável para impressora. F5. Nada. E nada.
 
 
último romance

eu encontrei
quando não quis
mais procurar
o meu amor

e quanto levou
foi pr'eu merecer
antes um mês
e eu ja não sei...

e até quem me vê
lendo o jornal
na fila do pão
sabe que eu te encontrei

e ninguém dirá
que é tarde demais,
que é tão diferente assim
o nosso amor
a gente é que sabe

me diz o que é o sufoco
que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o caso for de ir à praia
eu levo essa casa numa sacola!

eu encontrei
e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser

você me falou
pr'eu não me preocupar
ter fé e ver
coragem no amor

e só de ter ver
eu penso em trocar
a minha tv
num jeito de te levar...

a qualquer lugar
que você queira
e ir onde o vento for,
que pra nós dois
sair de casa já é se aventurar

me diz o que é o sossego
que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o tempo for te levar
eu sigo essa hora
e pego carona
pra te acompanhar
 
quinta-feira, novembro 13, 2003
 
Temo os versos da minha cabeça, não penso. Minha cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. Mentira o orgasmo. É mentira a sensação que me corre as pernas, a espinha, me enche o crânio, me ferve a face e me fecha os olhos diante da sua palavra. Não rimo, minto.
 
segunda-feira, novembro 10, 2003
 
O corpo do poema desenhado em meu corpo, extendido, sunbathing sobre a minha anca esquerda. Não sei se esqueço o corpo do seu poema. O poema em branco lambendo-me a espinha. O poema claro como a luz da TV. Sem som. O tempo, da janela, solto e cheiroso.
 
sexta-feira, novembro 07, 2003
 
Quase posso enxergar suas células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase posso ver sua respiração crescer, seu corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista demorou a obra inteira pra tocar. Mais que tudo, mais que amo, minha pequena menina.
 
 
E abusei da minha desculpa preferida "Desculpa, mas eu estava no Pantanal".

"Você não devolveu o filme da locadora que roubaram no carro."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

"Você não respondeu o email que eu mandei há uma semana."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

"Você nunca mais escreveu no Blog."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

e etc, etc, etc.
 
 
Sou uma moça viajada. "Conheci" Pantanal, Salvador, Campo Grande, Recife, São Luiz e Anajatuba. Se mais alguém falar "nossa, que sorte, queria um emprego assim", eu mato. Juro que mato.
 
sábado, outubro 25, 2003
 




 
 
Torquato

“(...)eu pensava: eu te amo. Eu não podia dizer nada disso, só que eu não podia nem posso explicar minha vida, o meu amor, senão através de sua própria minha própria prática, como se diz, caminho, como se diz, traço, destino, como se diz, como se diz: tese, filme, estilo, caráter, ideal de relacionamento, antítese, tese, amizade, ódio, ternura – ‘como se diz’ – posso dizer e explicar isso tudo mas não explico nada com isso, o mistério sou eu muito simples e ainda por cima tentando explicar e pedindo, finalmente, desculpa.(...)”

 
 
“Seu corpo é o meu descanso, Ana.”
 
 
Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes)
 
 
O sonho
Eu fazia sonhos com Tereza, pra você. Mas fazia errado. Enrolava os bolinhos, eles cresciam um pouco, ressecavam. Aí eu me lembrava que tinha de por queijo, apesar de desconfiar que eles eram doces. Aí abria-os com a unha e colocava pedacinhos de queijo. Havia menos queijo que o suficiente.
 
 
19 de outubro
O tempo e você não chega. Leio você e você não vem. Ouço barulhos de você chegando. Vou chorar pra ir embora. Sou assim. Tenho saudade, faço carinho e temo o fim. Vejo outros beijos. Olho pra porta muitas vezes. Sofro à toa. O que eu faço? Preciso. A jogada aérea. Perdi uma hora. Considerou. Intenção. Tiro direto. Seis meses. Amor se mede pela entrega. Sabe o que eu quero mesmo? Que você chegue e me beije muito. Minutos contados à caneta. Páginas. Nada que preste nesse caderno, ou nessa tarde, como de costume. Melhores momentos. Pra você. Meu anjo me guarda.
 
sexta-feira, outubro 24, 2003
 
-----Mensagem original-----
De: Ana H. [mailto:ateuspes@hotmail.com]
Enviada em: sábado, 18 de outubro de 2003 15:24
Para: Imprensa
Assunto: bom dia


Vou te dar um poema,
Preste atenção.
È um poema pra você
Então leia devagar
Palavra a palavra,
Sabendo que cada uma
Escolhi a dedo
Pra você ler
Saiba que são suas
E têm boas intenções.
Depois leia depressa
Encontre o ritmo da minha respiração
No momento da escritura
Veja com qual aflição
Fiz pensar o poema
Fiz dizer o poema
E ele disse.
Faça com que ele diga.
Preste atenção,
Que é seu o poema,
Não o deixe falar sozinho
Não me responda qualquer coisa
Não ignore
É seu o poema.
Love,
Yours.
 
sexta-feira, outubro 17, 2003
 
Olha que coisa, do Mário Prata, no Estadão, em 95.


O Caio F. (Fernando Abreu) sempre me faz lembrar a Ana C. (Cristina Cesar). Sempre. Encontrei-me com ele na semana passada numa boate absurdamente gay (A Louca) e me lembrei da Ana. Da Ana, do verão de 82. Não sei se falamos sobre ela entre uma música e outra da Laura Finokiaro. Mas que ela estava presente, estava.

No domingo, duas divinas páginas do Caio sobre ela, aqui no Estadão. Cartas dela para ele. 82, 83. Só que o Caio se esqueceu de me citar nos encontros aqui em São Paulo com a Maria Emília Bender, o Reinaldo Moraes (aliás, como perguntou Ricardo Soares, ninguém vai reeditar o desconcertante e vagabundo Tanto Faz?), ele e ela. Citou os bares certos: Longchamp, Pirandelo, Frevinho, etc. Mas eu o perdôo como ele perdoou Ana C. por "ter conseguido".

Conheci a Ana na casa do Reinaldo e da deliciosa Maria Emília (mais o gostoso Ruy Fontana Lopes). Grandes jantaradas, bons vinhos e tome papo. Discutíamos o nada e o tudo. Ficamos amigos. Aliás, as pessoas não ficavam amigas da Ana. As pessoas simplesmente se apaixonavam por ela. Que coisa bonita! Que cabeça! E aqueles poucos cílios brancos num dos olhos? O esquerdo? Nada mais cativante.

Um dia ela veio a São Paulo para participar de uma mesa redonda para a revista Istoé, organizada pela Marta Góes. Me ligou do Rio. Queria me ver. Hospedou-se no Hotel Jaraguá onde, lá mesmo, era a mesa redonda sobre os novos valores da cultura brasileira, ou algo assim. Fiquei de pegá-la à meia-noite. Serviram bebida durante o debate. Assim que cheguei, o Cacaso vomitou na minha camisa ao me cumprimentar. Tive que pegar uma camiseta da Ana no apartamento dela.

Fomos para um japonês na Liberdade tomar sakê, nós dois. Lá pelas três, ela me diz:

- Quer ir dormir comigo no hotel? Sem compromisso?

Fomos. Dormimos sem compromisso, completamente sakeados. Manhã seguinte, levei-a ao aeroporto e nunca devolvi a camiseta. Mas sempre devolvi o carinho. Aliás, onde andará aquela camiseta?

Reinaldo Moraes morreu de ciúmes. Simplesmente porque ela esteve em Sáo Paulo e não ligou para ele. Uns dois meses depois, estávamos os dois a tomar a cervejinha da tarde no La Villette e ele não parava de olhar no relógio.

- Que foi, cara?

- Sabe o que é? Tem um jantar lá em casa hoje à noite (morávamos no mesmo prédio, na Alagoas) com a mãe da Maria Emília. Coisa meio formal, se não, te convidava.

Fomos embora, peguei o elevador e ainda vi o Reinaldo abrindo a porta dele no térreo. Chego no meu apartamento e a deliciosa e poética voz da Ana C. na secretária eletrônica, entregava o mentiroso:

- Estou jantando aqui embaixo. Desça quando chegar. Ana C.

Não sei se a história ficou clara: o que o Reinaldo queria era aproveitar sozinho a Ana C. Queria a Ana só para ele. Era assim que as pessoas amavam Ana C. Ciumentamente.

Não tive dúvidas. Peguei o elevador e desci os dois andares. Ele abriu a porta já pedindo desculpas. E a Ana a me dizer que assim que ele entrou ela perguntou por mim e o sujeito teve a cara de pau de dizer que não me via há dias. Aproveitamos a Ana, juntos.

No dia seguinte ele me mandaria um buquê de rosas com um bilhete, pedindo desculpas mais uma vez. Tanto Faz, Reinaldo.

Isso foi meses antes dela conseguir se matar, depois de tantas tentativas e sofrimento. Uma vez entrou no mar gelado, de noite, nua. Depois, não sei porquê, voltou e estava atravessando a rua quando um sujeito viu, saltou do ônibus e a vestiu com seu paletó. Será que esse anônimo sabe a quem ele acalentou?

Maria Emilia liga para o hospital, no Rio. Fala com ela. Ela estava mesmo mal. Daí a uns dias ela voou pela janela, de um sétimo andar.

Como sabiamente disse o Caio F, ela precisava fazer isso. Tinha que fazer isso. Fazia parte da poesia dela. Ana C. virou um mito mais vivo do que nunca. E, como sempre, dormiu. Sem compromissos.

Preciso achar aquela camiseta.
 
quinta-feira, outubro 16, 2003
 
Esqueceu? Te achei tão frio no email. Coisa de mulherzinha. Coisa de homem. Não entendo. Nem entenda. Não pense. Poesia? Pra quê, porque, por onde? Não comece. E tem mais. Não valho nada.
 
 
Que dor, esse poema. Que vontade de escrever. Que exatidão absurda e ansiosa. Que engasgo, que não-saber-o-que-dizer.

Um Beijo
(Ana Cristina César)

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
 
 
bu
 
quarta-feira, outubro 15, 2003
 
Pelo Meio do Caminho de Nuvens

Livre como uma água-viva. Há tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olho nuvens a cinco metros de distância. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando a água vivendo água.
Não me concentro. Não leio. Não faço. Não saio do lugar. Se me movo é que o mundo se move, tão lento e perplexo diante de cada revelação lenta do sol. Não acho as palavras. Não penso antes de falar. Não olho nos olhos, não sei apertar mãos. Não causo boa impressão. Aviso e reafirmo: não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa. Não sei de nada. Não li o livro. Estou vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.
 
 
Roubado do blog do Negrão que é um cara legal com quem eu fui antipática um dia. (Logo eu, A simpática, não é Blue e Colibri?!!)


"tarde da madrugada
seu rosto brilha
orvalha lágrima

não faça alarde
acorda tarde
embala a noite
até o sol raiar

nosso abraço
ultrapassa
o luar

a paz só quer nosso amor
fresta de luz sobre a dor
e não tememos o que virá

tem tanta estrela
na noite acesa que passa
- nos vem de graça -

somos nós dois
o sol da luz do olhar

alda rezende jonathan crayford renato negrão"
 
 
Senhores, apertem os cintos: a montanha russa já saiu e ninguém viu!
 
sábado, outubro 04, 2003
 
isto é só um teste
 
 
Três vivas para Torquato Neto, que comprei "Os últimos dias de Paupéria":

Ponto de Bala
os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
 
 
Um dia
Depois outro
Depois outro
Outro
Depois
Outro depois outro
Depois outro
Outro depois.
Assim, 365
Mais 365
Mais 365
365 mais
os 365 anteriores
e os 365 seguintes
menos o dia em que perdi a memória
menos o seguinte, depois
outro, depois outro
depois outro
outro depois
em que vivi de uma vez
de um dia
depois outro
tudo só
Um tempo
Uma vírgula
Um contratempo e um
E
Dois e um
E dois e outro um
Soma-se
a dor do
parto
Vale 5
subtraindo noites
Sem sentir
Os pés
Divide-se por
365
dias e quantos serão até que
a vida esgote
e seja o saldo
a liberdade
seja findo o salto
nu pela janela
do arrepio
de tocar a vida
de dias
e verter a morte
de curvas
 
quarta-feira, outubro 01, 2003
 
São cinco meses. Cinco meses do ano de 2003. Cinco meses do meio de um ano de um século novo. Nem o i ching me dá um norte, eu espero direções de braço cruzado. Ou quero o mundo todo em noites de beijos nos pés. Hoje faço votos: prometo não ter medo, prometo fehcar os olhos e me jogar no mar, prometo voar, prometo o mundo, prometo não saber, prometo a humildade de saber que não sei, prometo que te amo.
 
 
Abandonei, né dear. Vou pro Rio segunda, tava em salvador agorinha. Depois eu volto, porque andei lendo muita coisa séria, fiquei vazia de coisas bobas pra dizer.
 
quarta-feira, setembro 17, 2003
 
Tenho da vida alguns pedaços engasgados
Alguns dias partidos
Divididos
Em feixes de ternura
E poeira.
Tenho uns dias sentidos
Quase nada
Uma janela seca
Empoeirada
Cheia de chuva
Do lado de fora.
Tenho às vezes memória
Às vezes vontade
Às vezes penso em cantar mas depois esqueço
Às vezes
Você me reparte
 
 
A festa
(Milton Nascimento)

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito,
Nem acredito no sonho que vejo
E seguimos dançando
Um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito prá nós
Nesse som que nos toca

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas
A banda toca
Parece magia
E é pura beleza
E essa música sente
E parece que a gente
Se enrola, corrente
E tão de repente você tem a mim

 
segunda-feira, setembro 15, 2003
 
Bordei um segredo pra você. Um daqueles bonitos, de brilhinho agudo de areia no sol. É que já disse muita coisa mas ainda queria um segredo pra você. Queria um segredo bonito pra termos juntos porque, quando eu era pequena, pensava que amigo era quem contava e escutava segredo. Quem tinha um segredo junto com alguém era amigo do alguém. E o segredo era a coisa dos dois, que os dois guardavam juntos. Tenho um segredo com você. Mais que segredo de amigo. Segredo de sentir as coisas escuras e com um brilhinho pequeno de areia molhada no sol. Segredo que não é nem de palavra mas que você cuida comigo e guarda pequenininho numa caixinha. E ninguém pergunta o que é porque sabem que segredo assim, não se conta, não se mostra, não é de ver nem é de palavra. Mas só de olhar já se sabe que nós dois temos um segredo de silêncio.
 
domingo, setembro 14, 2003
 
Roubado:


Férias do mundo aos bêbados de amor


Aos bêbados de amor deveriam ser concedidas férias do mundo. Veja bem, não digo férias da vida, pois esta é campo aberto para os que amam. Estou falando do mundo tal que conhecemos em seu dia-a-dia-a-dia-a-dia-a-dia adia ardia... a matemática do acordar, trabalhar, ir pra casa, dormir. A rotina enferruja o amor, pois ele é ser criativo, precisa de telas para pintar, papel branco para escrever líricos poemas sobre coisas inúteis à vista de quem passa a passos largos.

Ah! Dêem férias do mundo aos que não conseguem pensar em outra coisa senão no entrelaçar dos olhos, peito sobre peito, tum tum, coração! Não sejamos rabugentos, nem gaiolas, nem durex, a ponto de acharmos fútil presentear com a liberdade esses seres inundados de canto solto sem porque.

Desabito o mundo, desabito o mundo, desabito o mundo e levo comigo quem de asa for tão leve que não suporte mais deixar pelo caminho o amor em cacos, pois é férias o que estou me dando!

 
 
De onde vem? De onde veio se não da cabeça, do centro, do coração, das veias, do plexo solar, do pulso? De onde vem a vida? Ela veio de desejo, de capricho, de destino, de conspiração celeste, da própria vida, do hábito, do inevitável, do amor? Como se expande pelo mundo, incontrolável, longe de qualquer plano prepotente, tangente a algum limite que exista, desafiando músculos e nervos com a dor? De onde surge e explode a vida?
 
terça-feira, setembro 09, 2003
 
Subject: carta-de-papel
Date: Fri, 5 Sep 2003 14:54:08 -0300

Do lado de cá tudo bem, como em qualquer dia de vento gelado ou de
sol-eterno-a-pino, sempre tudo muito bonito na cidade de asfalto e gente.
Do lado de cá é bonito e vai bem. Ando transbordando um amor pra dentro,
feito aquelas vasilhas de ferver leite que inventaram pra não derramar.
Derramo por dentro uns olhos fundos que me olham com rugas entre as
sobrancelhas às três da manhã e uma mistura de temperaturas e
sentimentalismo precipitado. Consigo, às vezes, até me conter mas pra quê
mesmo que serve. Pra nada e as coisas não têm de ser úteis.
 
segunda-feira, setembro 08, 2003
 
www.cabezamarginal.org/cambalhotas
 
sexta-feira, setembro 05, 2003
 
Quero uma vida em forma de espinha

Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um troço solitário
Quero uma vida em forma de areia nas mãos
Em forma de pão verde ou de moringa
Em forma de sapato velho
Em forma de tiroliroliro
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra coberta de seixos
De cabeleireiro selvagem ou de edredom louco
Quero uma vida em forma de você
E a tenho, mas ainda não é o bastante
Nunca estou contente.

(Boris Vian)
 
quinta-feira, setembro 04, 2003
 
Amor, aquele filme que eu não vi. Já te quis mas passou enquanto eu andava ali no quarteirão fechado. Tropecei no paralelepípedo fora do lugar, sou distraída. Não traio minhas mãos nunca, e você?Podemos nos conhecer, ouvir qualqer coisa em três ou quatro vozes ou tons. Não casei. Faz um tempo, já.
 
sexta-feira, agosto 29, 2003
 
Tá tarde. Mas vim aqui porque aqui não tenho cara, não quero nada, não sou ninguém. Não tenho história não tenho o tempo não ganho nada, nem perco. Aqui o tempo passa e eu despejo segredos. Lavo as mãos, quem quiser que leia. Aqui não sou ninguém. Ninguém. Aqui não tenho nome, nada me oprime, não há exigência, expectativa, pré-requisito. Ninguém. Aqui sou incondicional, contraditória, escrota, mentirosa, digo tudo, lavo a alma e não há ninguém. Aqui falo sozinha e falo pra olhos de ninguém, sem cara, sem nome, sem cargo, sem mentira, sem palavra. Que nem eu. Que nem todo mundo que é gente. Nem todo mundo é gente sempre. Mas às vezes é. Tá tarde.
 
domingo, agosto 24, 2003
 
Escrevo-te, porque não tem fim o domingo. Escrevo-te ao crepúsculo e ofereço-te o domingo. Às fatias choros partidos, fibras dividadas como em um bífe de músculo bovino. Das perguntas vacilantes, entre o peito e o céu da boca, que saem aos pedaços. Meus olhos se encheram d´água algumas vezes, porque pensei, pensei, pensei. E quis adivinhar seus olhos e quis sentir todo o seu desejo por mim de uma só vez. Mas domingo é tudo partido e também suas mãos nas minhas pernas eram reticentes. Te escrevo então mais um pedaço de domingo, pra me desengasgar, pra eu me livrar, pra tirar de mim esse domingo espinho de peixe atravessado na garganta. Durma bem.
 
quarta-feira, agosto 20, 2003
 
Rabisco o amor em papéis de recado, bagunça de escritório, janela de concreto, amor s/a. Reescrevo e risco porcarias sérias e sentimentais em papel embolado, triturado e confidencial. Refaço o beijo. Os quinze anos não me deixam.
 
 
Aquele amor nem te conto, já foi, já passou, acabou como outros, passou por cima e foi pra tão longe, mas tão longe, que perdeu a vista, a audição, o paladar. Morreu coitado, não sabe se velho, se amargo, se triste, se de infecção generalizada. Jaz calado, putrefato, a sete palmos, soa como as flores frescas dos dias de finados.
 
terça-feira, agosto 19, 2003
 
Então eu chorei, em meio a tantos mil afazeres, inundada de vida sem graça, nostalgia, amor. Eu só choro de medo, não tenho tempo, escrevo trancada, em folha qualquer rascunho, minhas víceras se espalham no chão do banheiro onde me tranco. Sou aquela que ama, tranco-me. Mas há vida. Há porções de vida que não consigo dividir com você. Busco mais noites encantadas como outras que já foram. Encanto-me, mas o esforço é hercúleo e meus olhos ficam marejados. O esforço de chorar também é hercúleo. Engoli minha própria chave. Ou preciso de férias com você. Preciso não ter medo de roda gigante, porque você disse que vai me beijar na roda gigante de luzes acesas, um dia, quando for noite.
 
sexta-feira, agosto 08, 2003
 
Pérolas do meu atirador tentando ser romântico:

Eu procurando a calcinha no chão do quarto. ele acha, cheira e diz: - Acho que esta é sua.
Eu: - acho que vou ficar menstruada amanhã.
Ele, me abraçando com um sorriso sedutor estilo Mário Lago: - ah, você fica linda menstruada.
A gente encontra pra ir à locadora pegar um filme pra ficar em casa: - nossa, você está tão bonita! merece até sair!
A gente discutindo relacionamento: - Você é igual docinho de festa de criança. A gente come, come e chega uma hora que não aguenta mais, mas sabe que no dia seguinte vai lembrar e pensar que podia ter comido mais.
Ele, negociando um lugar pra sair à noite: - Vamos ver a coisa de uma maneira mais holística.
 
domingo, agosto 03, 2003
 
ausência em meus claros guardados. Te acho. Penso que sinto quando olho seus olhos da distância de nossos narizes. Penso que acho e no entanto é uma angústia. Quero saber tudo, impossível, todo o impassível de qualquer descobrimento. Descubro-te. E sei que me engano. Beijo mais fundo e desvendo sua língua com a minha. Desengano pensando no fim, meus olhos escurecem. Ausência em meus dedos guardados no bolso do paletó. Saudade de dedilhar seu rosto, barba, lábios, orelha e nuca. Nunca, é a palavra que me basta. Ou sempre. No fundo, tanto faz.
 
quinta-feira, julho 31, 2003
 
Sobre o sexo:
A gota de água fresca pingando da telha depois da chuva: calorão. A gota da água fresca pingada no meio da lingua que olha pro céu de depois da chuva no calorão. Que sede ela quer matar?
 
 
- Meu pedaço chegou de viagem. Inda bem;
- Simples;
- Então penso e alguém me lê os pensamentos real time;
- Você me dá desejos de presente;
- Desejo é falta;
- Seu desejo me enche;
- A falta que me dá o fato de você existir e eu não estar mais vazia e sim de braços abertos é deliciosa.

 
quarta-feira, julho 23, 2003
 
Um pedaço meu que viajou de férias:


Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, de mil silêncios cadenciados pra ninar minha Maluquinha...
 
 
Um pedaço da Hilda que você mereceu ontem:




Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.



Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.



Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

(...)



[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

 
 
Um pedaço do Paulinho da Viola:

Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor assim descontraído
 
quinta-feira, julho 17, 2003
 
Um pedaço do Drummond:

Experiências de escrituras,
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.
 
 
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de Explicação, da Adriana Falcão)
 
quarta-feira, julho 16, 2003
 
Leia mulheres, nos olhos e na pele, escreva nas costas, nos dorsos e ancas,
alguns modos de usar, alguns deleites que elas podem dar, alguns recados
aos filhos e irmãos. Leia as curvas de cabelos crespos, pés calejados,
tortos, podres, encravados. Leia mãos macias amassando pães, leia as mãos
também espalmadas sobre a sua testa ou o seu pescoço ou o seu peito quando
você gozar. Leia choros incessantes, soluçados, fisionomias duras diante do
seu choro frágil e soluçado. Escreva histórias em cada um de seus dedos dos
pés, conte estrelas em suas nucas. Veja-as apodrecer diante dos seus olhos
e confie a elas seus filhos, o que forem comer, o que irão aprender na escola, o que irão vestir e o que irão amar. Leia, interprete, consuma, saboreie, usufrua, lamba, encare, toque e aprecie cada dote, dom, habilidade, inocência, conivência ou curva que elas possam dar. As mulheres.
 
 
111 átomos diferentes fazem tudo o que existe. A tinta do cabelo preto de mais, o batom.
A noite passa a conta-gotas, cada faixa do disco e a primeira outra vez. A noite passa escura e acordada a seu lado, no seu colo ou no colchão mole de mais onde você dorme. Sua nuca e pele, o tecido infinito. Você não tem fim, à noite, ao seu lado.
111 átomos também constituem os ácaros que constituem seu colchão mole de mais. Infinitos os átomos da sua pele. Átomos são sempre infinitos. Cada cor, cada combinação dos átomos das moléculas que se desprendem de você e permanecem a seu redor enquanto eu aspiro sua nuca. Onde seu cheiro vai parar dentro de mim?
É de átomos a blusa, o telefone, todos os olhos espelhados do mundo, inclusive o seu e o meu e nossas pálpebras. E a calçada sob os pés de personagens imaginários que fazem barulho com sapatos duros. Também as formigas dois metros abaixo do último subsolo do edifício Acaiaca. A sopa sorvida com cuidado por um menino de cinco anos. O sono, a sonolência da noite em conta gotas a seu lado. Não, isso não.
Somos como átomos de carbono, desses que qualquer um tem aos montes. Somos intervalo, meio, entre, espaço vazio.
 
sexta-feira, julho 11, 2003
 
Filmes chatos de noites de quintas-feiras. Ainda bem que só percebo o começo e o fim dos filmes.
Esqueci alguns... Claro.

- Um homem meio esquisito
- Pão e Tulipas
- Fast Foood Fast Woman
 
terça-feira, julho 08, 2003
 
Momento Pânico Materno

- Mãe, o Igor não sabe que criança não beija na boca. E a Dani já explicou pra ele muitas vezes.
- Ah, é? Porque não sabe?
- Porque ele fica beijando a Carol.
- Mas... só a Carol?
- Não, a Ana Paula, a Larissa e a Clarissa também. Ele corre atrás de todas as meninas pra beijar.
- E você, ele não beija não?
- Não.
- Porque?
- Porque eu corro.
- E ele beija os meninos também?
- Não. Ele sabe que menino beija menina. Ele só não sabe que criança não beija na boca.
(momento educacional dentro do momento pânico materno)
- Mas tem menino que gosta mais de beijar menino.
- Hahahaha... É, mãe? Que engraçado...
- É, e tem menina que gosta mais de beijar menina.
- Hahahaha... Então lê historinha pra mim.
 
segunda-feira, julho 07, 2003
 
Mais uma historinha grande pro Pedro pular. Pula mesmo, porque essa é dessas coisas meladas e lindinhas que são boas só pra mim. Como o blog é meu, eu coloco. Que posso eu fazer se meu amor é um contador de histórias?


22 de abril – O Dia do Descobrimento


Não me lembro bem a data exata em que se passaram aqueles longos dias de espera, mas é certeza certa que já se passava alguns anos do século XXI e o mundo não era mais o mesmo. O planeta Terra estava dominado por espetáculos franceses de dança contemporânea, intermináveis palestras sobre responsabilidade social, boates bombando de gente bonita e incontáveis coquetéis de comemorações de qualquer coisa. Isso sem falar, nos... bom, deixa pra lá...

Capitão Vermelho e sua tripulação não iam nada bem em suas aventuras de além-mar. Já não era a primeira vez que alguns marinheiros se reuniam no convés para pensar um modo de tirar o Capitão do comando do navio. Queriam colocar em seu lugar o frio e matemático Doutor Encéfalos Causa, aquele mesmo, que não comeu algodão doce em sua infância e, talvez por isso, tenha se tornado salgado. A rebelião aumentava a cada vez que Capitão Vermelho via sua embarcação afundar em mais uma aventura falida em direção a um coração de tomates secos.

Há tempos sua tripulação não ouvia a voz ofegante do Capitão, a gritar com pulmões de criança no fermento: Atenção, homens! Alçar âncora!!! Terra à vista!!!!

Mas era durante a noite, no interior de seus aposentos, que o Capitão fazia anotações e traçava planos em direção ao caminho que acreditava ser o melhor para ele e sua tripulação. Com a credibilidade de um vendedor paraguaio, a garantia de qualidade de um televisor CCE e o carisma de um candidato em época de eleições, Vermelho não se cansava de tentar, mesmo já desacreditado dentro de sua própria embarcação.

Eis que um dia, numa noite de açúcar, o Capitão avistou uma luz que fundia seus olhos e brilhava sua alma. Uma luz mais clara que dente de gente com sorriso sorridente. Uma luz tão clara e tão bela, que até ofuscava a Lua e a deixava uma fera, morrendo de ciúme e inveja, da beleza que desfilava sem cerimônia e sem espera.

Agora ele tinha certeza! Após anos de procura, havia finalmente encontrado o que tanto procurava. Um lugar, uma luz, um caminho, uma casa, uma lua, um lar. Enfim, um lugar pra repousar seus pés marcados de caminho torto e frio.

Bagunçado de pernas trêmulas, com uma das mãos das apontando em direção à descoberta e a outra levada ao peito nobre e confiante, ele gritou como há muito não gritava:

- TERRA À VISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


E os homens que dormiam sono tão leve quanto o próprio balançar do navio à deriva no mar levantaram-se todos, com olhos esbugalhados em interrogação. “O capitão deve estar louco, como pode avistar terra nova em uma hora dessas da noite?” - perguntava o cozinheiro. “Já disse que está passando da hora de jogarmos ele ao mar!” - gritava o timoneiro. “É verdade! Ele tem que ir para a rampa o mais rápido possível!” - sentenciava o marujo de blusa listrada.

Mesmo contrariados, eles foram ver o que havia sido motivo de tamanha comemoração. E viram! A luz de trombetas apaixonou também toda a tripulação. Os marinheiros cantavam e dançavam, batendo suas botas no ritmo do vento que ainda dormia distraído, roncando ventanias.

Uma festa de ano novo tomava conta do navio que parecia dançar valsa com as ondas, sem em hora alguma errar o passo ou pisar em seus pés. O destino estava certo e Capitão Vermelho havia finalmente reconquistado a confiança e admiração de seus seguidores.

Mas como arroz de festa não faz ruído, quando chegava aos arredores da recente descoberta, a embarcação foi pega por uma correnteza de águas bravas em fase de TPM. Os marinheiros se viram obrigados a jogar a âncora antes do tempo previsto a fim de evitar um desastre e o navio afundar tão próximo a terra firme. Com vários homens jogados ao mar e um corpo de marinheiros trabalhando pesado, o aristotécnico Doutor Encéfalos Causa aproveitou o momento de desespero para tomar conta da situação e iniciar seu reinado de cores cinzas e narizes gripados.

- Senhores!!! Vejam bem aonde o capitão tão estimado por vossas senhorias nos trouxe. Estamos à beira de um colapso e o Sr. Vermelho nada pode fazer para conter a vexamosa situação em que nos meteu a todos. Senhores, reajam!!! Levem-no a rampa!!!!

E num ato de atum, os marinheiros ensandecidos acorrentaram Vermelho e o colocaram frente a rampa, a não mais que dez passos em direção às águas nervosas do mar e ao abraço envolvente da morte.

- Esperem!!! Vocês não podem fazer isso comigo! Nunca lhes faltei com a verdade. E é cada vez mais crescente o sentimento que se instala em mim. Vamos vencer esse desafio e, finalmente, encontrar nosso lugar. Um lar recheado de bombons de morando com chocolate, sushis de salmão e muito amor...


- Mentira! Não vamos mais acreditar em suas bobagens! O amor é o placebo preferido dos sonhadores que não sabem viver a vida real como você!


- Pois então veja com seus próprios olhos! Ali está o placebo que suas úlceras o impedem de enxergar...


E nesse momento, a luz brilhante que à todos iluminava, brilhou ainda mais forte, cegando os homens e até mesmo as águas. O navio que quase afundava, parecia então flutuar, e seguia lento, em direção a terra firme e confortável. A luz mais clara que a lua, fez com que todos se calassem até chegarem em terra firme.


Quando o navio finalmente atracou, Capitão Vermelho foi o primeiro a desembarcar, indo correndo em direção à luz que os iluminara e já não mais cegava.

Chegando lá, encontrou à beira da praia, uma princesa tão linda, mas tão linda, que por instantes, sua lindeza o fez duvidar do que seus olhos míopes estavam vendo. Era uma princesa que iluminava as noites escuras com seus olhos de ver belezas simples e que havia acabado de salvar toda uma tripulação com eles.


- Quem é você?


- Meu nome é Linda. Princesa Linda! Vivo para fazer as pessoas se apaixonarem e depois disso, aproveito para fazer o que quiser com elas, como, por exemplo, dar voltas de bicicleta em torno de nossa ilha.


- Pois bem, Princesa! Você me tem nas mãos! A partir de agora ficarei aqui e prometo que darei quantas voltas forem necessários para sua total satisfação. Darei de voltas ao redor da ilha com você de bicicleta, de carro, a pé, plantando bananeiras, levitando ou até mesmo correndo e falando o dicionário na língua do pê.


E assim terminava ops, começava a história do destemido Capitão Vermelho, chefe de uma embarcação que nunca soube ao certo onde estava indo, mas tinha certeza que estava em um caminho certo.

Princesa Linda ficava, como o próprio nome já diz, cada dia mais linda, e o Capitão comemorava o tesouro que havia encontrado.

E assim vivia a vida, orgulhoso e feliz com seu coração...









 
sábado, julho 05, 2003
 
Alô alô, testando...
 
quinta-feira, julho 03, 2003
 
TRANSIÇÃO

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... - não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)

Cecília Meireles
 
quarta-feira, julho 02, 2003
 
Então fala, amor
fotografa o beijo de lingua
Fala Drummond.
Calado, com os dedos
a me revirar
e doendo a espinha.
Congela o céu de rosa
pára o tempo
que seja sempre
assim amém.
Deixa que te envio o Drummond
certo pra você contar.
Interrompe a frase
eu recomeço o ditado
te sopro ao ouvido o meu Drummond
Uma e outra vez.
Dito O Corpo ao seu ouvido
repito
de cor
sei. Só sei.
 
segunda-feira, junho 30, 2003
 
O CÉU DE CABEÇA PRÁ BAIXO







Página 1
Longe, muito longe daqui, uma menina sorria e pulava, cuidando de seu coração.

Página 2
Durante anos, a Menina de cabelos cacheados debruçava-se todas as noites na janela para ver o céu piscar. Esticava o nariz gelado e sentia cheiro de noite. Mas sua casa era tão pequena, e assim também suas janelas, que o único jeito que ela arranjou pra ver o céu foi sentar-se no sofá e enrolar todo seu pescoço para trás. Uma visão privilegiada, que trazia consigo um pequeno e estarrecedor detalhe: o céu ficava de cabeça para baixo...

Página 3
O tempo passava como uva, quando um forasteiro, em passagem pela cidade, visitou a casa da Menina. Amigo antigo da família, ao ver a filha do casal, elogiou. Comeu feijão de corda com mandioca e se esbaldou. Tomou café com broa de fubá e se desmanchou. Acariciou o gato de estimação, se arrepiou. E já ia mesmo indo embora, quando se deparou com uma cena estranha. Não resistiu e perguntou:
- O que você faz aí, Menininha? Com a cabeça para fora da janela e o pescoço enrolado para trás?
- Estou olhando o céu.
- Posso ver também? – assentou-se ao lado da menina.
- Pode. Espia só como é bonito! Agora respira e sente o cheiro que tem...
- É muito bonito mesmo, mas, assim, está de cabeça para baixo.
- Não, senhor! O céu é assim! As pessoas é que não sabem olhar...





Página 4
Em pouco tempo, a notícia se espalhou pela cidade. A novidade ganhou pernas de avestruz, pescoço de girafa e agilidade de lagartixa. Assim, mesmo os que não fossem alcançados pela velocidade com que o boato corria, não conseguiam ficar alheios ao reboliço que estava no ar. Logo, filósofos, cientistas, poetas, astrólogos e fofoqueiros vinham de todos os lados, feito romaria de São Judas Tadeu. Debruçavam-se na janela da casa da Menina e tentavam desvendar o mistério.

Página 5
Os astrólogos argumentavam que a posição de Vênus em linha octogonal a Saturno era responsável pelo fenômeno. Os alquimistas comemoravam que a descoberta facilitaria a transmutação dos metais em ouro, durante a aurora boreal. A benzedeira afirmava sua fé em Deus dizendo que, independentemente da posição dos astros, todos que tivessem uma boa conduta na terra iriam para o reino dos céus. E sobrou até para os boêmios que... Bem, os boêmios se abstiveram do debate porque nunca souberam ao certo a diferença entre o sul e o céu. Pediram apenas que não mudassem as estrelas de lugar para que não perdessem o caminho de volta pra casa, nas noites de bebedeira. A discussão aumentava, nada se resolvia, e os murmúrios zanzavam pela cidade.

Página 6
Até que um dia, um jovem senhor doutor recém chegado da capital, soube da situação e decidiu visitar a casa da Menina. Depois de muito observar, o homem deixou o local cabisbaixo, coçando uma iminente calvície prematura. Cada um com sua careca, as autoridades locais também coçavam as suas, quando o doutor, perguntado sobre a questão, foi categórico em seu veredicto:
- A Menina tem razão! Até os dias de hoje, nós olhávamos o céu de maneira equivocada, de cabeça para baixo. É preciso esclarecer a sociedade e avisar a todos sobre a novidade!

Página 7
Boato confirmado, a população tentava se acostumar com a nova realidade. Naquela mesma noite, o Prefeito convocou toda a sociedade para dar as boas novas. Às oito horas, na pracinha, em frente à igreja, todos esperavam pela anunciação. Com o mesmo entusiasmo de quem aprende a andar de bicicleta no fermento, o Prefeito foi solene e pomposo em sua declaração, de olho nas próximas eleições:
- Queridos póvos e póvas dessa minha esplendorosa cidade de gente fulgente. Boa noite! É com enfastioso prazer que tentarei, com a singeleza e gabarolice que me são habituais, narrar essa situação inenarrável! Como vós deveis saber, nossa cidade é palco da última maior descoberta feita pelo homem... bem, nesse caso, por uma menina.

Página 8
Ao final do discurso, todos esticavam suas cabeças e giravam seu pescoço para trás, para finalmente, depois de anos e anos de céu de cabeça pra baixo, poder vê-lo na posição correta.

Página 9
Mas eis que, por coincidência ou destino, como melhor preferir o leitor, o Matuto, sujeito cabreiro que vivia sozinho em uma fazenda nos arredores da cidade, passava sorrateiramente pela praça. Presenciando aquela confusão, perguntou:
- Que diacho é isso?! Que vocês tão fazendo, com a cuca virada para o lado e o pescoço enrolado pra trás?!
- Olhando para o céu! – disse um dos presentes – o senhor precisa se atualizar! Não sabia que só assim podemos ver na posição correta? Da forma como olhávamos antes, víamos o céu de cabeça para baixo.

Página 10
Matuto, como seu próprio nome já sentenciava, o velho disparou sua verdade, que assolou toda a população da cidade:
- Uai, será que vocês não perceberam?! Não é o céu que estava de cabeça pra baixo... nós é que estamos!!!
A praça inteira, homens, insetos e coisas silenciaram um vazio intrigado, tão matuto quanto o próprio Matuto.


Página 11
Pandemônio de cores curtas!!! O pânico tomou conta da cidade e, depois de muitos gritos e correrias, tudo começou a cair.

Página 12
Mães agarravam suas crianças, crianças nadavam felizes em direção ao céu, o céu engolia o mundo com gentileza e hospitalidade. O Prefeito tentava segurar sua cartola azul, quando também seguiu em queda livre, num passeio que não teria mais volta. Um homem comprava um cachorro-quente que caiu na imensidão. Negava-se a pagar sua dívida, quando ele e o vendedor começaram a cair e, mesmo assim, continuaram brigando, sem perceber o inusitado da situação. Duas respeitadas e respeitosas senhoras que futricavam sobre os atos voluptuosos da filha do padeiro também deslizaram pelo ar. Tiravam saias e anáguas do rosto preocupadas com o que o destino reservaria para a pobre moçoila.

Página 13
E tudo mais caía distraído... os carros estacionados na praça – caíam; as casas, os telhados, as televisões e os liquidificadores - caíam; as frutas que estavam fora de época – também caíam e até mesmo o boné do pintor, que não saía de sua cabeça nem na hora do banho, seguiu também em queda livre, segundos a frente de seu dono.





Página 14
Sobraram apenas a Menina e o Matuto com os pescoços enrolados para o alto:
- Gente esquisita... – disse o Matuto.
- Pois é – concordou a menina – eles acreditam em cada coisa!!! Mas não é mesmo mais bonita a noite vista assim?




FIM
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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