Página Preta
Sexta-feira, Outubro 20, 2006
 
Dia aflito fim da
florada travessia - viaduto.
Todo dia ando viaduto como deus -
sobre o fluxo de automóveis:
Debaixo de viaduto não passa rio braço
mar
Mas fluidos carros se espalham pelo leito,
Serve.
Mais de-tardinha, escorrem faróis vermelhos
Fumaças franzidas de dia aflito fuligem e,
Todo dia
Penso em cair sobre o piso raso viaduto
oco tempo, fluxo barulho automóveis correm leitos de gente
Rios exalam fumaça.
 
Quinta-feira, Setembro 28, 2006
 
Parto. Não me cabe essa fatia. Dou a volta em torno da mesa. A torta é a mesma. Torta. Barulho em baixo da toalha lisa. Nada. As formigas fazem silêncio. Emergem xadrezas sob a torta. Sobre a toalha, debaixo da torta. Clara. Torta. Cruzo as pernas. Cadeira. Frases sempre mais curtas. Pés resignados. Meus. As formigas caminham e fazem silêncio e caminham sempre. Tortas caminham sob o forro da mesa. A fatia aguarda.
 
Sexta-feira, Agosto 18, 2006
 
Ar condicionado

Sóbrias gotas correm teias, toldos
tendas, têmporas chocadas

Tâmaras tardias
Caem ácidas nas línguas
Ingênuas dos pequenos
Silêncio de boca assus
tada -
olhos atentos enxergam setembro
 
Quinta-feira, Maio 18, 2006
 
Sente-se, meus verbos serão todos tão imperativos quanto meus desejos.
Voltarei quando você se sentar.
Ainda, anda, senta.
Não, volta, senta. É vazia a boca que te cospe.
É manco o gesto que te interrompe.

Senta e podemos até criar um livro de provérbios milenares.
Ejacular a faca da sua mão
Tombar sobre a pedra crânios vermelhos

Senta, vamos tentar. O tempo está bom, senta.
Guardarei a sobremesa permanecerei quieta, aqui, neste mesmo lugar.
Você agüenta esse pulso, a pele espessa, os tendões
Você senta e eu te compro uma revista, um bombom, haverá uma brisa
Faço companhia até alguém voltar. Discutiremos cidades, concretos,
áreas de lazer.
Concordaremos. Farei café e o tempo vai passar. Estaremos despertas,
de pé, sobre a pedra fundamental. Afundaremos juntas, porque cabe a
nós e a mais ninguém. Assistir programas na televisão, dormir tarde,
ter cachorros, filhos, paredes, cds. Não sucumbir ao sorriso do céu
cinzento deixar que uma nuvem apenas espanque nossos corpos sobre o
asfalto, despenque molhada, gasosa e, gentil como carne de mãe, não
provoque nenhum espanto.
No tempo, as roupas irão secar.
 
Segunda-feira, Maio 08, 2006
 
Pra quem voltei a fazer versos desavergonhados de flor, dor, amor


Amor, marca a nota
Amor e traços frágeis contornam o tempo fresco, uma varanda
Amor, nome, tela, luta, lastro de céu sobre papel timbrado
Amor, timbre bem feito, gesto contado
Amor, o idiota sob a lâmpada apagada
Amor, minha idiossincrasia mais ousada
Amor, meus caninos em sua direção.
 
Quarta-feira, Maio 03, 2006
 
Mais uma de flor e dor.



Sempre-vivas

Certo é tirar a flor
deixar o talo
secar ao sol
comprar a dor
Arranjar num vaso sobre a mesa de centro
à vista
ao sol
a dor.
Ano que vem o cerrado sopra outra vez.
 
Quinta-feira, Abril 13, 2006
 
Eu mesma surgirei alegria
como bolha sob o mar
Eu mesma sei do tempo perdido
Do olho partido na palma da mão
Eu mesma segurei o corpo vencido
Eu mesma perdi a visão

Permitirei a fenda no olhar
Serei vereda quando o sal passar
Serei eu a eclodir do sal
Mas guardo uma cavidade para o sol

Será a mesma ardida alegria
Sem antigos olhos densos
Ainda assim será arder
Ainda assim serei sorrisos
Ainda assim cobrirei o rosto
E seguirei sem saber o tamanho do mar
 
Segunda-feira, Abril 10, 2006
 
Tenho um retrato surdo do tempo
Um retalho de carne
O vão cardíaco
Um último corte
O que tenho vai longe
É fio de voz em canção de ninar
São braços cheios que ninam meu resto
Um sono que embala meu corpo ereto
Tenho um talho do tempo em minha mão
De braços vazios não sei ninar
 
Terça-feira, Abril 04, 2006
 
Summer is ready when you are.
 
Quinta-feira, Março 30, 2006
 
Melhor chorar o leite derramado

Carrego alguém que não vem mais, perdi o eclipse do sol, perdi o sol dentro dos bolsos. Meu tempo era só esperar, agora. Agora não é mais. Agora não é mais tempo. Agora não tenho mais sol. Agora é um quando que ficou no começo da semana. Agora foi embora e eu fiquei, preciso que alguém me dê a mão, um copo d´água, uma pílula. Preciso de uma mãe. Estou presa na quarta-feira, na lua errada, no tempo escuro de quando chove à tarde. Eu vou chorar, chorar. Eu vou contar o tempo ainda assim. Eu vou chorar, não se engane. Meu rosto é são mas o resto é vulto estarrecido que não se revela.
 
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
 
Sentaí, ela disse, dizendo que ia fazer uma música comigo. Disse e já foi rabiscando o papel, não interessa a palavra mas a tentativa. Ah, a tentativa é que era bom, ela dizia e inventava letras, vocábulos, toda a Ópera. Eu faço a letra, ela não parava de dizer, e você faz o ‘ritmo’.Você quis dizer melodia, ousei e, desta vez calada, me calou com o olhar. Escreveu e ia dizendo o mar, o som, a mulher, o homem, o beijo de lingua, sorvete de creme holandês, mar. Perguntou pelo violão e eu lá parado, sem dizer palavra, que ela só dizia. Quando eu disse que a palavra tava repetida ela, repetida? A repetição é que importa, amor.
 
Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
 
Se são só palavras tontas
Se são tantas palavras e ainda só
Ainda só me penetram a pele e as veias
Me correm e comprimem artérias
Atravessam ilesas sístole e diástole
Sons vadios pelos olhos, cabelos
Tontura, criança, gozo, cubos de gelo
São só,
Porque tão só consolam o tempo em que não existo?
 
Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
 
A mulher se perdeu em seu próprio ventre. A mulher se matou por dentro porque seu ventre não estava mais lá. Seu útero já se espalhava pelo asfalto quente, estava calor, ela se lembra. Ela não se esquece, a mulher despedaçada sobre a cama. Ela desfalece em seus guardados, seus filhos, seus lençóis. Mas isso não é esquecer. Argumenta. Sua boca larga tem força pra dizer. Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abra. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padece com coragem e precisa de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos.
 
 
Onde escondeu-se a fragilidade daquela mulher? Se o ventre, terra preta e enxada, se o pequeno porte abriu-se sem ferida. Se a vida hoje debruça-se sobre seu corpo cheia de cuidados, para que o sofrimento não sofra tanto. Sem tocar a pele pra que não se abram feridas. Sem olhar os ossos para que não se quebrem. Sem que se façam perguntas que não serão respondidas. Converse em silêncio pra que ela responda, dentro da sala onde repousa o corpo que alguém ousa dizer frágil. Sutil talvez, a conversa, os ossos, os olhos que vão longe. Não toque a mulher, o pequeno pássaro corajoso que não exita em falar alto, que padeceu com coragem e precisou de ajuda para expirar a última fumaça violeta de dentro da sala escura de seus pulmões, por enquanto, repousa agora sobre a palma de cada uma das mãos que criou.
 
Terça-feira, Janeiro 10, 2006
 
O papel travesseia com letras
Guerreia - são só travesseiros
Apesar de temer gemidos e gritos de horror
Trapaceia cordões de carícias do colo da mãe
que dá voltas pelo pescoço, cuida, cuida e beija, a mãe
Deixa roubar, distraída, devota do santo cordão
Corre vestida de letras e leva no colo o pobre papel
 
 
breve o tempo quente
branda o meio dia
bebe o sol de canudinho
de cabeça pra baixo
quente chupa o pé
penetra a telha
goza a gota:
breve, breve.
Atrás da montanha
o cobertor se esconde.
 
Terça-feira, Novembro 29, 2005
 
Ainda é tarde, o sol venta imóvel
sobre as plantas da sala.
Imóveis as
Plantas não se aguentam
Tarde e o sol vai baixar
erguer serras sobre a cidade de edifícios.
Tarde não há lua
não é verão
Não há tempo
para um banho de mar.
O mar já vai longe
Tarde
A tarde lança velhos hinos
Dança
velhos homens
traz meninos
e caminhões
Vão brincar
correr para oeste
permanecer.
 
 

Me respeitem! Agora sou uma senhora casada.
 
Sexta-feira, Agosto 19, 2005
 
Um poeminha de palavras fáceis que não faço mais drama:

Eu vou ouvir uma música assim:
Que expurgue água e verme
Que zuna um ruido leve
Que zombe a rua do eco
Que eu perca de cor
Que se preste ao calor
Que me faça calar

Uma que sirva na luz
da manhã de domingo
E que o domingo seja agora
E que agora não demore
Domingo, demais.
 
Terça-feira, Agosto 09, 2005
 
Existe pouca coisa
O mundo, pouca coisa
O que existe não serve
Por isso eu vago noites
ao redor da sua boca
e procuro minhas mãos
entre dobras de tecidos.

O que há, não se vê
Há que se penetrar
Há música pra saber
E não conter os passos
Embora eu te olhe
Embora você atravesse a sala
Embora eu sorria
Não contenha os passos

Se a cortina for aberta
A luz da noite é que existe
E à noite há pouca coisa
Há música pela casa, três quartos
Há espaço e o espaço é triste
Há que se dançar
 
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
 
No poema
A tela é mármore sobre meus olhos
Clara, nua, luz, lúcida e meus olhos
Deita-se preguiçosa sobre a retina
molda-se a seu formato, ganha o páreo
Meus olhos ficam brancos e a tela é minha
Minha tela, leitura em branco, clave incolor

Meu poema, a ser escrito sem louvor
Sem bravura, sem leitor,
Sem o que manche mármore,
Ainda leva meus olhos brancos
Ao pátio, ao lago, ao campo.
Trava o frio em minhas mãos
Deita o repouso rígido
Vela o silêncio
Sela a lápide
Guarda da terra a carne
E a carne dorme.
 
Sexta-feira, Julho 22, 2005
 
Eu não

E quem sabe o aniversário não chega pra eu te dar o presente que escolhi a dedo? Questão de tempo, virá numa caixa, terá um escrito, você se assustará. Quem sabe você não se assusta pra eu te deixar de boca aberta, de olhos grandes e eu não enlouqueça pra saber de dentro da sua cabeça o que acontece a cada momento de boca aberta? Abre, meu bem, quem sabe não chega o dia em que eu vou parir e eu deixe vir a dor e o sangue como prova de amor? O amor é vermelho, me disseram quando eu ia pra escola. Quem sabe o amor não é verde-oliva-bandeira-mangueira-pasto? Em que cor você me ama? Que amor tem por mim? Quem sabe você não me ama? Quem sabe o amor é só o frenesi incolor de não ver dentro da sua cabeça? De ter que perguntar: Você me ama? De que cor você me ama? E agora, você ainda me ama? Ou o amor é só a prova de que eu sou manca? De que não ando com as próprias pernas? De que a felicidade é uma questão de tempo e de que o tempo foi feito para que fôssemos mancos. Todos. Ou eu não amo?
 
Segunda-feira, Junho 20, 2005
 
“Ai, que bobagem” – eu gemia os entulhos, as molduras dos quadros que eu gosto. Ia até a cozinha, fervia água, preparava a refeição e tinha mais panelas do que comia. Pecava pelo excesso e decidi jogar tudo fora. Até as colheres de pau. Até os lençóis. Até a espera que contava as horas do meu dia. E as horas. E a porta que afinal se abriria. E as cortinas. E os lábios, o cachorro, a visita, o cartão do banco, cada livro, cada palavra que eu diria e cada som que talvez saísse das caixas. O microfone e o papel de presente eram, então, inúteis. E as canetas, e os papéis, o teclado do computador. E assim eu teria o silêncio porque dentro de mim é como no centro da cidade que bobagem, entulho, barulho, palavras, gente e a espera impaciente pelo silêncio do fim do dia. Eu joguei fora a espera que contava as horas do meu dia e ela saiu acompanhada das horas do meu dia e do talão de cheques. Assim escorreu a porta que afinal se abriria. Ficou tão vazio que nem o silêncio chegou.
 
Quinta-feira, Junho 16, 2005
 
paul éluard na tradução do Léo

nudez da verdade
“eu bem sei”

o desespero não tem asas
o amor também não,
nem rosto,
não falam,
eu não me mexo
não olho pra eles
não lhes dirijo a palavra
mas estou tão vivo quanto o meu amor e o meu despero
 
 
Enquanto dormia, a parede cresceu. Enquanto a parede crescia, escrevia. Traçava impressões, inventava conclusões, sorria, apertava os dentes, criava rugas, curvas, gotas, cores. Entortava linhas. Enquanto a parede escrevia aliviava a pressão do sangue que circulava no plexo solar. A parede fazia bem. Em perspectiva, enquanto ameaçava cair devagar sobre sua cabeça. Esquecia, enquanto isso, impressões importantes bicolores, grandes palavras mãos que ultrapassavam o concreto e procuravam pouso em seu seio esquerdo, enquanto trancava a porta do quarto antigo.
 
Quarta-feira, Maio 11, 2005
 
Esse é da Lenise Regina. O de baixo é ainda pensando nesse. E eu gosto de tudo o que essa moça escreve. E tem outras coisas legais dela e de outros no número novo da Revista Etcetera.



menos

Não calava vozes.
Dizia o silêncio. Em silêncio.
Traço. Mantra.
Medo despido de
medo.
De corpo e verbo ainda
letárgicos,
flocos-doces na boca
da criança.
Incômodo sorriso sem remorsos,
de quem também tinha borboletas
no coração.
Tesão apavorado ante o negror do
buraco.
Caberá tudo num só gozo?
 
Terça-feira, Maio 10, 2005
 
Antes


Naquele tempo o silêncio
era mantra
repetido até quando,
circular,
ciranda de gotas de chuva em viagem ao chão.
O silêncio, o chão.
Circulares, infinitos, salgados, temidos
curtidos como couro até perderem o sentido.
E no dito tempo, a mãe dizia:
"O sentido do céu
está embaixo do chão."
No momento rígido em que
a gota beija o chão.
 
Terça-feira, Maio 03, 2005
 
O Dia
Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam o cálcio branco, duro e estridente e fazem doer a mandíbula. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra. No fundo, só sangue trincado nas veias, giros no tronco como se vestisse um espartilho torcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam somados ao calor úmido do fim da tarde. Só a mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece, mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. O sangue torcido em espiral invadindo a garganta. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa. Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica. A água como que salgada cheia de calafrios e águas-vivas queimando os olhos, rondando as sombras, “a água” - ela pensou - “a água permite que eu doa sem contrair os músculos”. “É muito difícil manter todos os músculos relaxados, sabia?”, ela insiste. Vista assim a meia-distância, era como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há”. Como se fosse possível ser implacável, como se houvesse coragem. Não há.

Para a menina sentada a frente dela, nada daquilo parecia inteligível. Os lábios se moviam e a menina se restringia a achar tudo muito bonito: aquela mulher, aquele cheiro, a fivela no cabelo, a paisagem atrás. Não sabia o porque do choro, do sorvete, da tarde fria e suja sobre a calçada portuguesa. Nem porque é que olhava a sua volta com cara de pena enxergando pessoas carregando cansaço e certeza de morte a cada próximo passo sobre a calçada portuguesa. A certa altura desistiu de tentar entender e se distraiu reparando as janelas de um edifício e picando os guardanapos e palitos de dentes. Na menina não havia um grito aterrorizado.
Ela, afinal, era parecida com Laura: chorou um pouquinho, calou-se e dormiu sobre a mesa com gosto de menta morna nos olhos.
Foi quando chegou em casa que Laura pensou, em frente ao espelho, reparando de muito perto alguns aspectos de sua expressão. Laura pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adiantava mesmo pensar. E, se chorasse, logo ela se distrairia com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas. Questões morais não faziam mais sentido e Laura andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado. Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Cada palavra se encarregava de alienar seu sentido diante dos olhos de Laura mas a cada passo ela não caía. Porque pisava, mas não via o chão. “Não sei de nada. Não li o livro”. Estava vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.


O dia seguinte nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul.





















Pelo Meio do Caminho de NuvensLivre como uma água-viva. Havia tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olhava nuvens a cinco metros de distância. Por um tempo, ela foi assim. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando água vivendo água. Não se concentrava. Não lia. Não fazia. Não saía do lugar. Quando se movia era porque o mundo se move, lento como um Titanic e perplexo diante de cada revelação do sol. Não achava as palavras. Não pensava antes de falar. Não olhava nos olhos, não sabia apertar mãos. Não causava boa impressão. Avisava: “não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa”. Temia os versos de sua cabeça. A cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. É mentira a sensação que corre as pernas, a espinha, enche o crânio, ferve a face e fecha os olhos diante da palavra. Não rimo, minto. E na cabeça quase podia enxergar as células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase podia ver a respiração crescer, o corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista levou a obra inteira pra tocar.













Ela sorriu, ela sorriu, ela brincou, ela dançou, pendurou no lustre, rolou, caiu, fugiu. Ah, ela dançou, dançou, dançou e seus braços ocuparam todos os cantos do quarto do hotel. Ela abriu a janela, os braços e dedos começaram a crescer, se enrolaram em cada quina do quarto, debaixo da cama, atrás do lustre. Mas o chão suou, ela deu cambalhotas e rapidamente se viu presa entre a TV, a mesa de anotações, a cama, o armário e o banheiro. Escolheu o banheiro, se trancou no espelho porque dava a sensação de ter pra onde ir, de ter gente pra olhar. Olhou o próprio rosto, achou uma pinta pequenininha no lábio esquerdo, se lembrou do parto, de ver a pinta no lábio do bebê e afirmar: é minha. E não era. Laura é que era daquele bebê. Laura pertencia àquele bebê e só sairia do pé da cama quando ele permitisse. “Quem cala consente”, ela pensou antes de adormecer sobre mármore da pia.


















O sonho

Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes). Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.




















Depois de alguns dias a vida virou tentativa. Para Laura, o momento em que os dedos entravam lentamente nos chinelos de manhã era o mais longo. Durava cerca de duas horas. Os centímetros se arrastavam sob os pés e ela fixava os olhos pra não perder a concentração. Ao meio-dia os pés chegavam aos chinelos. Ao meio dia ela erguia a cabeça e se sentia profundamente cansada. Ao meio-dia havia o barulho do mar doze andares abaixo e depois de evitar a janela Laura se animava.

An attempt to
Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.

O Encontro
A dor do encontro foi definida em corte cirúrgico com um único telefonema, sem resistência, sem perguntas. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. Amanhã, onde a cidade deixou de existir. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetrava pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos mediam 24 anos, os olhos agora são fixos. O ventre vazio. O coração agora é espuma e as bolhas ferventaram e transbordaram dentro do tórax. Laura chegou e avistou o vulto da moça triste na janela. A sombra no muro de chapisco. A moldura entristecia o vulto da moça. Não há motivo, não há moldura, a sombra no muro triste de chapisco. E mesmo a sombra, ela não há. O vulto do muro de chapisco gritado da janela não há tom de azul assim no céu. O muro da moça na janela triste, só há o preceito da tristeza, o muro chora chapisco, receita familiar, implacável. Vontade.
(Pausa. Laura desembrulha o papel azul do bolso e estica sobre a mesa. Câmera no papel, legível)
Só há a pergunta. Calada, Laura sentiu pena da sombra dos próprios cílios na parede e entregou o bilhete em letra caprichada e papel de carta azul.













O Bilhete
“É que eu sonhei com a água, filha. Eu sonhei com o mar revolto. Azul-sombrio e o cheiro de rocha. Era duro como rocha, o meu sonho. Ah, filha, era assim: você abandonava o bebê ao mar. Você o deixava ir e me contava com expressão inocente, de quem desconfia que fez algo de errado. E o bebê era meu, filha, veja, eu sonhei. O nome era Francisco. Você disse que ele quis. E eu procurava por ele no mar. Por toda a baía. Talvez desse tempo. Você havia pintado seus cabelos de azul. Por todo canto e as ondas de azul-petróleo eram cada vez mais sombrias. Filha, a água ia acolher o meu bebê. Ele também era meu filho! E o acolheria tão completamente que ele desejaria afundar. O mar era denso, seu nariz e sua boca estariam travados, ele não iria mais querer respirar. Ele fecharia os olhos e, embrulhado na manta de linha de algodão, afundaria. Você sabe, eu gritei, era meu filho. E eu não quis que você escutasse o grito, menina. Porque você, afinal, também é minha filha! Filha! O menino afundava e todos me consolavam porque eu sou mãe. E eu já temia encontra-lo. Eu não queria ver seu corpo boiando, preferia sonhar que o mar o estava ninando e que o acolhia e escurecia seus olhos como o sono chegando manso em meus braços. Preferia sonhar que ele não sentia frio.”
 
Quinta-feira, Abril 07, 2005
 
Ai que bonito eu achei, do Felipe Fortuna, depois de ler um artigo muito do malumorado sobre os marginais.



Gritos e Sussurros

Alguma coisa em mim é a tua dor.
Com ela eu adoeço; mas não dou
meu corpo à tua dor, senão me perco.
Senão me esqueço de tocá-lo, assim
como a flor sobre o muro esquecido.
E me calo: a dor é o silêncio e o muro.

A dor é o mundo? Mas não a sinto.
E, armado até os dentes,
mordo o mundo, mordo o corpo
por pertencer à minha vida, por estar junto
à minha dor, à dor de todo mundo.
Venha então o meu corpo ou o teu corpo,

pois tanto faz, se a dor é a mesma, gritar sozinho.
 
Terça-feira, Março 08, 2005
 
Dentro da casa, só

Dói, insisto.
Paro, sento, teço a dor
Faço rosas, faço ventos, cubro-me
Tranço linhas confusas e frias.
É por nada
Porque só caminho sobre a brita
Surda leio lábios
Cruzo as pernas com displicência
olho pra baixo.
De pernas trançadas
lanço ventos frios pra uma trama piniquenta.
Depois retorço as mãos segurando a colcha em direção
ao seio. Sonho lutas que não se acabam.
Não sou eu. Apenas faço votos de felicidade sob a colcha.
E assim, quando algo me aplaca deixo pela metade.
Paro, sento, teço a dor e o
tecido não me cobre.
Minto a idade,
O vento do tempo me revela.
 
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
 
Você me cobre o frio? A mudez? O calor? Você me cobre o rosto? Você me cobre os olhos? E se for mesmo bonita a falta? Você me cobre o vento? O dorso? O volume, o império? Você vem com flores? E eu deito um pedido branco-eterno, uma espera inconformada, uma esperança insatisfeita sob tecido em forma de noite. Eterna. Muda.
 
Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
 
É que eu ando tão depressa... E se o tempo quebrar? E se o céu partir o tempo, o vento for comprido? Vão saber costurar? Vai ter corda pra prender? Vai ter gente pra puxar?
Ainda saio da covarde corrente do sal, discordo do mar. Ainda tento ser maior que o pai e saber que costuro cacos se o tempo quebrar.Talvez aprenda valentia e não precise coser, não haja louça, não haja passo. Talvez eu consiga haver só o tempo. Batendo. Em silêncio.
 
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
 
O vento novo carrega a areia, o tempo, tijolo e pedra
Deixa o sol pra trás
Varre o corpo, a criança, o mar
O vento novo traz a tarde, sopra os olhos, salga a nuca
E deixa delicada a noite pequena, a maré cheia, o céu de brigadeiro
Depois suspira
e só desfalece.
que tem cargo vitalício
e não morre nunca.
 
Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
 
O livro


Havia de encontar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto :
outonos e invernos
esquecidos
entre páginas amarelas
e a dor,
essa traça inútil.


Micheliny Verunschk
 
 
E eu ganhei uma menção honrorosa na bienal dos piores poemas. Recriei Frank O´hara. Olha que m.:



Thinking of James Dean

For a young actor I am begging
peace, gods. Alone
in the empty streets of New York
I am its dirty feet and head
and he is dead

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Pense em outra coisa

Peço paz a James Dean
O que espero?
Ruas vazias em Nova Iorque?
Um atentado sobre minha cabeça suja.
Ora, James Dean está morto!
 
Quarta-feira, Dezembro 15, 2004
 
Meu poema de natal

Branca. Muito branca a pele da nuvem. É sobre ela que o sol se espalha quando é verão. É da nuvem - que entre trôpegos acentos avança para reerguer sua alegria - que emergem pés brincando de bailarina e submergem faces enrugadas de olhos fechados. É assim que se prepara a cambalhota do tempo, da intenção, da bondade, do futuro; pra que a nuvem espalhe seus traços e aplaque qualquer caldalosa angústia com sua espuma etérea, branca, cheirosa.
 
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
 
Ainda não dormi. É que a gente não fica de bem e aí não conversa. Aí não dorme aí tenta dormir. E não dorme. Mas uma hora dorme, é a minha esperança. Primeiro franze a testa, tem vontade de chorar mas não consegue. Primeiro é assim, cheio de raiva. Depois só sente a falta do abraço de ninar, da cantiga de ventilador-velho da respiração no ouvido da gente. Tem medo de tudo, levanta da cama, vai pra sala, acende a luz e espera pelo resgate. Mas você não é disso. Cansa mas aí volta pra cama e você ronca... E é como que impossível dormir e mesmo que eu tente fazer as pazes não tem jeito e você não me consola do peso do dia de amanhã e não me beija e eu não me esqueço. Penso nos compromissos, nos emails, na agenda, nos textos, tenho raiva. Só então é que tem jeito de chorar de verdade. A vida pesa, dizem que é carma, eu acredito. O fato é que o resgate não chega e eu de luz acesa sentada no sofá. É que se for pra cama vou esperar a todo momento a sua mão no meu ombro. Só saiba que, quando você me abraçar de novo, eu vou estar muito brava.
 
Terça-feira, Novembro 23, 2004
 
Frescor de noite barata, de ceia de rua, de credo rezado a dois. Inveja matou meus calos, trombou o fusca da esquina no tênis e baratas moravam nas frestas. Você protegia meus entrededos. É de quando meu leite derramava e você sorvia sorrindo, tanto quanto é possível. Uma poça de dias não-passados pingava debaixo do asfalto mas nós não sabíamos. O medo é meu substantivo recorrente, de presença tão certa quanto o assento flutuante do avião. Inveja antiga me cutuca, refresca a memória, o leite dela respinga e uma gota atinge meus olhos. Sinto sabor.
 
Segunda-feira, Novembro 01, 2004
 
Tenho linhas nas mãos, elas caminham como vermes pelo meu corpo. Sentidos partidos me tiram conclusões débeis enquanto tomo a xícara de café muito forte e troco as letras do alfabeto. O tapa olho persegue a mira do meu olhar mas é mais ágil que eu. Eu suo. Faço votos de que termine tudo bem e a esperança é patética. Densa. Corruptora. Eu me entrego ao consolo porque no fim de toda a coisa me descubro fraca, fraca, fraca. Frágil. A certeza quebra junto com o salto da sandália que me encomprida as pernas. São bonitas e eu preferia estar sobre elas. Você me segura pelo braço, machuca. Deixa um vergão vermelho quando seus dedos escorregam. Planejo as próximas férias. Eu não caio porque do chão não passo.
 
Segunda-feira, Outubro 25, 2004
 
Memory dials
primeiro discado
"é verso antigo"
diz o recado
é noite branca
é fada fresca
sonho partido
gesso trincado.
E suas mãos me enchem de úmida espera.
 
Sexta-feira, Outubro 08, 2004
 
Os meninos andam em círculos pelas árvores. Têm faces sardentas, mãos rudes, olhos intactos, pênis delicados. Suspiram ares salgados e portas fechadas. Encontram o vento, levam presentes. Entoam o coro: "então nós vencemos, o perdido vive sob o mar, somos vento. Então, meu amor, feche os olhos". O vento se cala enlutado em choramingo contínuo, semitonado, imperceptível.
 
Quinta-feira, Setembro 30, 2004
 
Meu barco segue seu enredo, querido. Suas veias, seu teto, sua saliva. Irei sempre te estender a mão querendo ajuda, não porque eu possa te salvar. Minhas costas eretas sempre seguram seus cabelos. Além disso fazia frio, na ilha e eu não queria estar lá. Você me busca? Você me encontra? Você consegue encontrar a ilha fria no meio do mar? Você segura a minha mão quando o lençol afundar?
 
Quarta-feira, Setembro 29, 2004
 
Espere o calor passar,
o sono ventar.
A senha é
sede
seda
servo
senso
silva
salmo
sonho
sol
Espalme a mão esquerda sobre a minha barriga esticada sobre a cama.
 
Quinta-feira, Setembro 23, 2004
 
Corrigindo: a Micheliny não ganhou ainda, é "só" uma das dez finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
 
 
A libélula chega dançando mansa sobre a piscina. Ameaça o equilibrio do corpo que bóia de maiô preto. A libélula se aproxima, salpica a água, contorna a moça, começa pelos pés. Joelho, quadril, cintura, ombros. Chega ao ouvido, se demora mais um instante, sussurra dois saltinhos. Oferece mais um e a moça consente com a cabeça. Na testa e a moça se desequilibra, balança, entorna duas gotas, encontra o chão com os pés - perde o jogo.

 
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
 
Olha, que bonito! É daquela moça que ganhou o prêmio, Micheliny Verunschk (ô diabo de nome difícil).

Segredo de camarinha

Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.


Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.


Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.


Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.


(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)


Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.

 
Segunda-feira, Setembro 06, 2004
 
"(...) a cada momento, tudo se perde." (caio fernando e a sensação do dia)
 
Terça-feira, Agosto 31, 2004
 
Ardiam os olhos e as solas dos pés da moça da estrada. A estrada era plana, ainda bem. O sol rachava, mas brotavam olhos d´água fresca pelos barrancos. Enfim, havia um certo alívio na terra vermelha. Os pés ardidos agradeciam quando a lama abraça os dedos. A moça parava algumas vezes, para olhar os feixes de lama emergindo entre seus dedos. Outras vezes deslizava e se desequilibrava. E pensava que é muito bom que, quando o sol está assim tão forte, existam olhos d´água brotando dos barrancos. Até que teve um pedaço da terra molhada em que ela deu de pisar, e se apoiou com o calcanhar, e o outro pé patinou e caiu toda a roupa no chão. A saia ficou molhada, as mãos cheias de lama. A moça pensou em chorar, pensou em abrir os olhos, pensou em se levantar depressa, pensou em sentir calor. Mas então ela se arrastou para a margem da estrada, como se não pudesse mais se levantar, se recostou na terra do barranco e deixou a água barrenta rolar sobre a testa, o nariz, a boca, o queixo e o pescoço. A moça deu um grito. Um grito de fonema aberto, um “á” interminável até esvaziar o ar dos pulmões. Era muito mais. Era tanto mais que não havia o que dizer, que não havia tempo pra chorar, era só o deleite. Só o deleite silencioso da lama cobrindo o rosto da moça, escorrendo pela barriga, por entre as pernas, pela coxa. Foi o deleite de não sentir mais que ela era feita de ar empoeirado por dentro, de se ver livre da tosse, de sentir a matéria úmida e densa da lama nas entranhas, de sentir seu corpo todo preenchido como se gozasse fundo e rouco sob a lama. A moça percebeu que era tão feita de terra molhada quanto uma minhoca. Podia comer terra. E que o ar seco e a poeira vermelha que a invadiu pela boca e narinas quando ainda era menina, na beira da estrada, agora a abandonariam para sempre.
 
Quinta-feira, Agosto 26, 2004
 
Namorim

Sinta o beijo
Da lua:
Sou eu, sua.
 
Segunda-feira, Agosto 23, 2004
 
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

Paulo Leminski
 
Sexta-feira, Agosto 20, 2004
 
logo depois da cerca de ficus há o portão. Branco e retorcido em formas redondas que lembram flores. Abrindo o portão, avista-se a porta de madeira, meio metro depois. Depois da porta; Ah, depois da porta é o mundo. É uma fotografia em grande-angular, uma chuva caindo mansa e exércitos de formigas carregando flores. É uma sinfonia grandiosa, são os cabelos da bailarina se soltando no meio do rodopio, as sapatilhas caindo pesadas sobre palcos de madeira. É uma fruta, uma firula, um furto de goiaba, um tédio. No centro, ao fundo, há um bebê de ventre aberto. Um grande corte vai do peito ao umbigo do menino, que é muito negro e ri sossegado. Seu corpo pulsa e permanece aberto e indolor. O menino está envolto em ar perfumado, não sente fome, nem frio nem dor. Nada incomada o menino, embora ele não possa ser tocado. Nada faz com que ele respire, nada perde o movimento lento de sua boca, nada o ignora. Ele não chega a nenhuma conclusão e é sábio o suficiente pra permanecer na falta de desejos. Ele não precisa. O menino não tem dentes. O menino é só um meio sorriso insistente de lábios doces de mais. E a medida que é observado mais e mais de perto, mais e mais longamente, ele se torna cínico, irônico, imoral, insuportável. Não se move mas do alto de sua satisfação emite sensações de medo, dor e uma doçura amedrontadora na lingua. Não toque-o. Ele irá persegui-lo a vida toda.
 
Terça-feira, Julho 06, 2004
 
Momento Malu no teço-teco balançante indo em direção a uma enorme nuvem negra entre Salvador e Morro de São Paulo:

Ela: Mãe, aquilo ali é Salvador?
Eu: É.
Ela: E aquilo lááá longe, é Belo Horizonte?
Eu: não, filha, é Itaparica.
Ela: e cadê Belo Horizonte, mãe?
Eu: Iihh... Ta tão longe que não dá nem pra ver.
Ela: ahn... (pensando)
Ela: mãe?
Eu: quê?
Ela: o mundo é bem maior do que eu pensava.
 
 
Momento Carrie Bradshaw da Malu

Ela, olhando pro meu pé: E esse sapato novo, heim!
Eu (de plataforma): Pois é, você viu? Bonito, né?
Ela: lindo... Você me empresta?
Eu: não cabe, né.
Ela: mas quando o meu pé for do tamanho do seu você me dá TODOS os seus sapatos? Porque não vai mesmo caber no seu pé, né. Ele já vai estar deeeste tamanho...
Eu: não, filha, o meu pé não cresce mais.
Ela: mas você vai estar velha, não vai usar sapato de “nova”...


 
Sexta-feira, Junho 25, 2004
 
Ela vivia um amor de mãos atadas. Um amor sem abraços, alguns beijos e muito sexo. Ela vivia um amor assim, meio seco e encarava aquela fisionomia com cara de interrogação. Como assim? Não era como ela conhecia o amor. E apesar de estar convencida de que era um graaande amor, duvidava de tanto olhar. Procurava nas sombras de seu rosto irregular a face fresca e aveludada. Vez em quando perguntava: é você mesmo? Ele concordava balançando a cabeça. Continuava de sobretudo preto e braços cruzados. Atados na postura militar como se fossem ordens superiores. O amor não se movia. E, quanto mais ela olhava, mais duvidava. Rodeava, fazia cócega, soprava o ouvido. Ele permanecia imóvel. Em silêncio. Não o silêncio denso entre o amor e o amante. Só um silêncio. Quando ela ameaçava ir embora ele tossia. E ela voltava a olhá-lo nos olhos. Ou então ele tirava uma das mãos duras do sovaco e encaixava no queixo-maxilar-orelha-nuca dela. E era tão quente a mão que ela fechava os olhos e conseguia enxergar o amor. Mas ela vivia muito o amor de mão atadas. E quando ele parava de se dedicar a ludibria-la, ela percebia que não tinha o que fazer com aquele armário de sobre-tudo preto. Se guardava na geladeira pra não perder, se tirava do meio do caminho, se o abraçava sozinha, se sorria pra ele. E pra que serve um amor de sobretudo? Onde é que se coloca? Como é que se conserva, o que se dá de comer? Ele precisa dormir? Ele vai à escola? De toda forma, não podia se livrar. Ela estava líquida de amor e escorria a volta dele formando uma pequena poça leitosa na taboa corrida.
Ele ficou muito tempo por lá. Meses, mais de ano. Ela chegava de noite do trabalho, dava um beijo no rosto, tomava banho e ia dormir. De manhã comentava alguma coisa do trabalho enquanto tomava café e saía. E era assim todos os dias. Ela não engravidou sem planejar. Ele envelheceu mais rápido. Enfim, eram um casal. E havia uma certa química entre eles que só era interrompida pelas duvidas a respeito da idoneidade do rapaz. Ela não dizia mais nada. Só murmurava “você vai ter que mudar” pra não ter que discutir o relacionamento e espernear de novo. Ela sabia, ele não mudou. E assentiria com a cabeça eternamente se ela perguntasse “você é mesmo o amor?”. “Você é mesmo assim?” “Eu te amo.”


(continua)
 
Terça-feira, Junho 01, 2004
 
É o primeiro dia de junho do ano 2004 a contar do nascimento de Jesus cristo. Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam umas contra as outras as células repletas de cálcio branco, duro e estridente. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra, dada a força de tudo o que ela tinha a dizer. No fundo, banalidades de sangue trincado nas veias, giros no tronco feito espartilho retorcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam, somados ao calor úmido do fim da tarde. Na verdade eram as banalidades da mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa.Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica como que mortos. Como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há.” Laura falava como se fosse eu implacável, como se houvesse coragem. Não há.
 
Quinta-feira, Maio 27, 2004
 
Fragmentos necessários I - Já é amor


Aí já é o amor. Você finge não saber, mas aí já é. O pensamento não cria outras formas além do seu caminhar, a maneira como prende os cabelos, suas opiniões sobre filmes que falam do amor assim como dito aqui. Entende? Você não pode negar que é amor, mesmo que ache outras palavras para apontar como esse sentimento usa roupas maltrapilhas. Minha querida, antes que sua boca termine o contorno de uma difamação, o amor troca de roupas e se oferece com o frescor de rara manhã de céu aberto. Portanto, abaixe essa armadura, destranque o sorriso e se for beber, que ao menos nos entrelacemos na possível busca de novos prazeres.

(do Walrus)
 
Segunda-feira, Maio 24, 2004
 
Mordo meu peito feito maçã. O suco espirra a um metro e vinte, não prego os olhos.Você mastiga. Só pisco. Você pega a toalha e vai pro chuveiro colher maçãs.
 
Quarta-feira, Maio 05, 2004
 
Natureza Morta

Cinco. Abdominal Class, ovos mexidos, garrafa plástica. Suculenta, Montesquieu, 126-240. Papel. Cartão de visita, meus documentos, fine line pen. Ponto final. Sete pontos. Ao vivo. “Você quer?” Quero. Sigo cega sono afora, trancada pelas costas, rendida pelo cansaço dez metros por segundo ao quadrado, farta, até o chão.
 
Terça-feira, Maio 04, 2004
 
Seu entorno espontâneo tênue névoa rosa-pele pigmenta o papel fotográfico. Nos meus olhos, a luz sorteia contornos e páupebras e borboletas e as veias rudes da sua mão. Meu corpo enquadra seus olhos. Não sou paciente. Não desconfio. Minhas palavras são sempre não.
 
Segunda-feira, Abril 26, 2004
 
O dia nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul. A dimensão da dor foi definida em corte cirúrgico. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetra pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos medem 24 anos, os olhos agora são fixos.
 
 
O homem dos livros põe de lado o almanaque. Não se engane, ele não lê. Só enxerga de longe pretensos poetas – os óculos são para perto. O homem dos livros tem barba e estantes. Pilhas nas mesas, cadeiras e no chão. Faz promoções de letras usadas, tratadas, amarelas e relegadas aos pés-de-página. O homem dos livros conhece a força das letras encorpando uma onda. A maior da lua, a que tem a arrebentação mais bonita, a de água morna, a que pensa que vai partir a rocha. Os óculos são para ver de perto o azul-petróleo denso do mar de palavras formando a onda mais espessa. E é ele quem permanece de pé para ver a última espuma se desmanchar e guarda em segredo que é esse o deleite do poema.
 
Segunda-feira, Abril 12, 2004
 
Olás, se é que ainda tem alguém aqui. Estou perdida em Salvador. Algum soteropolitano por aqui? Mande email, deixe comentário, please! Espero dicas de programas para uma Belo Horizontina já com saudade de casa.
 
Quarta-feira, Março 24, 2004
 
Foi aí que Luiza pensou, com seus botões, em frente ao espelho, reparando de perto muito perto alguns aspectos de sua expressão. Luiza pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adianta mesmo pensar. A bezerra morreu, o leite derramou e, se Luiza chora, logo já se distrai com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas.
Então ela não pensa, chora um pouquinho, se cala e vai dormir com gosto de menta morna nos olhos.
 
Terça-feira, Março 23, 2004
 
Há 11 meses

-----Mensagem original-----
Enviada em: terça-feira, 23 de março de 2004 17:33
Assunto: RES: sonhos, sonhos são

eh... tá com cabelo preso pra cima, tá com um sorriso bem bobo por dentro
mas um quase sorriso por fora, porque tem que disfarçar. Tá com expressão de
suspiro, olhando longe. Projetada na testa está a cena do encerramento do
Comida di Buteco com você me apertando até me deixar sem ar e me pedindo
desculpa por estar Meloso. Caetano Meloso. E eu rindo, rindo da piada. E eu
me sentindo feito uma coisa de pelúcia no meio de toda a "gente bonita" e da
"festa bombando", achando que tava todo mundo olhando pra gente e pensando
porque aquele rapaz ficava apertando aquele urso azul. Atenção especial à
legenda "eu te amo, você sabe" em times do email de hoje cedo.
 
Quarta-feira, Março 17, 2004
 
Mulherzinha


Continuo tentando escolher suas palavras à dedo. Planejo colocá-las em papel azul-claro, fazer eu mesma uma moldura de flores coloridas, caprichar na letra e pregar na parede do quarto do Drummond (será que ele vai dormir lá?).
Cada vez que te olho, encontro seus olhos e me assusto, tenho medo de estragar coisas, trocar os pés pelas mãos, vestir a camiseta “DRAMA” e foder as coisas. Eu me conheço e não quero isso pra mim.
Dessa vez vou cuidar bem, parar minha cabeça no ar quando vier a queda livre.
Um dia eu acho as palavras pra você. Prometo não cansar de procurar. Vai ser alguma coisa com MANHÃ, ALGODÃO 200 FIOS, BANHO DE MAR EM RIO DE JANEIRO COM CHUVA, LEVE, INESCAPÁVEL E FELICIDADE.
Por enquanto, espero que essas te beijem o coração, pra eu poder deitar no seu peito de novo e ouvir barulho de onda sossegada em mar fresco-quase-morno.



Salete Goldfinger



Seus olhos furtados no trânsito
o bejio não acabou
quando o sinal abril
fechou
o sinal abril, veja: verde
sobre a lataria
em energia elétrica,
aço empoeirado
e vidro. Verde.
Amo a hora de te deixar na cama
de ver a distância o seu amor
de ser torrente de ternura em olhos
e um beijo no rosto.
 
 
A mágoa parecia transbordar o crânio e encher os olhos, o peito. Assim, tomada do líquido aquoso e rosado da mágoa, Luiza já não dizia coisa com coisa e só queria ficar alegre de novo pra poder dormir. Questões morais não faziam mais sentido mas Luiza andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado.
 
 
Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Luiza vence o vento e avança. Segura os cabelos e continua. Enfrenta a areia e segue. A cada passo ela não cai. Porque pisa mas não vê o chão.
 
Quarta-feira, Março 10, 2004
 
por 26 de fevereiro:

a vontade é tanta que perde o alvo
a vontade é flecha que goza no ar
a vontade não quer gozar
a vontade é mantra repetida em si mesma
espalhada a esmo, barata tonta
a vontade é alienada
é alegria entrincheirada
infértil
quando atinge o alvo
a vontade é tanta
tanta
a vontade é tanta lama, casca, caule, folha, flor
é esparramada no deleite de correr
correr correr
 
 
O ventre vazio. Meu coração foi transmutado em espuma e agora bolhas ferventam e transbordam dentro do tórax. Calada, eu sinto pena da sombra dos meus cílios na parede.
 
 
É só que hoje me deu uma saudade muito grande do cheiro do ar quando alguma coisa boa vai acontecer.


Acaso e Caos

E alguém sabe porque é
Que dia desses
Sem menos
Sem tempo
O show não deu pé
A cerveja acabou
E a gente foi parar naquele beijo?
 
Sexta-feira, Março 05, 2004
 
o vulto da moça triste na janela
A sombra no muro de chapisco
a moldura entristece o vulto da moça
não há motivo, não há moldura
a sombra no muro triste de chapisco
e mesmo a sombra, ela não há.
o vulto do muro de chapisco gritado da janela
não há tom de azul assim no céu
o muro da moça na janela triste
só há o preceito da tristeza
o muro chora chapisco
a receita familiar
o implacável
a vontade
só há a pergunta
 
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
 
Mil coisas. Outra casa, outro tempo, outra versão. Bem, está dito o essencial: não aceito unhas cortadas junto com casca de banana podre na esquadria da janela. Calma, quem está na chuva é pra se molhar. Retiro o dito, apenas olhe a expressão das minhas mãos na beirada do sofá. Repito. Não sei pra quando. Prazo prorrogado indefinidamente até que tudo se acerte, até que o mundo se deite e eu tenha sossego e fume e tenha cigarro e uma varanda sem parede mofada.
 
 
"Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."


(Drummond)
 
 
Paulo Tatit:

Quer saber porque que eu estou cansado?
Cada vez que eu começo a pensar
Me vem tudo de vez
E eu não penso mais nada

Qeur saber como é que eu penso?
Quer saber porque que eu estou cansado?
Cada vez que eu começo a pensar
Me vem tudo de vez
E eu não penso mais nada

Eu vou pensar um assunto, certo?
Um assunto que eu escolho, é claro
Então eu faço força, força, força

E olha o que aocntece!
Não adianta ter cabeça
Ela pensa o que quer...

Pára, cabeça
Assim você me enlouquece
Não cansa você?

Minha cabeça me ajude
Pense tudo tudo com calma
Não se exalte
Nunca te vi tão possuída, nunca!
Você é danada, é mágica

Concentra, reflete
Inverte um pouco o raciocínio
Nem que dê no mesmo ponto
Enfim, você é livre
É livre mas não de mim
 
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004
 
"agora vou para casa
estou aguando o parque para a Violetera
nutrindo o preto e o branco de teu amor"
(Frank O´hara)
 
Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
 
Ela: Mãe...
Ela: É....
Ela:Eu queria te falar uma coisa.....
Eu: Fala.
Ela: é....
Ela: é que lembra, que você falou, pra te ligar pra combinar as coisas
(dia desses ela estava almoçando, atrasada, de uniforme e de repente me contou que não tinha tomado banho. O detalhe é que ela tinha feito xixi na cama. Aí a empregada disse que ela não queria tomar banho e pronto. Ficou por isso mesmo. A menina de 5 anos mandando no adulto que era, supostamente, pra estar tomando conta dela. Lógico que eu dei um piti e disse que ela tinha que fazer isso, isso e aquilo, naqueles horários e que qualquer coisa diferente ela tinha que me ligar.)
Eu: Lembro, filha, então combina.
Ela: É que eu nem fiz xixi na cama.
Eu: hã
Ela: e de noite meu pai vai me dar banho.
Eu: hã
Ela: e eu vou falar pra ele dar uma faxina em mim.
Eu: hã
Ela: Eu posso ir pra escola sem tomar banho?
Eu: Pode.
Ela: eba! Mãe, você é a melhor mãe que eu já tive!
 
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
 
"E sendo água, amor, querer ser terra."
 
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
 
E a Hilda Hilst morreu. E o Arthur Xexéu disse que ela se popularizou com livros de auto-ajuda. Alguém me explica isso?
 
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
 
Não quero nunca mais cantar essa porra de música de dor de cotovelo. Não quero nem lembrar da minha voz chorosa e do travesseiro molhado porque não quero mais essa merda de não dar certo. Vai dar pé. Quero nem saber, vai sim. Quero nem ver. E você não me venha com conversa mole. E não venha mesmo. Só venha se for pra abusar, sempre. Se for pra dar certo. E não venha com essa de aceitar meu cu doce. O cu eu não dou, você sabe. Então larga o mel, esquece o fel, ligue o foda-se, deite e role na lama em que nos afundamos. Sorria comigo essa lama e me deixe pensar que é sempre, sem saber o que é sempre. Sempre, meu bem, sempre. Minha mão é da sua. E é com você que vão dar certo todas as minhas crenças piegas sobre o amor. Eu sei, eu sei, e não diga que eu não sei. Não diga que o poema é feio, que o lugar é comum, que a palavra é melosa, que cor-de-rosa não se usa. Não se usa pra sempre e eu não quero nem saber de aqui é Terra do Nunca proque pra mim é sempre. Sempre.
 
Terça-feira, Janeiro 27, 2004
 
Quando, querido,
Quando
Você pousa
Palavras feias
Pesa a mão
Estala o quadril
Ah, querido,
Quando
O escuro é forte
E você prende
A luz acesa
O dorso pequeno
Em palavras fluidas
E sorriso doce
Torpe
Feito sombra de
Luz da rua
Então,
 
Segunda-feira, Janeiro 26, 2004
 
Busco um papel, a gaveta, a pilha, migalhas de celulose, grafite, tampa de caneta. resquício de coisas enfurnadas há mais de dois anos. Música bilhete revista cerâmica moldada dois. A gaveta exala cheiro de clausura de certos objetos indevidos. A poeira de desejos não realizados entra pelas narinas, não deve-se olhar. Recuso, é verdade, o pouco e o fracasso. Engasgo. Poeira de desejo intoxica. Onde está o bronco-dilatador? Onde está? Um, dois, três. Um, dois, três. Onde está? Um, dois, três. Respire a minha boca. Um, dois, três. Até afogar.
 
Terça-feira, Janeiro 20, 2004
 
merda. crédito. conforto. dois quartos. carro. trabalho. asfalto. medo. gato. cheiro. força. tédio. palavra. chuva. hora. porra nenhuma. gordura. tijolo. concreto. teclado. cão. poste. força. credo. leite. cinto. cruz. pé. força. cartão. verão. centro. força. muito. tênis. fora. espera. correio. mão. força. barriga. gesto. carvão. suor. força. trilho. vento. corretivo. corda. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo. vida. vento. força. tempo.vida. vento. força.
 
Sábado, Janeiro 17, 2004
 
todas as dores mal-transbordando, mal-sentidas, mal, paradas na garganta, abaixo do gog?. Ficcionais? Fantasiadas? Vestidas de bailarina. S? na ponta do dedo esfolado sobre o qual ela gira, a dor.
 
 
ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sangüinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(Cruz e Souza)
 
Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
 
An attempt to

Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.
 
 
De 13 de janeiro

A senhora de cóqui no cabelo
a casa
o jardim imenso
ela caminhava.
Tão só que venci
a timidez e a
ofereci meu telefone.
Pra se precisasse.
Então ela recusou: tenho 11 filhos.
 
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
 
Esquisito. Dearest me deu um cd muito bacana na última visita, do Red Hot Rio. (o melhor é que no fim de ano nós trocamos os presentes que compramos uma pra outro para a visita do carnaval. Aí saíamos juntas e esquecíamos os presentes. A ONG continua firme e forte, né Dear?) Mas eu fiquei com a música mais esquisita na cabeça. “Eu preciso dizer que te amo”, o Cazuza com uma voz bem bicha dando piti no estúdio, violão e a voz da Bebel Gilberto. E eu admito que gostei, apesar de não gostar do Cazuza. Também admito que gosto de algumas coisas do Cazuza. Daqui a pouco vem a Póla me xingar. Mas tem a ver com a minha ansiedade, “eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano”. Tipo “ou vai ou racha” mas dúvida eu não agüento. Nem as que eu invento.

Preciso Dizer Que Te Amo
(Bebel Gilberto, Dé e Cazuza)
Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo (que medo...)
Eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo, tanto
E até o tempo passa arrastado
Só para eu ficar ao teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre, e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo (que amigo!)
Que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Que eu preciso dizer que eu te amo, tanto



Em tempo: O gosto musical da Savrina não é "duvidoso"
 
Terça-feira, Janeiro 13, 2004
 
Cheiro de noite e foligem.
 
 
Existe um capítulo seu. De como e queria o mundo certo pra você. De como eu me queria certa pra você. Mas não sou. Só espero que me desculpe dessas coisas. Conjunturas, como diz o incompetente. Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.
 
 
Aviso: voltei, mas estou em crise.
Também, estou cheia de Ana C., de rua Tonelero, de Rio de Janeiro com chuva. Á vontade de abrir os braços e sentir frio.

Aviso 2: abandonei o blog porque estava de férias, nem voltei pro pantanal, Lara. Só enchi o saco desse negócio. Mas agora eu acho que desenchi. Vamos ver.
 
Sexta-feira, Novembro 28, 2003
 
Ganhei até poesia do meu Atirador. Não sei se ele sabe como eu fiquei feliz. Não sei se tem idéia de como me deixa feliz. Mas deixa.

Calo Amor


O amor sempre foi como um calo pra mim:
me incomodava, mas me lembrava
que eu estava vivo.
Quando o encontrei,
fiquei como estou agora - sem palavras
Percebendo meu medo de não estar à altura
de seu merecimento,
ele sorriu,
fechou meus olhos,
e me deu um beijo,
de suavidade e relaxamento.
 
Segunda-feira, Novembro 24, 2003
 
Tangerina. O poema da palavra ácida invade os ouvidos da moça. E ele repete, “tangerina”, reparando o rosto dela enquanto ouve a sílaba “ri”. Para ele é a penúltima sílaba que faz tangerina ser tão ácida. Tão laranja o tal “i” que invade a boca enquanto arrebentam os minúsculos gominhos da popa. “Tangerina”, ele insiste, ela levanta as sobrancelhas e aperta os olhos, enquanto a língua fresca lhe invade o ouvido.
 
Quarta-feira, Novembro 19, 2003
 
Todos os suspiros a seu lado, um por um, você ignora. Amor, raiva, cansaço. Você não sabe e eu não escondo. Você dorme. Ignora também a ausência da minha mão. Olha, não quero conversa. Olha. Não se nega um gesto. O gesto não volta atrás. Não escuto meu sono quando é volta.
 
 
Derradeiro suspiro de amor acabado em bits, ofensa, palavrão, abreaspas, versão amigável para impressora. F5. Nada. E nada.
 
 
último romance

eu encontrei
quando não quis
mais procurar
o meu amor

e quanto levou
foi pr'eu merecer
antes um mês
e eu ja não sei...

e até quem me vê
lendo o jornal
na fila do pão
sabe que eu te encontrei

e ninguém dirá
que é tarde demais,
que é tão diferente assim
o nosso amor
a gente é que sabe

me diz o que é o sufoco
que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o caso for de ir à praia
eu levo essa casa numa sacola!

eu encontrei
e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser

você me falou
pr'eu não me preocupar
ter fé e ver
coragem no amor

e só de ter ver
eu penso em trocar
a minha tv
num jeito de te levar...

a qualquer lugar
que você queira
e ir onde o vento for,
que pra nós dois
sair de casa já é se aventurar

me diz o que é o sossego
que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o tempo for te levar
eu sigo essa hora
e pego carona
pra te acompanhar
 
Quinta-feira, Novembro 13, 2003
 
Temo os versos da minha cabeça, não penso. Minha cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. Mentira o orgasmo. É mentira a sensação que me corre as pernas, a espinha, me enche o crânio, me ferve a face e me fecha os olhos diante da sua palavra. Não rimo, minto.
 
Segunda-feira, Novembro 10, 2003
 
O corpo do poema desenhado em meu corpo, extendido, sunbathing sobre a minha anca esquerda. Não sei se esqueço o corpo do seu poema. O poema em branco lambendo-me a espinha. O poema claro como a luz da TV. Sem som. O tempo, da janela, solto e cheiroso.
 
Sexta-feira, Novembro 07, 2003
 
Quase posso enxergar suas células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase posso ver sua respiração crescer, seu corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista demorou a obra inteira pra tocar. Mais que tudo, mais que amo, minha pequena menina.
 
 
E abusei da minha desculpa preferida "Desculpa, mas eu estava no Pantanal".

"Você não devolveu o filme da locadora que roubaram no carro."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

"Você não respondeu o email que eu mandei há uma semana."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

"Você nunca mais escreveu no Blog."
"Desculpe, eu estava no Pantanal"

e etc, etc, etc.
 
 
Sou uma moça viajada. "Conheci" Pantanal, Salvador, Campo Grande, Recife, São Luiz e Anajatuba. Se mais alguém falar "nossa, que sorte, queria um emprego assim", eu mato. Juro que mato.
 
Sábado, Outubro 25, 2003
 




 
 
Torquato

“(...)eu pensava: eu te amo. Eu não podia dizer nada disso, só que eu não podia nem posso explicar minha vida, o meu amor, senão através de sua própria minha própria prática, como se diz, caminho, como se diz, traço, destino, como se diz, como se diz: tese, filme, estilo, caráter, ideal de relacionamento, antítese, tese, amizade, ódio, ternura – ‘como se diz’ – posso dizer e explicar isso tudo mas não explico nada com isso, o mistério sou eu muito simples e ainda por cima tentando explicar e pedindo, finalmente, desculpa.(...)”

 
 
“Seu corpo é o meu descanso, Ana.”
 
 
Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes)
 
 
O sonho
Eu fazia sonhos com Tereza, pra você. Mas fazia errado. Enrolava os bolinhos, eles cresciam um pouco, ressecavam. Aí eu me lembrava que tinha de por queijo, apesar de desconfiar que eles eram doces. Aí abria-os com a unha e colocava pedacinhos de queijo. Havia menos queijo que o suficiente.
 
 
19 de outubro
O tempo e você não chega. Leio você e você não vem. Ouço barulhos de você chegando. Vou chorar pra ir embora. Sou assim. Tenho saudade, faço carinho e temo o fim. Vejo outros beijos. Olho pra porta muitas vezes. Sofro à toa. O que eu faço? Preciso. A jogada aérea. Perdi uma hora. Considerou. Intenção. Tiro direto. Seis meses. Amor se mede pela entrega. Sabe o que eu quero mesmo? Que você chegue e me beije muito. Minutos contados à caneta. Páginas. Nada que preste nesse caderno, ou nessa tarde, como de costume. Melhores momentos. Pra você. Meu anjo me guarda.
 
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
 
-----Mensagem original-----
De: Ana H. [mailto:ateuspes@hotmail.com]
Enviada em: sábado, 18 de outubro de 2003 15:24
Para: Imprensa
Assunto: bom dia


Vou te dar um poema,
Preste atenção.
È um poema pra você
Então leia devagar
Palavra a palavra,
Sabendo que cada uma
Escolhi a dedo
Pra você ler
Saiba que são suas
E têm boas intenções.
Depois leia depressa
Encontre o ritmo da minha respiração
No momento da escritura
Veja com qual aflição
Fiz pensar o poema
Fiz dizer o poema
E ele disse.
Faça com que ele diga.
Preste atenção,
Que é seu o poema,
Não o deixe falar sozinho
Não me responda qualquer coisa
Não ignore
É seu o poema.
Love,
Yours.
 
Sexta-feira, Outubro 17, 2003
 
Olha que coisa, do Mário Prata, no Estadão, em 95.


O Caio F. (Fernando Abreu) sempre me faz lembrar a Ana C. (Cristina Cesar). Sempre. Encontrei-me com ele na semana passada numa boate absurdamente gay (A Louca) e me lembrei da Ana. Da Ana, do verão de 82. Não sei se falamos sobre ela entre uma música e outra da Laura Finokiaro. Mas que ela estava presente, estava.

No domingo, duas divinas páginas do Caio sobre ela, aqui no Estadão. Cartas dela para ele. 82, 83. Só que o Caio se esqueceu de me citar nos encontros aqui em São Paulo com a Maria Emília Bender, o Reinaldo Moraes (aliás, como perguntou Ricardo Soares, ninguém vai reeditar o desconcertante e vagabundo Tanto Faz?), ele e ela. Citou os bares certos: Longchamp, Pirandelo, Frevinho, etc. Mas eu o perdôo como ele perdoou Ana C. por "ter conseguido".

Conheci a Ana na casa do Reinaldo e da deliciosa Maria Emília (mais o gostoso Ruy Fontana Lopes). Grandes jantaradas, bons vinhos e tome papo. Discutíamos o nada e o tudo. Ficamos amigos. Aliás, as pessoas não ficavam amigas da Ana. As pessoas simplesmente se apaixonavam por ela. Que coisa bonita! Que cabeça! E aqueles poucos cílios brancos num dos olhos? O esquerdo? Nada mais cativante.

Um dia ela veio a São Paulo para participar de uma mesa redonda para a revista Istoé, organizada pela Marta Góes. Me ligou do Rio. Queria me ver. Hospedou-se no Hotel Jaraguá onde, lá mesmo, era a mesa redonda sobre os novos valores da cultura brasileira, ou algo assim. Fiquei de pegá-la à meia-noite. Serviram bebida durante o debate. Assim que cheguei, o Cacaso vomitou na minha camisa ao me cumprimentar. Tive que pegar uma camiseta da Ana no apartamento dela.

Fomos para um japonês na Liberdade tomar sakê, nós dois. Lá pelas três, ela me diz:

- Quer ir dormir comigo no hotel? Sem compromisso?

Fomos. Dormimos sem compromisso, completamente sakeados. Manhã seguinte, levei-a ao aeroporto e nunca devolvi a camiseta. Mas sempre devolvi o carinho. Aliás, onde andará aquela camiseta?

Reinaldo Moraes morreu de ciúmes. Simplesmente porque ela esteve em Sáo Paulo e não ligou para ele. Uns dois meses depois, estávamos os dois a tomar a cervejinha da tarde no La Villette e ele não parava de olhar no relógio.

- Que foi, cara?

- Sabe o que é? Tem um jantar lá em casa hoje à noite (morávamos no mesmo prédio, na Alagoas) com a mãe da Maria Emília. Coisa meio formal, se não, te convidava.

Fomos embora, peguei o elevador e ainda vi o Reinaldo abrindo a porta dele no térreo. Chego no meu apartamento e a deliciosa e poética voz da Ana C. na secretária eletrônica, entregava o mentiroso:

- Estou jantando aqui embaixo. Desça quando chegar. Ana C.

Não sei se a história ficou clara: o que o Reinaldo queria era aproveitar sozinho a Ana C. Queria a Ana só para ele. Era assim que as pessoas amavam Ana C. Ciumentamente.

Não tive dúvidas. Peguei o elevador e desci os dois andares. Ele abriu a porta já pedindo desculpas. E a Ana a me dizer que assim que ele entrou ela perguntou por mim e o sujeito teve a cara de pau de dizer que não me via há dias. Aproveitamos a Ana, juntos.

No dia seguinte ele me mandaria um buquê de rosas com um bilhete, pedindo desculpas mais uma vez. Tanto Faz, Reinaldo.

Isso foi meses antes dela conseguir se matar, depois de tantas tentativas e sofrimento. Uma vez entrou no mar gelado, de noite, nua. Depois, não sei porquê, voltou e estava atravessando a rua quando um sujeito viu, saltou do ônibus e a vestiu com seu paletó. Será que esse anônimo sabe a quem ele acalentou?

Maria Emilia liga para o hospital, no Rio. Fala com ela. Ela estava mesmo mal. Daí a uns dias ela voou pela janela, de um sétimo andar.

Como sabiamente disse o Caio F, ela precisava fazer isso. Tinha que fazer isso. Fazia parte da poesia dela. Ana C. virou um mito mais vivo do que nunca. E, como sempre, dormiu. Sem compromissos.

Preciso achar aquela camiseta.
 
Quinta-feira, Outubro 16, 2003
 
Esqueceu? Te achei tão frio no email. Coisa de mulherzinha. Coisa de homem. Não entendo. Nem entenda. Não pense. Poesia? Pra quê, porque, por onde? Não comece. E tem mais. Não valho nada.
 
 
Que dor, esse poema. Que vontade de escrever. Que exatidão absurda e ansiosa. Que engasgo, que não-saber-o-que-dizer.

Um Beijo
(Ana Cristina César)

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
 
 
bu
 
Quarta-feira, Outubro 15, 2003
 
Pelo Meio do Caminho de Nuvens

Livre como uma água-viva. Há tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olho nuvens a cinco metros de distância. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando a água vivendo água.
Não me concentro. Não leio. Não faço. Não saio do lugar. Se me movo é que o mundo se move, tão lento e perplexo diante de cada revelação lenta do sol. Não acho as palavras. Não penso antes de falar. Não olho nos olhos, não sei apertar mãos. Não causo boa impressão. Aviso e reafirmo: não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa. Não sei de nada. Não li o livro. Estou vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.
 
 
Roubado do blog do Negrão que é um cara legal com quem eu fui antipática um dia. (Logo eu, A simpática, não é Blue e Colibri?!!)


"tarde da madrugada
seu rosto brilha
orvalha lágrima

não faça alarde
acorda tarde
embala a noite
até o sol raiar

nosso abraço
ultrapassa
o luar

a paz só quer nosso amor
fresta de luz sobre a dor
e não tememos o que virá

tem tanta estrela
na noite acesa que passa
- nos vem de graça -

somos nós dois
o sol da luz do olhar

alda rezende jonathan crayford renato negrão"
 
 
Senhores, apertem os cintos: a montanha russa já saiu e ninguém viu!
 
Sábado, Outubro 04, 2003
 
isto é só um teste
 
 
Três vivas para Torquato Neto, que comprei "Os últimos dias de Paupéria":

Ponto de Bala
os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
 
 
Um dia
Depois outro
Depois outro
Outro
Depois
Outro depois outro
Depois outro
Outro depois.
Assim, 365
Mais 365
Mais 365
365 mais
os 365 anteriores
e os 365 seguintes
menos o dia em que perdi a memória
menos o seguinte, depois
outro, depois outro
depois outro
outro depois
em que vivi de uma vez
de um dia
depois outro
tudo só
Um tempo
Uma vírgula
Um contratempo e um
E
Dois e um
E dois e outro um
Soma-se
a dor do
parto
Vale 5
subtraindo noites
Sem sentir
Os pés
Divide-se por
365
dias e quantos serão até que
a vida esgote
e seja o saldo
a liberdade
seja findo o salto
nu pela janela
do arrepio
de tocar a vida
de dias
e verter a morte
de curvas
 
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
 
São cinco meses. Cinco meses do ano de 2003. Cinco meses do meio de um ano de um século novo. Nem o i ching me dá um norte, eu espero direções de braço cruzado. Ou quero o mundo todo em noites de beijos nos pés. Hoje faço votos: prometo não ter medo, prometo fehcar os olhos e me jogar no mar, prometo voar, prometo o mundo, prometo não saber, prometo a humildade de saber que não sei, prometo que te amo.
 
 
Abandonei, né dear. Vou pro Rio segunda, tava em salvador agorinha. Depois eu volto, porque andei lendo muita coisa séria, fiquei vazia de coisas bobas pra dizer.
 
Quarta-feira, Setembro 17, 2003
 
Tenho da vida alguns pedaços engasgados
Alguns dias partidos
Divididos
Em feixes de ternura
E poeira.
Tenho uns dias sentidos
Quase nada
Uma janela seca
Empoeirada
Cheia de chuva
Do lado de fora.
Tenho às vezes memória
Às vezes vontade
Às vezes penso em cantar mas depois esqueço
Às vezes
Você me reparte
 
 
A festa
(Milton Nascimento)

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito,
Nem acredito no sonho que vejo
E seguimos dançando
Um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito prá nós
Nesse som que nos toca

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas
A banda toca
Parece magia
E é pura beleza
E essa música sente
E parece que a gente
Se enrola, corrente
E tão de repente você tem a mim

 
Segunda-feira, Setembro 15, 2003
 
Bordei um segredo pra você. Um daqueles bonitos, de brilhinho agudo de areia no sol. É que já disse muita coisa mas ainda queria um segredo pra você. Queria um segredo bonito pra termos juntos porque, quando eu era pequena, pensava que amigo era quem contava e escutava segredo. Quem tinha um segredo junto com alguém era amigo do alguém. E o segredo era a coisa dos dois, que os dois guardavam juntos. Tenho um segredo com você. Mais que segredo de amigo. Segredo de sentir as coisas escuras e com um brilhinho pequeno de areia molhada no sol. Segredo que não é nem de palavra mas que você cuida comigo e guarda pequenininho numa caixinha. E ninguém pergunta o que é porque sabem que segredo assim, não se conta, não se mostra, não é de ver nem é de palavra. Mas só de olhar já se sabe que nós dois temos um segredo de silêncio.
 
Domingo, Setembro 14, 2003
 
Roubado:


Férias do mundo aos bêbados de amor


Aos bêbados de amor deveriam ser concedidas férias do mundo. Veja bem, não digo férias da vida, pois esta é campo aberto para os que amam. Estou falando do mundo tal que conhecemos em seu dia-a-dia-a-dia-a-dia-a-dia adia ardia... a matemática do acordar, trabalhar, ir pra casa, dormir. A rotina enferruja o amor, pois ele é ser criativo, precisa de telas para pintar, papel branco para escrever líricos poemas sobre coisas inúteis à vista de quem passa a passos largos.

Ah! Dêem férias do mundo aos que não conseguem pensar em outra coisa senão no entrelaçar dos olhos, peito sobre peito, tum tum, coração! Não sejamos rabugentos, nem gaiolas, nem durex, a ponto de acharmos fútil presentear com a liberdade esses seres inundados de canto solto sem porque.

Desabito o mundo, desabito o mundo, desabito o mundo e levo comigo quem de asa for tão leve que não suporte mais deixar pelo caminho o amor em cacos, pois é férias o que estou me dando!

 
 
De onde vem? De onde veio se não da cabeça, do centro, do coração, das veias, do plexo solar, do pulso? De onde vem a vida? Ela veio de desejo, de capricho, de destino, de conspiração celeste, da própria vida, do hábito, do inevitável, do amor? Como se expande pelo mundo, incontrolável, longe de qualquer plano prepotente, tangente a algum limite que exista, desafiando músculos e nervos com a dor? De onde surge e explode a vida?
 
Terça-feira, Setembro 09, 2003
 
Subject: carta-de-papel
Date: Fri, 5 Sep 2003 14:54:08 -0300

Do lado de cá tudo bem, como em qualquer dia de vento gelado ou de
sol-eterno-a-pino, sempre tudo muito bonito na cidade de asfalto e gente.
Do lado de cá é bonito e vai bem. Ando transbordando um amor pra dentro,
feito aquelas vasilhas de ferver leite que inventaram pra não derramar.
Derramo por dentro uns olhos fundos que me olham com rugas entre as
sobrancelhas às três da manhã e uma mistura de temperaturas e
sentimentalismo precipitado. Consigo, às vezes, até me conter mas pra quê
mesmo que serve. Pra nada e as coisas não têm de ser úteis.
 
Segunda-feira, Setembro 08, 2003
 
www.cabezamarginal.org/cambalhotas
 
Sexta-feira, Setembro 05, 2003
 
Quero uma vida em forma de espinha

Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um troço solitário
Quero uma vida em forma de areia nas mãos
Em forma de pão verde ou de moringa
Em forma de sapato velho
Em forma de tiroliroliro
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra coberta de seixos
De cabeleireiro selvagem ou de edredom louco
Quero uma vida em forma de você
E a tenho, mas ainda não é o bastante
Nunca estou contente.

(Boris Vian)
 
Quinta-feira, Setembro 04, 2003
 
Amor, aquele filme que eu não vi. Já te quis mas passou enquanto eu andava ali no quarteirão fechado. Tropecei no paralelepípedo fora do lugar, sou distraída. Não traio minhas mãos nunca, e você?Podemos nos conhecer, ouvir qualqer coisa em três ou quatro vozes ou tons. Não casei. Faz um tempo, já.
 
Sexta-feira, Agosto 29, 2003
 
Tá tarde. Mas vim aqui porque aqui não tenho cara, não quero nada, não sou ninguém. Não tenho história não tenho o tempo não ganho nada, nem perco. Aqui o tempo passa e eu despejo segredos. Lavo as mãos, quem quiser que leia. Aqui não sou ninguém. Ninguém. Aqui não tenho nome, nada me oprime, não há exigência, expectativa, pré-requisito. Ninguém. Aqui sou incondicional, contraditória, escrota, mentirosa, digo tudo, lavo a alma e não há ninguém. Aqui falo sozinha e falo pra olhos de ninguém, sem cara, sem nome, sem cargo, sem mentira, sem palavra. Que nem eu. Que nem todo mundo que é gente. Nem todo mundo é gente sempre. Mas às vezes é. Tá tarde.
 
Domingo, Agosto 24, 2003
 
Escrevo-te, porque não tem fim o domingo. Escrevo-te ao crepúsculo e ofereço-te o domingo. Às fatias choros partidos, fibras dividadas como em um bífe de músculo bovino. Das perguntas vacilantes, entre o peito e o céu da boca, que saem aos pedaços. Meus olhos se encheram d´água algumas vezes, porque pensei, pensei, pensei. E quis adivinhar seus olhos e quis sentir todo o seu desejo por mim de uma só vez. Mas domingo é tudo partido e também suas mãos nas minhas pernas eram reticentes. Te escrevo então mais um pedaço de domingo, pra me desengasgar, pra eu me livrar, pra tirar de mim esse domingo espinho de peixe atravessado na garganta. Durma bem.
 
Quarta-feira, Agosto 20, 2003
 
Rabisco o amor em papéis de recado, bagunça de escritório, janela de concreto, amor s/a. Reescrevo e risco porcarias sérias e sentimentais em papel embolado, triturado e confidencial. Refaço o beijo. Os quinze anos não me deixam.
 
 
Aquele amor nem te conto, já foi, já passou, acabou como outros, passou por cima e foi pra tão longe, mas tão longe, que perdeu a vista, a audição, o paladar. Morreu coitado, não sabe se velho, se amargo, se triste, se de infecção generalizada. Jaz calado, putrefato, a sete palmos, soa como as flores frescas dos dias de finados.
 
Terça-feira, Agosto 19, 2003
 
Então eu chorei, em meio a tantos mil afazeres, inundada de vida sem graça, nostalgia, amor. Eu só choro de medo, não tenho tempo, escrevo trancada, em folha qualquer rascunho, minhas víceras se espalham no chão do banheiro onde me tranco. Sou aquela que ama, tranco-me. Mas há vida. Há porções de vida que não consigo dividir com você. Busco mais noites encantadas como outras que já foram. Encanto-me, mas o esforço é hercúleo e meus olhos ficam marejados. O esforço de chorar também é hercúleo. Engoli minha própria chave. Ou preciso de férias com você. Preciso não ter medo de roda gigante, porque você disse que vai me beijar na roda gigante de luzes acesas, um dia, quando for noite.
 
Sexta-feira, Agosto 08, 2003
 
Pérolas do meu atirador tentando ser romântico:

Eu procurando a calcinha no chão do quarto. ele acha, cheira e diz: - Acho que esta é sua.
Eu: - acho que vou ficar menstruada amanhã.
Ele, me abraçando com um sorriso sedutor estilo Mário Lago: - ah, você fica linda menstruada.
A gente encontra pra ir à locadora pegar um filme pra ficar em casa: - nossa, você está tão bonita! merece até sair!
A gente discutindo relacionamento: - Você é igual docinho de festa de criança. A gente come, come e chega uma hora que não aguenta mais, mas sabe que no dia seguinte vai lembrar e pensar que podia ter comido mais.
Ele, negociando um lugar pra sair à noite: - Vamos ver a coisa de uma maneira mais holística.
 
Domingo, Agosto 03, 2003
 
ausência em meus claros guardados. Te acho. Penso que sinto quando olho seus olhos da distância de nossos narizes. Penso que acho e no entanto é uma angústia. Quero saber tudo, impossível, todo o impassível de qualquer descobrimento. Descubro-te. E sei que me engano. Beijo mais fundo e desvendo sua língua com a minha. Desengano pensando no fim, meus olhos escurecem. Ausência em meus dedos guardados no bolso do paletó. Saudade de dedilhar seu rosto, barba, lábios, orelha e nuca. Nunca, é a palavra que me basta. Ou sempre. No fundo, tanto faz.
 
Quinta-feira, Julho 31, 2003
 
Sobre o sexo:
A gota de água fresca pingando da telha depois da chuva: calorão. A gota da água fresca pingada no meio da lingua que olha pro céu de depois da chuva no calorão. Que sede ela quer matar?
 
 
- Meu pedaço chegou de viagem. Inda bem;
- Simples;
- Então penso e alguém me lê os pensamentos real time;
- Você me dá desejos de presente;
- Desejo é falta;
- Seu desejo me enche;
- A falta que me dá o fato de você existir e eu não estar mais vazia e sim de braços abertos é deliciosa.

 
Quarta-feira, Julho 23, 2003
 
Um pedaço meu que viajou de férias:


Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, de mil silêncios cadenciados pra ninar minha Maluquinha...
 
 
Um pedaço da Hilda que você mereceu ontem:




Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.



Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.



Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

(...)



[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

 
 
Um pedaço do Paulinho da Viola:

Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor assim descontraído
 
Quinta-feira, Julho 17, 2003
 
Um pedaço do Drummond:

Experiências de escrituras,
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.
 
 
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de Explicação, da Adriana Falcão)
 
Quarta-feira, Julho 16, 2003
 
Leia mulheres, nos olhos e na pele, escreva nas costas, nos dorsos e ancas,
alguns modos de usar, alguns deleites que elas podem dar, alguns recados
aos filhos e irmãos. Leia as curvas de cabelos crespos, pés calejados,
tortos, podres, encravados. Leia mãos macias amassando pães, leia as mãos
também espalmadas sobre a sua testa ou o seu pescoço ou o seu peito quando
você gozar. Leia choros incessantes, soluçados, fisionomias duras diante do
seu choro frágil e soluçado. Escreva histórias em cada um de seus dedos dos
pés, conte estrelas em suas nucas. Veja-as apodrecer diante dos seus olhos
e confie a elas seus filhos, o que forem comer, o que irão aprender na escola, o que irão vestir e o que irão amar. Leia, interprete, consuma, saboreie, usufrua, lamba, encare, toque e aprecie cada dote, dom, habilidade, inocência, conivência ou curva que elas possam dar. As mulheres.
 
 
111 átomos diferentes fazem tudo o que existe. A tinta do cabelo preto de mais, o batom.
A noite passa a conta-gotas, cada faixa do disco e a primeira outra vez. A noite passa escura e acordada a seu lado, no seu colo ou no colchão mole de mais onde você dorme. Sua nuca e pele, o tecido infinito. Você não tem fim, à noite, ao seu lado.
111 átomos também constituem os ácaros que constituem seu colchão mole de mais. Infinitos os átomos da sua pele. Átomos são sempre infinitos. Cada cor, cada combinação dos átomos das moléculas que se desprendem de você e permanecem a seu redor enquanto eu aspiro sua nuca. Onde seu cheiro vai parar dentro de mim?
É de átomos a blusa, o telefone, todos os olhos espelhados do mundo, inclusive o seu e o meu e nossas pálpebras. E a calçada sob os pés de personagens imaginários que fazem barulho com sapatos duros. Também as formigas dois metros abaixo do último subsolo do edifício Acaiaca. A sopa sorvida com cuidado por um menino de cinco anos. O sono, a sonolência da noite em conta gotas a seu lado. Não, isso não.
Somos como átomos de carbono, desses que qualquer um tem aos montes. Somos intervalo, meio, entre, espaço vazio.
 
Sexta-feira, Julho 11, 2003
 
Filmes chatos de noites de quintas-feiras. Ainda bem que só percebo o começo e o fim dos filmes.
Esqueci alguns... Claro.

- Um homem meio esquisito
- Pão e Tulipas
- Fast Foood Fast Woman
 
Terça-feira, Julho 08, 2003
 
Momento Pânico Materno

- Mãe, o Igor não sabe que criança não beija na boca. E a Dani já explicou pra ele muitas vezes.
- Ah, é? Porque não sabe?
- Porque ele fica beijando a Carol.
- Mas... só a Carol?
- Não, a Ana Paula, a Larissa e a Clarissa também. Ele corre atrás de todas as meninas pra beijar.
- E você, ele não beija não?
- Não.
- Porque?
- Porque eu corro.
- E ele beija os meninos também?
- Não. Ele sabe que menino beija menina. Ele só não sabe que criança não beija na boca.
(momento educacional dentro do momento pânico materno)
- Mas tem menino que gosta mais de beijar menino.
- Hahahaha... É, mãe? Que engraçado...
- É, e tem menina que gosta mais de beijar menina.
- Hahahaha... Então lê historinha pra mim.
 
Segunda-feira, Julho 07, 2003
 
Mais uma historinha grande pro Pedro pular. Pula mesmo, porque essa é dessas coisas meladas e lindinhas que são boas só pra mim. Como o blog é meu, eu coloco. Que posso eu fazer se meu amor é um contador de histórias?


22 de abril – O Dia do Descobrimento


Não me lembro bem a data exata em que se passaram aqueles longos dias de espera, mas é certeza certa que já se passava alguns anos do século XXI e o mundo não era mais o mesmo. O planeta Terra estava dominado por espetáculos franceses de dança contemporânea, intermináveis palestras sobre responsabilidade social, boates bombando de gente bonita e incontáveis coquetéis de comemorações de qualquer coisa. Isso sem falar, nos... bom, deixa pra lá...

Capitão Vermelho e sua tripulação não iam nada bem em suas aventuras de além-mar. Já não era a primeira vez que alguns marinheiros se reuniam no convés para pensar um modo de tirar o Capitão do comando do navio. Queriam colocar em seu lugar o frio e matemático Doutor Encéfalos Causa, aquele mesmo, que não comeu algodão doce em sua infância e, talvez por isso, tenha se tornado salgado. A rebelião aumentava a cada vez que Capitão Vermelho via sua embarcação afundar em mais uma aventura falida em direção a um coração de tomates secos.

Há tempos sua tripulação não ouvia a voz ofegante do Capitão, a gritar com pulmões de criança no fermento: Atenção, homens! Alçar âncora!!! Terra à vista!!!!

Mas era durante a noite, no interior de seus aposentos, que o Capitão fazia anotações e traçava planos em direção ao caminho que acreditava ser o melhor para ele e sua tripulação. Com a credibilidade de um vendedor paraguaio, a garantia de qualidade de um televisor CCE e o carisma de um candidato em época de eleições, Vermelho não se cansava de tentar, mesmo já desacreditado dentro de sua própria embarcação.

Eis que um dia, numa noite de açúcar, o Capitão avistou uma luz que fundia seus olhos e brilhava sua alma. Uma luz mais clara que dente de gente com sorriso sorridente. Uma luz tão clara e tão bela, que até ofuscava a Lua e a deixava uma fera, morrendo de ciúme e inveja, da beleza que desfilava sem cerimônia e sem espera.

Agora ele tinha certeza! Após anos de procura, havia finalmente encontrado o que tanto procurava. Um lugar, uma luz, um caminho, uma casa, uma lua, um lar. Enfim, um lugar pra repousar seus pés marcados de caminho torto e frio.

Bagunçado de pernas trêmulas, com uma das mãos das apontando em direção à descoberta e a outra levada ao peito nobre e confiante, ele gritou como há muito não gritava:

- TERRA À VISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


E os homens que dormiam sono tão leve quanto o próprio balançar do navio à deriva no mar levantaram-se todos, com olhos esbugalhados em interrogação. “O capitão deve estar louco, como pode avistar terra nova em uma hora dessas da noite?” - perguntava o cozinheiro. “Já disse que está passando da hora de jogarmos ele ao mar!” - gritava o timoneiro. “É verdade! Ele tem que ir para a rampa o mais rápido possível!” - sentenciava o marujo de blusa listrada.

Mesmo contrariados, eles foram ver o que havia sido motivo de tamanha comemoração. E viram! A luz de trombetas apaixonou também toda a tripulação. Os marinheiros cantavam e dançavam, batendo suas botas no ritmo do vento que ainda dormia distraído, roncando ventanias.

Uma festa de ano novo tomava conta do navio que parecia dançar valsa com as ondas, sem em hora alguma errar o passo ou pisar em seus pés. O destino estava certo e Capitão Vermelho havia finalmente reconquistado a confiança e admiração de seus seguidores.

Mas como arroz de festa não faz ruído, quando chegava aos arredores da recente descoberta, a embarcação foi pega por uma correnteza de águas bravas em fase de TPM. Os marinheiros se viram obrigados a jogar a âncora antes do tempo previsto a fim de evitar um desastre e o navio afundar tão próximo a terra firme. Com vários homens jogados ao mar e um corpo de marinheiros trabalhando pesado, o aristotécnico Doutor Encéfalos Causa aproveitou o momento de desespero para tomar conta da situação e iniciar seu reinado de cores cinzas e narizes gripados.

- Senhores!!! Vejam bem aonde o capitão tão estimado por vossas senhorias nos trouxe. Estamos à beira de um colapso e o Sr. Vermelho nada pode fazer para conter a vexamosa situação em que nos meteu a todos. Senhores, reajam!!! Levem-no a rampa!!!!

E num ato de atum, os marinheiros ensandecidos acorrentaram Vermelho e o colocaram frente a rampa, a não mais que dez passos em direção às águas nervosas do mar e ao abraço envolvente da morte.

- Esperem!!! Vocês não podem fazer isso comigo! Nunca lhes faltei com a verdade. E é cada vez mais crescente o sentimento que se instala em mim. Vamos vencer esse desafio e, finalmente, encontrar nosso lugar. Um lar recheado de bombons de morando com chocolate, sushis de salmão e muito amor...


- Mentira! Não vamos mais acreditar em suas bobagens! O amor é o placebo preferido dos sonhadores que não sabem viver a vida real como você!


- Pois então veja com seus próprios olhos! Ali está o placebo que suas úlceras o impedem de enxergar...


E nesse momento, a luz brilhante que à todos iluminava, brilhou ainda mais forte, cegando os homens e até mesmo as águas. O navio que quase afundava, parecia então flutuar, e seguia lento, em direção a terra firme e confortável. A luz mais clara que a lua, fez com que todos se calassem até chegarem em terra firme.


Quando o navio finalmente atracou, Capitão Vermelho foi o primeiro a desembarcar, indo correndo em direção à luz que os iluminara e já não mais cegava.

Chegando lá, encontrou à beira da praia, uma princesa tão linda, mas tão linda, que por instantes, sua lindeza o fez duvidar do que seus olhos míopes estavam vendo. Era uma princesa que iluminava as noites escuras com seus olhos de ver belezas simples e que havia acabado de salvar toda uma tripulação com eles.


- Quem é você?


- Meu nome é Linda. Princesa Linda! Vivo para fazer as pessoas se apaixonarem e depois disso, aproveito para fazer o que quiser com elas, como, por exemplo, dar voltas de bicicleta em torno de nossa ilha.


- Pois bem, Princesa! Você me tem nas mãos! A partir de agora ficarei aqui e prometo que darei quantas voltas forem necessários para sua total satisfação. Darei de voltas ao redor da ilha com você de bicicleta, de carro, a pé, plantando bananeiras, levitando ou até mesmo correndo e falando o dicionário na língua do pê.


E assim terminava ops, começava a história do destemido Capitão Vermelho, chefe de uma embarcação que nunca soube ao certo onde estava indo, mas tinha certeza que estava em um caminho certo.

Princesa Linda ficava, como o próprio nome já diz, cada dia mais linda, e o Capitão comemorava o tesouro que havia encontrado.

E assim vivia a vida, orgulhoso e feliz com seu coração...









 
Sábado, Julho 05, 2003
 
Alô alô, testando...
 
Quinta-feira, Julho 03, 2003
 
TRANSIÇÃO

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... - não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)

Cecília Meireles
 
Quarta-feira, Julho 02, 2003
 
Então fala, amor
fotografa o beijo de lingua
Fala Drummond.
Calado, com os dedos
a me revirar
e doendo a espinha.
Congela o céu de rosa
pára o tempo
que seja sempre
assim amém.
Deixa que te envio o Drummond
certo pra você contar.
Interrompe a frase
eu recomeço o ditado
te sopro ao ouvido o meu Drummond
Uma e outra vez.
Dito O Corpo ao seu ouvido
repito
de cor
sei. Só sei.
 
Segunda-feira, Junho 30, 2003
 
O CÉU DE CABEÇA PRÁ BAIXO







Página 1
Longe, muito longe daqui, uma menina sorria e pulava, cuidando de seu coração.

Página 2
Durante anos, a Menina de cabelos cacheados debruçava-se todas as noites na janela para ver o céu piscar. Esticava o nariz gelado e sentia cheiro de noite. Mas sua casa era tão pequena, e assim também suas janelas, que o único jeito que ela arranjou pra ver o céu foi sentar-se no sofá e enrolar todo seu pescoço para trás. Uma visão privilegiada, que trazia consigo um pequeno e estarrecedor detalhe: o céu ficava de cabeça para baixo...

Página 3
O tempo passava como uva, quando um forasteiro, em passagem pela cidade, visitou a casa da Menina. Amigo antigo da família, ao ver a filha do casal, elogiou. Comeu feijão de corda com mandioca e se esbaldou. Tomou café com broa de fubá e se desmanchou. Acariciou o gato de estimação, se arrepiou. E já ia mesmo indo embora, quando se deparou com uma cena estranha. Não resistiu e perguntou:
- O que você faz aí, Menininha? Com a cabeça para fora da janela e o pescoço enrolado para trás?
- Estou olhando o céu.
- Posso ver também? – assentou-se ao lado da menina.
- Pode. Espia só como é bonito! Agora respira e sente o cheiro que tem...
- É muito bonito mesmo, mas, assim, está de cabeça para baixo.
- Não, senhor! O céu é assim! As pessoas é que não sabem olhar...





Página 4
Em pouco tempo, a notícia se espalhou pela cidade. A novidade ganhou pernas de avestruz, pescoço de girafa e agilidade de lagartixa. Assim, mesmo os que não fossem alcançados pela velocidade com que o boato corria, não conseguiam ficar alheios ao reboliço que estava no ar. Logo, filósofos, cientistas, poetas, astrólogos e fofoqueiros vinham de todos os lados, feito romaria de São Judas Tadeu. Debruçavam-se na janela da casa da Menina e tentavam desvendar o mistério.

Página 5
Os astrólogos argumentavam que a posição de Vênus em linha octogonal a Saturno era responsável pelo fenômeno. Os alquimistas comemoravam que a descoberta facilitaria a transmutação dos metais em ouro, durante a aurora boreal. A benzedeira afirmava sua fé em Deus dizendo que, independentemente da posição dos astros, todos que tivessem uma boa conduta na terra iriam para o reino dos céus. E sobrou até para os boêmios que... Bem, os boêmios se abstiveram do debate porque nunca souberam ao certo a diferença entre o sul e o céu. Pediram apenas que não mudassem as estrelas de lugar para que não perdessem o caminho de volta pra casa, nas noites de bebedeira. A discussão aumentava, nada se resolvia, e os murmúrios zanzavam pela cidade.

Página 6
Até que um dia, um jovem senhor doutor recém chegado da capital, soube da situação e decidiu visitar a casa da Menina. Depois de muito observar, o homem deixou o local cabisbaixo, coçando uma iminente calvície prematura. Cada um com sua careca, as autoridades locais também coçavam as suas, quando o doutor, perguntado sobre a questão, foi categórico em seu veredicto:
- A Menina tem razão! Até os dias de hoje, nós olhávamos o céu de maneira equivocada, de cabeça para baixo. É preciso esclarecer a sociedade e avisar a todos sobre a novidade!

Página 7
Boato confirmado, a população tentava se acostumar com a nova realidade. Naquela mesma noite, o Prefeito convocou toda a sociedade para dar as boas novas. Às oito horas, na pracinha, em frente à igreja, todos esperavam pela anunciação. Com o mesmo entusiasmo de quem aprende a andar de bicicleta no fermento, o Prefeito foi solene e pomposo em sua declaração, de olho nas próximas eleições:
- Queridos póvos e póvas dessa minha esplendorosa cidade de gente fulgente. Boa noite! É com enfastioso prazer que tentarei, com a singeleza e gabarolice que me são habituais, narrar essa situação inenarrável! Como vós deveis saber, nossa cidade é palco da última maior descoberta feita pelo homem... bem, nesse caso, por uma menina.

Página 8
Ao final do discurso, todos esticavam suas cabeças e giravam seu pescoço para trás, para finalmente, depois de anos e anos de céu de cabeça pra baixo, poder vê-lo na posição correta.

Página 9
Mas eis que, por coincidência ou destino, como melhor preferir o leitor, o Matuto, sujeito cabreiro que vivia sozinho em uma fazenda nos arredores da cidade, passava sorrateiramente pela praça. Presenciando aquela confusão, perguntou:
- Que diacho é isso?! Que vocês tão fazendo, com a cuca virada para o lado e o pescoço enrolado pra trás?!
- Olhando para o céu! – disse um dos presentes – o senhor precisa se atualizar! Não sabia que só assim podemos ver na posição correta? Da forma como olhávamos antes, víamos o céu de cabeça para baixo.

Página 10
Matuto, como seu próprio nome já sentenciava, o velho disparou sua verdade, que assolou toda a população da cidade:
- Uai, será que vocês não perceberam?! Não é o céu que estava de cabeça pra baixo... nós é que estamos!!!
A praça inteira, homens, insetos e coisas silenciaram um vazio intrigado, tão matuto quanto o próprio Matuto.


Página 11
Pandemônio de cores curtas!!! O pânico tomou conta da cidade e, depois de muitos gritos e correrias, tudo começou a cair.

Página 12
Mães agarravam suas crianças, crianças nadavam felizes em direção ao céu, o céu engolia o mundo com gentileza e hospitalidade. O Prefeito tentava segurar sua cartola azul, quando também seguiu em queda livre, num passeio que não teria mais volta. Um homem comprava um cachorro-quente que caiu na imensidão. Negava-se a pagar sua dívida, quando ele e o vendedor começaram a cair e, mesmo assim, continuaram brigando, sem perceber o inusitado da situação. Duas respeitadas e respeitosas senhoras que futricavam sobre os atos voluptuosos da filha do padeiro também deslizaram pelo ar. Tiravam saias e anáguas do rosto preocupadas com o que o destino reservaria para a pobre moçoila.

Página 13
E tudo mais caía distraído... os carros estacionados na praça – caíam; as casas, os telhados, as televisões e os liquidificadores - caíam; as frutas que estavam fora de época – também caíam e até mesmo o boné do pintor, que não saía de sua cabeça nem na hora do banho, seguiu também em queda livre, segundos a frente de seu dono.





Página 14
Sobraram apenas a Menina e o Matuto com os pescoços enrolados para o alto:
- Gente esquisita... – disse o Matuto.
- Pois é – concordou a menina – eles acreditam em cada coisa!!! Mas não é mesmo mais bonita a noite vista assim?




FIM
 
 
Séria Poesia

500 km
Desfaço o
Beijo refaço
De longe
Replay
De novo e
Mais uma vez.

Prioridades
Importante mesmo
É eu não saber piadas
E você rir.

A Espera
A espera às vezes traz:
- Uma cerveja
- Uma cachaça
- Pensamentos estranhos
- Torresmos maiores que esperamos
- Problemas
- Ônibus
- Um poema
- Solução
- Uma pessoa querida
A espera é
Sempre sem
Você.
 
 
Acho que me empolguei...
 
 
Falar em historinha, meu pai leu a minha historinha que é minha e da GH. Já tem um tempo. Fiquei um pouquinho nervosa, ele leu e não disse nada. Muitos dias depois, olhou pra mim na sala de televisão e disse que tinha gostado do meu texto. Que era sofisticado mas que não era de criança. Porque pra criança as coisas têm que ter mais contraste, têm que ser mais coloridas. E a minha história era ton sur ton (é assim que escreve?), que era lilás, rosa, e roxa... E é mesmo.
 
 
Ah, "O Céu de Cabeça pra Baixo" é a historinha infantil que o Cris inventou. E o Cris é o responsável pela atual onda de posts sentimentais e otimistas aqui. E pela atual onda de "ausência de posts" também. Estou de pleno acordo com a teoria da Pola e do Alisson. Depois ponho a historinha aqui também, acho que agora não tenho ela aqui...
 
 
Diz que eu mudei. Pra melhor, se não não diriam. Nada muito profundo, diz que eu estou mais bonita. Também acho. Deve ser que pintei as unhas de vermelho e uso laquê no cabelo (só às vezes). Ai que medo...
Diz também que a Menina Maluquinha é a minha cara. Mas na verdade ela é a cara da menina que o Da Lua desenhou pra "ver o céu de cabeça pra baixo". Daqui a pouco ponho ela aqui.
 
Domingo, Junho 29, 2003
 
Sabe, that fresh feeling. Vontade de dar boa noite. O frescor. Só que outro. Só que fresco. Só que é quieto como ouvir um violão vibrar com o ouvido colado na madeira, uma bossinha velha e gasta, mesmo meio sentimental, essas coisas. Só que meu olhar vai ser sempre acolhedor. Só que fico assim, menina de repente, e não conto o segredo do melhor beijo.
 
 
Blog novo do amigo. Mucho bom, já que ele sempre soube escrever pra caralho. Aliás, a primeira pessoa que leu uma coisa minha. De diário. E disse que era legal e eu não acreditei. Depois concordei...

"Então me crava essa noite preta, que da boca morta minha vida esvai. Porque de longe o motor do carro grita, bem mais alto que minha vida rubra."

Pequenas histórias sobre o sono

I

Meu nome é Laura e tenho 7 anos. Gosto de brincar com minha boneca, tomar sorvete de chocolate e beijar minha mãe, que é muito linda. Não gosto quando minha professora passa muito para-casa, quando meu pai briga comigo e quando o sono cola meus olhos com tinta preta.
(...)
 
Quinta-feira, Junho 26, 2003
 
Engraçadíssimo, fui ver uma seminário de comunicação empresarial e falou o chefe lá da Fiat. Contou casos de fracasso de comunicação (tipo o mascote do anúncio de um carro hidramático, que era um saci...) e de grandes sucessos. O sucesso era a campanha que abordava o preconceito. Aí ele mostrou lá o comercial da mulher loura com o bebê no colo e o marido negro dirigindo, que a amiga confundia com um motorista. Ganhou prêmios de associações de negros. Mostrou o da reunião de pais em que a mão do Joãozinho e o pai do Joãozinho (uma mulher) estavam presentes. O slogan, “Você precisa mudar seus conceitos”. Ganhou prêmio de associações de gays, que seria recebido na parada gay em São Paulo. Aí o camarada resolve falar que o difícil foi arranjar quem quisesse ir lá receber o prêmio e juntou o episódio a um outro “mico” que ele teve que pagar em campanhas da empresa. Quer dizer, na propaganda a empresa tem uma conversa mas nem a COMUNICAÇÃO da empresa pensa desse jeito. E ele ainda abriu a palestra com uma frase de um super-empresário para seus funcionários: “Se você perder dinheiro da minha empresa, eu compreenderei. Mas se você danificar a imagem dela, serei implacável.”
 
 
Hai kaizins bunitins pra alegrar a quinta-feira


casca oca
a cigarra
cantou-se toda

(Matsuo Bashô
Adaptação de Paulo Leminski)



tua covardia
não é minha
teu riso, outra ironia

(Goulart Gomes)



A ociosa espada
sonha com suas batalhas.
Outro é meu sonho.

(Jorge Luis Borges
Tradução de Anibal Beça)



Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.

(Anibal Beça)
 
Quarta-feira, Junho 25, 2003
 
Desculpe-me mas há que se dizer também o banal, que é do que se faz a vida, do que se reproduz a espécie, do que se alimenta o estômago e os olhos. Cotidiano.
Banal você, olhos miúdos, meus sorrisos e gargalhadas. Tenho saudade de você.
 
 
"- Feito pra mim, bom pra você. Deixa mudar e confundir!
- Deixa de lado o que se diz. Tem no mercado, é só pedir!...
- Me faz chorar... e é feito pra rir. "

 
 
É nessas horas que perco o rebolado, vou ao cinema ver ficção científica, tenho medo da sua cara brava. Desculpa. Não quis te deixar falando sozinho, sofrendo acidentes, indo ao borracheiro pra arrumar o pneu da bicicleta pra dar a volta inteirinha na lagoa da Pampulha que são vinte e cinco quilômetros. Atirador, te levo pra casa e alimento, deixo sua barba me machucar. Te espero muito, sempre, toda hora, arranjo até alguma coisa pra fazer pra não ficar impaciente. Mas não te conto, de jeito nenhum, que não sou besta nem nada. Acho um jeito de esconder e o disfarce fica pior que qualquer remendo, desafinado, de tão baixinho quando você me pede pra lembrar aquela música do cartola que é tão bonita, tão bonita. Quer coisa mais óbvia que meus olhos grandes? Que um pôr do sol numa serra bonita, um pouco frio, barulho de grilos e agüinha de correnteza? Que um beijo sobre o muro de pedras, pernas-de-índio, frente-a-frente, e o sorriso mais fácil que puta de Afonso Penna? Que fazer beicinho porque você vai viajar, não querer que você trabalhe, que ler comovida que você me chama de princesa no e-mail de bom dia e esperar seus e-mails resmungando sozinha a sua demora? Mas não desisto do disfarce, dos farrapos me cobrindo porcamente, da covardia de dizer que amo você e depois olhar pra baixo e me arrepender. E não te mando cartas, em hipótese nenhuma, que não vou deixar registrada assim minha fraqueza, ao alcance dos olhos, prova cabal, pra você ler quando não souber mais de mim. Só publico ficção, porcamente disfarçada, sem dar notícia como se você não fosse saber que é pra você. Só publico sem te olhar, fingindo que esqueci, até você dizer que gostou e eu sorrir escondida.

 
 
Frases de hoje:


·Me atire, a garota na ponte.
·Você me tem retalhada, de olhos fechados, de olhos abertos, fixos, em seus olhos de correnteza azul na ponte.
·Saudade, e você não me falta.
·Colada à sua boca, a minha desordem.
·Tudo sangra em primeira pessoa, é sempre um somatório, um acúmulo de vertigens nos meus olhos, o corpo se esvaindo nos olhos, os sonhos, as febres, a voz, os cabelos e dedos trêmulos tomando chocolate quente de pernas cruzadas. Apertando a testa e escrevendo em público como se eu fosse uma senhora grave e velha. Quase não enxergo as palavras, a letra maior e pior, não importa, afinal. Não importa também se está legível a quem quer que passe a palavra calada borrada de chocolate sob o pires.
·Sou inofensiva, isso importa.
·E agora me soa sempre meio drama mexicano, esse negócio de escrever "sangrar", "olhos", "lágrimas".
·As sem-razões do amor.
 
Quarta-feira, Junho 11, 2003
 
Guimarães Rosa:
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
 
 
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
( Do Desejo - Hilda Hilst)
 
Segunda-feira, Junho 09, 2003
 
Mais uma do Zagreus:
"Trocados. Baldes de trocados. Empurrados ladeira abaixo - assassinatos compulsórios. Ilusão de supermercado, dor de cabeça de shopping, bala de frutas recheada com uvas fora-de-época. Chocolate, ah, chocolate, mas vencido, esfarelando. Ladeira abaixo.
Lentes pornográficas & cheiro de inseticida. Sexo com resultados.
Pena de frango assado. Junho. Estamos em junho.
Trocados. Muitos sentem a trovoada. Empilhados ladeira acima. Sossegados, até. Dentro das luvas, amortecidos. Derivação parassintética. Lentidões escravocratas com suor intravenoso. Estamos em junho, ninguém vê?, estamos em junho. Mais uma vez. Música ensurdecedora, pagà, eletromagnética. Música ensurdecedora & estruturada, lição de mecânica quântica, música negra, como magia. Música ensurdecedora, implorada, esvaziada de toda sua significância abastada.
Junho, ensurdecedor, junho com resultados."
 
Quinta-feira, Junho 05, 2003
 
A menina do gato verde



"A menina do gato verde
dos olhos claros
daqueles dedos.

É aquela menininha.

Sim? Aquela de junho.

Que aposta em qualquer azarão,
que aumenta as histórias,
que inventa tortos desejos,
e sai chutando bagres na areia.

Ô menina! Faz isso não!

Menina do gato verde. Tum!

Que sabe tudo,
que a inflação tá que tá,
que não vive sem amigos,
ou que parte pra briga, sem dó.

Ô menina! Faz isso não!

Menina do cachorro cinza. Bum!

É aquela menininha.

Não! É aquela de junho!

Que prendeu a mão na porta,
que andou de casaco de pele,
que dançou discoteque
e que eu vivo amando sem fim.

É aquela assim.
Eternamente no colo do avô.
E sempre no meu coração.

Menina do gato verde,
este gato é meu. Devolve!"

(Jean Boëchat )


 
Terça-feira, Junho 03, 2003
 
Eu luto, incansável, por esse poema ruim. Tanto que te mostro, desdenhando,
com um fiozinho de esperança de você gostar. Você logo rompe, junto com o
silêncio da leitura: a gargalhada que nem lâmina reluzente. Uma bolinha
vermelha surge na ponta do meu indicador direito. Bonito, o pedacinho de
carne, a fissura de precisão-facas-guinsu ou bisturi, tantofaz. Chupo sangue, você traga o cigarro e muda de assunto: uma lagarta listada. Nenhuma ternura em seus
cílios frios. Me conta uma coisa: porque eu não posso remeter publicar,
pegar o telefone e dizer esta carta? Sem nem chorar.
 
 
Ficções de Dois de Junho

O atirador faz tudo calmo e morno. Mesmo o sangue do baço perfurado. Mesmo o
sorriso de olhos fechados. Ganha o jogo quem acertar sem querer. O herói do
circo é o atirador de facas, aos olhos trêmulos da moça pregada na parede. O
atirador de olhos azuis não me deixa mais escrever. Também não queria...
Quero receber facas pelo corpo. O fio dos dentes do atirador de olhos azuis
partindo as minhas postas.
Ah, atirador... Era uma vez uma garota na ponte. Você sabe, não é? Toda a
história. Era uma garota à beira, eram olhos de correnteza que a fitavam lá
de baixo. Era. Até que um dia, um lugar, um frio, o atirador. E o tempo que
não chegava nunca. (O tempo era o personagem de múltipla personalidade,
inconsistente, incoerente. Nunca que chegava, nunca dava tempo de tudo.)
Atirador, você me tem retalhada, de olhos fechados, de olhos abertos, fixos
em seus olhos de correnteza azul. Enquanto você gira para atirar, meu
sorriso é doce e meus olhos continuam castanhos. Suas mãos, valente. E meus
olhos são castanho-escuros.
Enquanto você ganha meus seios e pele, enquanto, querido atirador, eu te
escrevo uma carta e mostro um caminho para suas lâminas, sei porque você
tenta me acertar sem querer. Me atire, a garota na ponte. O sorriso na
ponte, seus olhos de correnteza azul na ponte.
 
 
Porque Tudo é Muito Simples

O seu olhar
Arnaldo Antunes


O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu


Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu


O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu
 
Sexta-feira, Maio 30, 2003
 
A menina: Poliana, mas deve ser com ípsulon. Tem sete anos. Me vendeu um
tablete de jujubas coloridas noite dessas. Eu tomava Original e comprei
jujuba, porque eram onze e meia e ela bocejou. Estuda de manhã na "Escola
Municipal Presidente Qualquer Coisa". Acorda às seis, chega às sete. Contei
pra ela que sou preguiçosa, porque dia seguinte "vou trabalhar com sono."
Acordo às oito, chego às nove. Poliana acha uma semana muita coisa porque
quando ficou uma semana sem ir pra escola cansou de ficar à toa. Pegou minha
agenda de telefones do Dali, que namorei na livraria um tempão. Aí pediu,
que o que faz é pedir -"Me dá?" Eu disse não e ela foi folheando, de mãozinha suja e sem cuidado. Viu a menina da janela, viu os tigres abocanhando a moça, viu a língua de colhere disse que era esquisito. "O que é isso?" "O mamá dela. Derreteu..." Por fim, olhou a moça nua e vesga encarando um cisne ou ganso, sei lá. "Ah, esse é bonito! Tenho que ir." Saiu correndo muito moleca com seu cabelo crespo e arrepiado, como se fosse o parque municipal sábado à tarde.
 
Quarta-feira, Maio 21, 2003
 
Não-gos-to-de-fi-car-a-ce-so-en-quan- to-vo-cê-não-es-tá-por-per-to-o-su-fi-ci -en-te-pa-ra-sen-tir-o-chei-ro-dos-per-f u-mes-e-xa-tos-do-cor-po-i-ma-gé-ti-co-q ue-es-ca-pa-pe-las-ven-to-sas-do-chão-de -a-crí-li-co-do-meu-quar-to-en-lou-que-c i-do. Meuquartoenlouquecido.

Roubado do carioca
 
 
Presságios
Helenice Rocha, no Logo Lógos

Tenho fortes presságios às vezes
Nem sempre acerto o caminho
das profecias.
Minha presença é um sussurro
um débil pedido sobre o seu
descanso
Busco a equação da carícia
a gentileza sem nome
balbucio
como um personagem à deriva.
 
 
Estilhaço

não-tempo
não-espaço
não-medo
não-credo
no corte
no vértice
no conto
no fio

sem fim
sem amém
falta fim
às pontas dos dedos



 
 
É amanhã, Valente.
valente é quem me dá valentia
via correio aéreo.
Só amanhã, Valente, é que
conto o tempo
com aviso prévio.
Envio breve por escrito o alerta:
CUIDADO COMIGO
carta terrorista, letra de revista.
Antes prevenir,
não há remédio pra mim.
 
Terça-feira, Maio 20, 2003
 
Da filha de uma amiga, de dois aninhos:

- Mamãe, “peido” é feio né?
- É, filhinha.
- “Pum” é bonitinho, né mãe?
- É, filhinha.
- Mas os dois fede, né?
 
Segunda-feira, Maio 19, 2003
 
Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar.
na mesma base: deixa.

Torquato Neto


Primeiro passo é tomar conta do espaço.
Tem espaço a bessa e só
você sabe o que o que pode fazer do seu.
Antes ocupe. Depois se vire.
Não se esqueça de que você está
cercado, olhe em volta e dê um rolê.
Cuidado com as imitações.

Imagine o verão em chamas e fique
sabendo que é por isso mesmo.
A hora do crime precede a hora da
vingança, e o espetáculo continua.
cada um na sua, silêncio.

Acredite na realidade e procure
as brechas que ela sempre deixa.
Leia o jornal, não tenha medo de
mim, fique sabendo: drenagem, dragas
e tratores pelo pântano. Acredite.

Poesia. Acredite na poesia e viva.
E viva ela. Morra por ela se você
se liga, mas por favor, não traia.
O poeta que trai sua poesia é um
infeliz completo e morto.
Resista, criatura.

Sínteses. Painéis. Afrescos. Repor-
tagens. Sínteses. Poesia. Posições.
Planos gerais. "O Close-up é uma
questão de amor". Amor.

Eu, pessoalmente, acredito em
Vampiros. O beijo frio, os dentes
quentes, um gosto de mel.
 
Quinta-feira, Maio 15, 2003
 
versos livres doem mais
rimas arredondam
polimento, perfeição, curvas
gosto das arestas
do som que coça a garganta
do começo ao fim, sem premeditações
planícies, sunsets, papel timbrado
de língua
luto pelos versos nada livres
 
Terça-feira, Maio 13, 2003
 
Hoje eu me senti "Mothern". Minha menina maluquinha fica, às terças, quintas e em fins de semana alternados, na casa do pai. Desde que terminamos é assim, quando ela tinha um ano. E fizemos questão que ele tivesse essa convivência, não se afastasse do cotidiano. Essas coisas de dar banho, arrumar a comida, levar pra escola. E sempre foi um pai excelente, a única coisa que não fez foi amamentar. Aí ontem, ela disse que estava com saudade do pai.

- Mãe, eu quero meu pai.
- Você vai pra casa dele amanhã.
- Mas eu quero agora.
- Mas amanhã é terça e você vai.
- Mas não é um dia lá, outro dia aqui?
- Não filha. É terça e quinta lá e os outros dias aqui.
- Mas assim eu fico mais com você do que com ele.
- É.
- Mas porque?
- Porque os filhos ficam mais com as mães que com os pais.
- Porque?
- Porque os filhos precisam mais das mães que dos pais.
- Porque? O que você faz que meu pai não faz?
- ... Nada. Mas é porque todo mundo é assim. (resposta horrível pra se dar pra um filho, né?)
- Mas então porque eu fico mais aqui do que com ele?
- Ah, porque também o seu pai estuda à noite, tem as coisas dele pra fazer, não pode ficar todo dia.
- ...
- E também, quando você crescer, vai poder ficar com quem quiser o tempo que quiser. Só não pode deixar a mamãe com muita saudade...


Quem mandou criar uma menininha de cinco anos, topetuda, questionadora e feminista, né?
 
Segunda-feira, Maio 12, 2003
 
Li a historinha pra minha Menina Maluquinha e perguntei se ela gostou. Ela disse: "Gostei!" Aí eu perguntei se ela tinha gostado mesmo ou se ela não tinha entendido nada. Ela disse: "Não entendi nada, mamãe..." Ontem li de novo, falei pra ela me perguntar quando ela não entendesse. Aí expliquei pra ela o que era " buraco negro ", "suave", "alva", "poetisa", "intenso", "oceanos", "abismos", "esqueleto", "interrogações", "reticências" e "dois pontos". Depois disse que queria que eu lesse de novo outro dia porque ela podia ter "se distraído" e esquecido de perguntar alguma coisa. Em resumo, ela acabou com a minha história...
 
Sexta-feira, Maio 09, 2003
 
Com a história do concurso João de Barro, em que a prefeitura de BH premia contos infantis, pipocaram das gavetas de amigos historinhas inéditas. Eu catei uma, bem do fundo da gaveta, escrita com GH. Se tiver autorização dos autores (!) coloco todas aqui, porque são bem legais. Vira uma seção infantil. Aliás, se alguém que eu não sei também tiver uma historinha infantil guardada, me envie que eu coloco aqui, e ainda leio pra minha Menina Maluquinha, que pode servir de crítico.

A Bailarina e a Poetisa

Não que fosse um ser feito de nuvens, mas quem a olhasse com atenção veria um céu azul intenso num fim de tarde. As estrelas já despontavam no seu olhar de olhos muito grandes – não sei se assustados ou procurando por incertezas – só sei que tinha olhos grandes. Maiores que oceanos; mais profundos que abismos ou buracos negros. Porque aqueles grandes olhos maiores que tudo eram a própria alma da menina.
E, disfarçada como toda boa menina, esta tinha o mais belo de todos os disfarces e caminhava o seu andar flutuante com medo de sujar suas sapatilhas: era uma Bailarina.
Bailarinas sentem muito, coitadas... São maravilhosamente bonitinhas, mas têm o esqueleto de aço. E carregam meio mundo sobre ele. Mas continuam sorrindo. São florzinhas eternamente felizes.
E esta nossa Bailarina era a mais suave entre todas as bailarinas do mundo inteiro.
A Bailarina vinha sorrindo, caminhando em seu silêncio, muito feliz da vida, até que parou e ficou com uma cara que não sei não... E aquela cara parada, linda, uma lua no meio da praça, era um grande susto ao perceber aqueles dois olhos e muitas interrogações a lhe observar.
(era a Poetisa.)
A Poetisa também era uma menina. Mas era uma menina toda feita de interrogações, reticências e mudos dois pontos. Gastava o tempo a observar.... numa procura meio sonsa de algo que a fizesse sorrir e não a assustasse tanto. Vivia muito assustada. Seus olhos, maiores que os da Bailarina, eram do tamanho de suas angústias... Mas eram angústias bem vindas, como as de qualquer poetisa. Ela sabia deixar as coisas doerem, ao passo que a Bailarina só conseguia sorrir, rodopiando desesperada sobre suas pontas de gesso.
E a Poetisa flutuava com os pés descalços pela praça. Sua pele, tão alva que parecia feita de papel, tornou-se o próprio papel: mudo imóvel e branco.
É que a Poetisa andava com os olhos mais arregalados que o de costume por aqueles dias. Ela sentia coisas estranhas de vez em quando. Parecia que adivinhava o futuro. Mas não era vidente, não. Nem acreditava muito nessas coisas... Bola de cristal, então, nem se fala... “Eu acreditar numa coisa dessas?”, ela pensava. Mas ela, às vezes, acreditava nessas sensações estranhas... era como se o Senhor do Tempo dissesse pra ela:

- Ô, Poetisa... deixa de ser bobinha e fique de olhos bem abertos...
- Mas, Senhor do Tempo, meus olhos já são muito muito arregalados...
- Não é o bastante, querida...
- Não me chama de querida que eu não gosto!
- Tudo bem, então... me desculpe... mas me prometa que vai arregalar muito bem esses olhos enormes.

E a Poetisa arregalava os olhos... (mas ninguém percebia, não...)
E nesse dia, a Poetisa estava tranqüilamente flutuando descalça pela praça e de repente ficou muito assustada... Parecia papel mesmo... Com aquela brancura toda esperando que alguém escrevesse algo. É que ela tinha adivinhado o que o Senhor do Tempo estava tentando dizer pra ela.
Ela viu uma Bailarina... não, não... Não era uma bailarina... Era a Bailarina... Uma linda, suave e sorridente Bailarina...
Mas ficou muito sem graça quando viu que a Bailarina tinha percebido que ela, Poetisa, existia. É claro que a Bailarina não sabia que quem a olhava era uma Poetisa, porque se já soubesse, nem ia ficar tão assustada assim.
E a Poetisa viu tanta poesia naquela pluma que flutuava em sapatilhas que nem soube mais o que estava acontecendo... Na verdade ela ficou assim ó: ?!
E nem sabia de mais nada.
A Bailarina, meio muito mais assustada que a Poetisa, nunca havia sido olhada por uma folha de papel. Já estava acostumada a ter árvores, flores, passarinhos e joaninhas a observando e, às vezes, perguntando coisas pra ela... mas uma folha de papel olhando era pedir demais.
Ficaram sem saber o que fazer.
Poetisa queria fazer “plaft” e voar pra bem longe dali. A Bailarina só tentava pensar em dizer algo... “Mas o quê? O quê? Ela nem falou nada... imagina se nem está olhando pra mim... aí eu fico com cara de tacho e falo “ah, desculpa, pensei que você estivesse olhando pra mim... mas tudo bem... não liga não... eu sou meio aérea mesmo... e blá blá blá...”. Ela ficou tão concentrada nisso que até parou de flutuar... e acabou sujando suas sapatilhas.
A Poetisa mais que depressa saiu de seu eterno estado contemplativo e decidiu que tinha de fazer algo, pois bailarinas nunca podem sujar as sapatilhas... principalmente Bailarinas que dançam na nossa imaginação.
E aquela Bailarina... ah, como ela dançava... linda e flutuante...
Percorrendo cada canto da mente da Poetisa... e tudo isso em uma fração... um átimo de segundo!
A Bailarina se aproximou com a delicadeza de costume, deixou desconcertada aquela Poetisa com cara-de-folha-em-branco. Com a ponta dos dedos alongados, percorreu o rosto da Poetisa, da testa até o queixo. Nas pálpebras da folha em branco, deixou escrito assim:
“Só não morro de medo.”
A Poetisa nem quis pegar a mão da Bailarina: não era tão atrevida assim. A única coisa que a Poetisa queria era descobrir o que aqueles enormes olhos tentavam dizer.
A Poetisa, já nos olhos da menina, nem percebeu que eles estavam se fechando... continuou nadando, tentando descobrir... descobrir... Até que o sono chegou.
E os olhos da Bailarina se fecharam de vez.
 
Terça-feira, Abril 29, 2003
 
Em que há reticência


vinte e tantos dias de abril
tantos, tantos dias no céu de maio
alguns sabores cegos colhidos a esmo
pelo pasto céu de abril
só flores singelas neste pasto
o vôo chegou
a vista mais fresca atrás do cume da montanha espera meu insight, só então sua visita
coragem, vasto.
 
Quarta-feira, Abril 23, 2003
 
Roubado, mas vale pre mim também.

Pérolas e lagoinhas do feriado:
* Polders são coqueiros do Alasca
* A produção de sei lá o que fica na região Sudoeste do Brasil.
* A teoria que afirmava que a Terra seria o centro do sistema solar chama... geóide.
* Hum... esse ovo de páscoa deve ser de truta! (eu juro que essa não foi minha!!!!)
* República Federativa Brasileira. (essa foi....)
* No Natal a gente só se fode... a gente sai pra ver macacos e só se fode... a gente joga dados e só se fode...
 
Terça-feira, Abril 22, 2003
 
"é, deve ser isso: inaptas e loucas.
(risos)"
 
 
Não é possível evitar todos os maus pensamentos e ações, mas eles devem ser rejeitados logo que sao detectados. Volte rapidamente ao caminho correto e tudo ficara bem.






24-FU
Retroceder
Kun sobre Chen
Terra sobre Trovão
A imagem
trovao esta aumentando sua força por baixo da terra. A energia e a ação firme devem ter oportunidade de se desenvolver lentamente, a partir de um periodo difícil, que agora esta passando. Nenhuma ação prematura deve ser empreendida.
0 julgamento
A mudança cíclia de todas as coisas está agora, inevitavelmente, trazendo um tempo de ampliação. Nao há necessidade de correr para ele artificialmente, por meio de uma ação drástica.As coisas chegarão a seu próprio tempo:siga simplesmente a tendência corrente.
 
Terça-feira, Abril 15, 2003
 
Super-roubado
"meu bem, a conclusão é, meu
interlocutor não existe.
vivo aos pés de quem?"
 
 
Tenho saudade, porque com você tudo era simples e verdadeiro. Tudo era muito e simples, porque eu confiava em você. Porque você é verdadeira e segura e de instabilidade chega a minha. Tenho saudade de um grande amor, como você e eu. Grande, grande amor. Tenho saudade de ficar tão, tão feliz de deitar no seu peito e dormir a noite inteira no seu cheiro. Feito criança. Tão segura, tão quieta, calma. Você sempre me acalmou. Você sempre soube ver minha loucura. E fico patética assim, tentando me esconder como agora. Tenho saudade do amor que senti por você. Dos nossos planos, das nossas tardes no sofá, lendo, a sala arejada, a gata fugindo de mim. Das suas plantas, de varrer o seu chão, abrir o armário e ver minha escova de dente, meu "penhoar" de seda junto ao seu, nós duas elegantes e descabeladas, de chinelos havaianas pela casa. De ver você e minha pequena se entenderem fácil, fácil, de tantos e tantos momentos. De ser feliz assim tão fácil, só sabendo que posso ter o tempo livre, pegar aquele filme do menino que queria fazer balé e correr pra sua cama. Sabendo que é só apagar a luz e encontrar seu corpo com as mãos e conversar sobre qualquer coisa e você entender. Saudade calma, morna. Nostalgia. Não me falta você.
 
 
Momento familiar

Meu pai assiste televisão criticando os piores programas da televisão brasileira e portuguesa. Sim, porque ele fez questão de assinar RTP na tv a cabo. Os outros seres que querem ver televisão na casa já apelidaram de RTPM. Quando ele quer ficar sozinho na tv, coloca no bendito canal, porque ninguém mais suporta. O "show do milhão", ele assistia respondendo a cada pergunta do Sílvio Santos: "Que presidente americano morreu assassinado em Dallas?" - "Sua mãe" - era a resposta única para toda e qualquer pergunta. Hoje estávamos assistindo a Hebe, outra pérola que ele sempre gostou e eu acabei pegando gosto também. Não perco, toda segunda-feira. Eis que minha ídola Hebe Camargo olha para a câmera das propagandas e pergunta: "Você sabe qual o alimento mais consumido no Brasil?"
"Sua mãe."
 
Domingo, Abril 13, 2003
 
Um encontro
O repente
Coisa de pele, você sabe. Encaixe. Afinal, somos amigos acima dessas frivolidades. Passamos nossas horas ouvindo, dizendo, olhando.
Sua voz nua ao telefone

Até um dia
Um repente
Uma lua
Em aquário
Uma noite de curvas sob jogos de luz e sombra. Frivolidades de sorriso doce e torpe.
Uma noite de easy riders perdidos na rodovia. Eu sorrio e olho: sou toda quieta, assistindo a sua loucurazinha.
Uma noite pra Ter.
Não perco nada, não tenho nada, não quero
Menos que você inteiro.
 
 
com as mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação -

Do Uivo, Ginsberg
 
Segunda-feira, Março 31, 2003
 
21 de diciembre
Alejandra Pizarnick

Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.
 
 
Eu caminho entre as sombras
Eu caminho através das sobras
Eu caminho por entre as sombras
É por isso que o escuro é meu pesadelo
Eu caminho.
Foi surpreendente quando apaguei as luzes.
Eu percebi, não havia mais ninguém em casa.
E era até calma e confortante a penumbra, o ar fresco e as luzes da cidade.
É por isso que, agora, o escuro é meu pesadelo e eu não posso fechar meus olhos.

Se lembre das cicatrizes porque elas não ferem mais.
Eu caminho
E o momento em que há alguma memória
De luz
É quando eu percebo a sombra e caminho
E eu caminho
E quando já é fim do dia e o sol vem de lado sobre os prédios e a vista é bonita da janela mas a luz laranja não esquenta nem os olhos de dentro do ar condicionado
E quando
Eu caminho
E quando
É então.
 
Domingo, Março 30, 2003
 
"PRECISA-SE"


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo.
 
Sexta-feira, Março 28, 2003
 
18 de diciembre
Alejandra Pizarnick

Noche crucial. Noche en su noche. Mi noche. Mi importancia. Mí misma. La asfixiada ama la ausencia del aire. Memorias de una náufraga. Sueños de una náufraga. Qué puede soñar una náufraga sino que acaricia las arenas de la orilla.
 
Quinta-feira, Março 27, 2003
 
As quatro melhores músicas de todos os tempos. Começando pela primeira, necessariamente. Necessariamente com Billie Holliday. A segunda e a terceira necessariamente na voz da Nina Simone. A quarta só já ouvi com a Nina, mas diz a Flávia que com a Billie também é lindo. Eu viciei mesmo... As quatro se revezam nos meus ouvidos 24 horas por dia.

These Foolish Things

A cigarette that bears a lipstick's traces
An airline ticket to romantic places
And still my heart has wings
These foolish things remind me of you

A tinkling piano in the next apartment
Those stumblin' words that told you what my heart meant
A fairground's faded swings
These foolish things remind me of you

You came, you saw, you conquered me
When you did that to me
I knew somehow that this had to be

The winds of March that make my heart a dancer
A telephone that rings but who's to answer?
Oh, how the ghost of you clings
These foolish things remind me of you


How strange, how sweet, to find you still
These things are dear to me
They seem to bring you near to me

The sigh of midnight trains in empty stations
Silk stockings thrown aside, dance invitations
Oh, how the ghost of you clings
These foolish things remind me of you








I Put a Spell on You

I put a spell on you
'Cause you're mine

You better stop the things you do
I ain't lyin'
No I ain't lyin'

You know I can't stand it
You're runnin' around
You know better daddy
I can't stand it cause you put me down

I put a spell on you
Because you're mine
You're mine

I love ya
I love you
I love you
I love you anyhow
And I don't care
if you don't want me
I'm yours right now

You hear me
I put a spell on you
Because you're mine







My Baby Just Cares For Me

My baby don't care for shows
My baby don't care for clothes
My baby just cares for me
My baby don't care for cars and races
My baby don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Lana Turner's smile
Is somethin' he can't see
My baby don't care who knows
My baby just cares for me

Baby, my baby don't care for shows
And he don't even care for clothes
He cares for me
My baby don't care
For cars and races
My baby don't care for
He don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Liberace's smile
Is something he can't see
Is something he can't see
I wonder what's wrong with baby
My baby just cares for
My baby just cares for
My baby just cares for me









Love Me or Leave Me



Love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonely than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
There's no love for nobody else

Say, love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonely than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

Say I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
My love is your love
There's no love for nobody else

 
 
Esoterismo mulherzinha:

"Esta linha está relacionada à terceira, que é o companheiro que tem algo a dizer. A quinta linha é o vizinho. Aqui uma linha fraca encontra-se no clímax do choque e, portanto, não está à altura da situação. A comoção ameaça arruinar, assim como num terremoto; por isso o espreitar temeroso em torno de si. Tentar empreender alguma coisa nessas condições seria desastroso. Mas se uma pessoa toma a experiência do vizinho como uma advertência (neste caso, a quinta linha) e se mantém a calma, erros são evitados. A terceira linha, o companheiro, é forçada a se mover em virtude de sua situação e, por isso, não pode compreender por que a sexta linha permanece tranqüila. Porém, a diferença de atitudes é resultante da diferença de posição. Assim sendo, é preciso ser totalmente independente em suas ações."
 
Terça-feira, Março 25, 2003
 
A cama me deita, deixa
Acolhe
traz alguém pra me cuidar.
Algumas pílulas.
Meu passo maior que a perna
A cama não cabe em meus braços abertos.
You´ve got to feel it
in your bones
Alguém me diz.
Nem Quintana,
Quem virá?
O anjo abatido me mostra os caninos.
Eu não conjugo o verbo.
O verbo me mata.
 
 
Mal-me-quer

Segredos que conto só pra você
Assuntos proibidos. Pra quê?
Bem-me-quer
Menina - me sinto com uma margarida nas mãos.
Sonho que te amo, odeio e grito.
 
 
Me arraste um bonde, amor.
Me proteja quando eu sismar com
malabares e saltos mortais
Sou um perigo, amor.
Só não morro de medo.
 
 
Acordo pré-nupcial:
Libertas quae sera tamem.
Agora doeu de verdade
 
 
Vinte e cinco de março. Ando longe de tudo e de mim. Ando pra lá dos meus olhos, que são fundos, temendo ficar a sós comigo mesma. Ando buscando cada próximo passo, cada sensação, a palavra seguinte desse terço. Vejo o chão se formar no centímetro seguinte, quebradiço. Ando querendo o desejo pra mim.
 
Segunda-feira, Março 17, 2003
 
"Os morangos mofaram", ela disse, depois de morder meia fruta e espremer a outra metade aveludada entre os dedos.
 
 
- Eu sei de tudo o que você sente e faz.
- Eu estava ansiosa.
- Você disse.
- Eu estava ansiosa.
- Você é mais clara quando está longe.
- Você não sabe. Eu disse mas foi prematuro decidir.
- Eu sei de tudo. Aquela noite só havia nós dois.
- Você não se lembra.
- Eu me lembro de você.
- Três horas.
- Quinze minutos.
- As Horas.
- Eu sei o que você sente, acredita?
- Eu sou transparente. Eu quase não existo.
- Eu não vou até aí te beijar.
- Você sabe o que eu sinto, eu não preciso dizer.
- Uma semana.
- Eu tenho o que eu quero. Eu não sei mais o que eu sinto. mas não preciso, você sabe o que eu sinto.
- Você odeia estar errada.
- Eu odeio estar errada.
- Você não sabe se me quer.
- Eu não sei se eu te quero.
- Você está errada.
- Eu estou errada.
- Eu quero ver se te quero.
- Eu quero que seja.
- Eu sei.
- Eu quero você na palma da mão, na ponta da língua.
- Você sabe.
 
Sábado, Março 15, 2003
 
When You Sleep

when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

when you sleep
do they tremble on the edge of the bed
or do you fold them neatly by your head
do they clench like claws against your own skin
when you're living your day al over again

when you sleep
when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

do they play guitar in a latin bar
are they strangers or lovers
do they drive your car
are they swimming submissively
sex acts of life
or just cutting through jello with a very sharp knife

now zeus was a womanizer
always on the make
but hera usually punished her that zeus was one to take

when you sleep where do your fingers go?

are they pulling out weeds from the dusty soil
but then never rewarded with the fruits of their toil
are they scratching their nails on the chalkboards of death
only seeking attention when everyone in the room has left

when you sleep
when you sleep where do your fingers go?
what do your fingers know
what do your fingers show
where do your fingers go

when you sleep
do they tremble on the edge of the bed
or do you fold them neatly by your head

 
Sexta-feira, Março 14, 2003
 
Um brinde à ressaca, se bem que minha ressaca não é alcoólica, é de falta de sono mesmo. Acho que abstraí totalmente a necessidade de dormir. Não dormi terça, nem quarta e nem ontem por mais de cinco horas. Pra quem gosta de dormir dez, isso é um desafio.


Alcoólicas
Hilda Hilst


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)


 
Quinta-feira, Março 13, 2003
 
Olho muito tempo o corpo de um poema
Ana Cristina Cesar

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
 
Segunda-feira, Março 10, 2003
 

olhos miúdos miram meus lábios. Adivinham minha língua. Nem sonham.
Disparam, mas eu vou sorrir.
Você não sabe, Olhos Miúdos, mas eu vou saber.
 
Domingo, Março 09, 2003
 
Pra lembrar a Lapa, o Sargento, samba, suor e cerveja.


Agonizas mas não morre
(Nelson Sargento)


Samba
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro

Samba
Negro forte destemido
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro

Samba
Inocente, pé no chão
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram toda a tua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você não percebeu

 
Sábado, Março 08, 2003
 
Você não percebeu que falava de você.

Ana, você não é mais uma menina. É quase um bebê pedindo peito e acha que sabe de alguém. Ana, o nome disso é pretensão. O nome disso é tédio. O nome disso é umbigo. Umbigo é o centro da espiral. É o que liga ao lugar de onde você veio mas que já não pode ver. O nome disso, Ana, é ponto final.

Os meninos nadam cinqüenta metros enquanto eu penso. Ando entre as pessoas e coloco a ponta do pé na água. Finjo que não gostei e vou embora. E se a água estiver a vinte e oito graus centígrados? Os meninos fazem abdominais sobre a grama e algumas bitucas de cigarro úmidas. As mães estão felizes: os filhos não sofrem. Eles apenas saltam com perfeição em direção à margem oposta, alternam as pernas em movimentos curtos e decididos, flexionam os cotovelos e erguem os braços junto à cabeça. Respiram. Deslizam como golfinhos, centésimos de segundos mais e mais rápido. Golfinhos não sofrem.

Você acha que sabe, Ana, mas é tudo conversa fiada. Você sabe dizer besteiras, inventar raciocínios pra justificar suas falhas. Pra explicar porque se decepciona quando o mundo não cabe no espaço dos seus braços abertos. Afinal, você abriu os braços!

Faça o seguinte: como se estivesse sozinha, ande até a borda, olhe a água bem fundo, como se fossem olhos. Se abaixe e estique os dedos da mão para tocar a água. Sinta a temperatura e depois pense. Decida então se mergulha. Caso entre na água, forme uma opinião. Sente-se no fundo, de pernas cruzadas (caso tenha dificuldades de afundar, é só esvaziar o ar dos pulmões), abra os olhos se não tiver cloro de mais. Pense amenidades.
 
Sexta-feira, Março 07, 2003
 
E a cidade ainda avisa:
"O pôr do sol é de quem olha."
 
 
Aviso de perda
Enzenberger (estou amando o livro, Fábio!)


Perder os cabelos, o controle,
entendem o que eu digo, o tempo precioso,
numa batalha perdida perder
a altivez, o brilho, lamento,
não faz mal, perder por pontos,
não me interrompam, perder
sangue, o pai e a mãe,
perder uma vez mais, num piscar
de olhos, o coração perdido
em Heidelberg, perder o encanto
da novidade, são águas passadas,
os direitos políticos, ah bom!
a cabeça, Deus do céu, a cabeça,
caso seja indispensável,
o paraíso perdido, não estou nem aí,
o emprego, o Filho Pródigo,
o prestígio, bons ventos o levem,
perder um molar, duas guerras mundiais,
perder três quilos de excesso de peso,
perder, sempre só perder, inclusive
as ilusões há muito perdidas,
e daí, nenhuma palavra
sobre os esforços perdidos,
mas nenhuma mesmo, perder
a vista de vista, a inocência,
que pena, perder-se, perdido
em pensamentos, na multidão,
não me interrompam,
o juízo, o último centavo,
deixa pra lá, estou quase terminando,
a compostura, o senso do ridículo,
perder tudo de uma vez,
até mesmo, ai, o fio da meada,
a carteira de habilitação e a vontade.
 
Domingo, Março 02, 2003
 
Esta noite dormi nua e casta pra pensar em você.
No quarto escuro, um pouco quente do verão, a janela aberta, imaginei não as cenas de sexo de livros para moças
mas algumas conversas insones e os faróis marcando a sombra da janela no teto.
 
 
Beira do mar
Lugar comum
 
 
O Rio de Janeiro não me deixa pensar. Estou feliz e tenho medo, claro. Existe algo a perder.
 
Quarta-feira, Fevereiro 26, 2003
 
E seu encontrasse no hall do grande teatro a mulher da minha vida? Passeando às três da tarde de quinta-feira. Ou o homem da cabeça de papelão? E se eu dissesse que quero o homem da cabeça de papelão e sorrisse para ele? E se eu, que sempre me atraso, me atrasasse um pouco mais, pra ver se encontro a mulher da minha vida ou o homem da cabeça de papelão. Ou vou sempre me torturar porque, em cinco minutos, talvez um dos dois passasse por ali. Lendo um panfleto, olhando distraídos mensões honrosas nos painéis. Mas não. Porque no meio de tanto mármore fresco e luz natural, todos se conhecem e se comprimentam. Só eu me sento sozinha, insegura e ignóbil no banco de madeira ao centro do salão. E nem assim me noto. Não me vejo dentro da cena. E quando passarem, de mãos dadas, a mulher da minha vida e o homem da cabeça de papelão, estarei presa, petrificada de mármores no centro da sala, dizendo que gosto do estilo e que o casal combina.
 
 
Quero.
Quando não tenho nada a dizer.
 
 
Estou de férias. E depois de amanhã vou visitar Dearest e sua cidade maravilhosa. Internet só quando tenho saco. Não tem acontecido muito.
 
 
Na verdade é impossível ter palavras pra um gesto tão mudo e cheio de significados. Nunca vou conseguir dizer alguma coisa. Nem sei mais. Fiquei feliz, acho que era o que eu queria dizer. E estava mesmo pensando em quando eu estava grávida, o quanto você foi bacana. E o quão bacana é você. Você é mais que família.
 
 

Estou sem palavras pra você. Assim que tiver algumas te escrevo.
Por enquanto, muitos beijos emocionados. Amo você.

Irmã.
 
Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003
 
Quinze de abril. Nada diário. Nem o ônibus, nem a caminhada, nem o sol. O verão é um lugar, o apartamento é um lugar. Três da tarde é um lugar. Quando te encontro? Onde está o tempo que me cabe? Onde você se escondeu? Ou você me ensina a não ter?
 
 
Houve um primeiro amor. Quando fui embora, ele me deu um livro importante. Tinha “Eterno” no título. Eu nunca li. Já se passaram anos e eu nunca li. Não tivesse dedicatória daria de presente porque chegou tarde.

 
Segunda-feira, Fevereiro 17, 2003
 
Tá, continuando a discussão astrológica com Pola e GH, é o seguinte: a diferença é que você se preocupa com o que os outros disseram ou pensaram em algumas situações. Mas aí você resolve sempre ligar o “foda-se” e beijar na frente da sua amiga que nunca te viu com uma mulher, dançar de rostinho colado no mesmo recinto que o governador do seu Estado, fazer um blog onde fique óbvio pra quem te conhece que se trata de você e mesmo assim não Ter nenhuma censura etc, etc, etc. Esse é o espírito aquariano. E viva a era de aquário!!!!!!!!!
 
Terça-feira, Fevereiro 11, 2003
 
Estava esperando criar corpo pra colocar aqui. Já tem algumas coisas mas ainda não está bonitinho. Aliás, se alguém quiser fazer a caridade de nos doar um layout... As meninas são boas, podem ir lá ver uma "conversa de senhoras".

 
Domingo, Fevereiro 09, 2003
 
Irresistível!



Você é qual personagem em Cavalo de Fogo??
 
Quarta-feira, Fevereiro 05, 2003
 
Bermuda Larga

muitos lutam por uma causa justa
eu prefiro uma bermuda larga
só quero o que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato

Chacal
 
 
"Sentimento materno em dias cinzentos"?
 
 
Antes da chuva, depois da chuva, as poças no caminho e quando só faz sol?
 
 
Não consigo mais pensar. Não aguento mais trabalhar. É sério.
 
 
Eu sei que é grande mas vale a pena. Sebastião Nunes, em coluna do Tempo, de BH, falando sobre a “praga” de poetas atual, classificou as “castas poéticas” em:

Poetas federais-federais:
São raros e escolhidos pelos deuses. Em um século, podem ser contados nos dedos das mãos. Nem sempre fazem sucesso. Pelo contrário, costumam dar com os burros n´agua. Como poesia não é moeda de troca, pois não vale nada, os bons poetas vivem à míngua. Para sobreviver, precisam se pendurar num cabide público, em agências de propaganda, ou numa faculdade qualquer para pagar o aluguel e cobrir o fundo da geladeira. Costumam ler de tudo, inclusive em várias línguas. Não dou exemplo porque não sou besta de mexer em caixa de marimbondo.
Poetas federais-estaduais:
Seu número já é bem maior. Federais pela vida literária e estaduais pela obra, falam pelos cotovelos, freqüentam academias federais, pedem “orelhas” a intelectuais de peso e publicam livros por editoras pequenas. Simpáticos, agradam a gregos e a troianos. Poucos lêem seus poemas, mas isso não importa. Nos lançamentos, os amigos fazem fila. Freqüentam colunas sociais federais e estão sempre pendurados nos primeiros escalões dos governos. Lêem autores brasileiros e traduções. Não dou exemplo porque não enfio mão em cumbuca.
Poetas federais-municipais:
Pequena multidão. Vivem de fofocas e em grupos. Formam associações nacionais e até mesmo internacionais. Falam os diabos dos poetas federais-federais e têm verdadeiros ataques de ódio quando um deles dá entrevista na grande imprensa. Todos se parecem entre si. Também freqüentam colunas sociais, só que estaduais, e penduram-se confortáveis em cargos de quinto escalão. Sua cultura se resume a folhear um livro de vez em quando. Não dou exemplo porque seguro morreu de velho.
Poetas estaduais-estaduais:
São tantos quanto as cidades brasileiras. Fundam revistas que duram dois números, às vezes três. Nelas, são os maiores do mundo. Também nelas, publicam artigos, entrevistas e ensaios elogiando-se uns aos outros. Poetas federais-federais não entram. Poetas federais-estaduais também não. Só entram eles mesmos, seus descendentes e ascendentes. Conseguem bons empregos como assessores de secretários estaduais e chefes de sinecuras públicas. Costumam ganhar prêmios estaduais e municipais, que divulgam como federais e até internacionais. Se informam pela TV. Não dou exemplo para não cair do cavalo.
Poetas estaduais-municipais:
Equivalem ao número de automóveis que circulam em São Paulo. Também fundam revistas que distribuem nos quarteirões onde moram. Participam de missas, velórios, reuniões de condomínio, torcidas organizadas, associações de pais, grupos de caridade, ONGs. Aproveitam tais eventos para distribuir poemas impressos em casa. Tímidos, espiam de longe o sucesso dos poetas federais-federais e até dos federais-estaduais. Procuram subir para o nível dos estaduais-estaduais, mas nunca conseguem. Bons profissionais, costumam ficar ricos. Seus poemas são piegas e fazem chorar as vizinhas mais sentimentais. Nunca ganham prêmios, exceto municipais, mas culpam por isso o despreparo intelectual das comissões julgadoras. Leram 20 livros. Não dou exemplo porque de pensar morreu um burro.
Poetas municipais-municipais:
São incontáveis. Tantos quantos os grãos de areia das praias do Espírito Santo. Não levam poesia muito a sério, mas escrevem de vez em quando. Seus temas preferidos são mendigos, velhinhas desamparadas, crueldade com os animais, borboletas e os netos. Cometem erros monumentais de lógica, rima, ritmo, ortografia, história, política e o diabo a quatro. Usam epígrafes de músicos populares e autores de auto-ajuda. Têm vergonha de publicar em livro os poemas. Em compensação, a Internet vive cheia deles. Todo dia remetem milhares de e-mails para conhecidos e desconhecidos. Quando, por acaso, sai uma linha na imprensa a seu respeito, mandam cópia até para o capeta. São alegres, sadios, bons pais, bons maridos e muito amigos de seus amigos. Quando jovens, escreviam versos para arranjar namorada. Depois de velhos, continuam a escrever do mesmo jeito. Sua cultura parou no primeiro grau já leram uns dez livros. Não dou exemplo porque não sou besta.
 
Quarta-feira, Janeiro 29, 2003
 
De Prestes para Olga
Fragmento de carta do livro “Anos Tormentosos"

“Rio de Janeiro, 16/07/1937,

Minha pequena querida,

Escrevo-te, hoje, para enviar-te notícias e para responder tua bela carta de 2 de junho, a qual, como as outras anteriores, me proporcionou uma grande alegria. Imagina que não tenho aqui ao menos um pequeno dicionário de francês... Preciso, portanto, de uma grande coragem e uma imensa vontade para escrever em nossa linguagem comum.
Falemos, antes de tudo, de nossa pequena Anita Leocádia. Tu me perguntastes em tua carta se gostei do seu nome. Mas ainda na minha primeira carta, é verdade que de uma maneira indireta, eu te dizia de como estava feliz com o seu nome. Naturalmente, eu teria lhe dado o nome de Olga Leocádia. Mas tua imaginação, bem mais rica do que a minha, encontrou um nome de significado mais amplo e bem mais justo para o momento e a situação. E Olga ela será sempre, porque ela é uma parte de ti mesma, um verdadeiro milagre de tua dedicação e de teu amor. Hoje já não posso ver-te sem ter em teus braços esta pequenina, que é toda a nossa vida. Lembro-me muito bem desta reflexão de que falas em tua carta e vejo na prática que, mesmo após uma tão longa separação, ama-se sempre mais, quando se ama de verdade. E nossa separação foi bem triste e bem dura, querida. Tu me perguntas se recebi tuas cartas e um telegrama. Não. Eu nada recebi (...)".

“Anos Tormentosos" _ De Luiz Carlos Prestes. Organização de Anita Leocádia e Lygia Prestes.
 
Segunda-feira, Janeiro 27, 2003
 
Como tudo era tão Chagal. Antes. Antes daquele prédio, logo antes de virar aquela esquina. Aquela anterior à praça que já teve coreto. Antes, quando eu era uma bailarina,
Não, engano seu. Meus olhos não eram fortes antes. E hoje talvez seja só maquiagem. Mas o que interessa é antes. Porque afinal, antes daquela praça não havia ainda chuva, eu não estava encharcada e não era obrigada a sorrir discreta quando tinha vontade de andar bem devagar na chuva. Antes, os bicos dos meus seios não estavam à mostra sob a blusa molhada, o velho truque das dançarinas de cabaré. Cabaré? Cabaré era antes. E eu não precisava escondê-los com as mãos, nem ficar tensa ao sentir que o melhor, antes, era abrir os braços e pisar nas poças. E antes eu não era melhor. Não era mais bonita, talvez nem cinco minutos mais jovem. Talvez nem mais vistosa. Antes, a chuva não havia me pegado de surpresa no meio do caminho, eu não havia ficado sem graça, sozinha, andando escondida com as mãos nos seios. O que importa é que eu sabia que o melhor era gargalhar.
 
 
- Quando eu crescer vou ser pai do meu pai.
- Não, quando você crescer, o seu pai vai ser velhinho.
- É, aí, quando ele estiver bem velhinho, ele vai lá no cemitério morrer. Ele vai deitar no caixão e dormir. Morto.
 
 
Não ficaram ruins meus bolinhos de chuva. Os meninos gostaram. As vezes eu sou muito mãe, mesmo.
 
Sexta-feira, Janeiro 24, 2003
 
Não acabou...

Insensatez

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah! Porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah! Meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado
Vai meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai meu coração
Pede perdão, perdão apaixonado
Vai porque não pede perdão
Não é nunca perdoado



Ou



How Insensitive
How Insensitive
I must have seemed
When she told me that he loved me
How unmoved and cold
I must have seemed
When she told me so sincerely
Why she must have asked
Did I just turn and stare in icy silence
What was I to say
What can you say when a love affair is over
Now she's gone away
And I'm alone with the memory of her last look
Vague and drawn and sad
I see it still
All her heartbreak in that last look
Why she must have asked
Did I just stare in icy silence
What was I to do
What can one do when a love affair is over





Você vai ver

Você vai ver
você vai implorar me pedir pra voltar
e eu vou dizer
dessa vez não vai dar
eu fui gostar de você
dei carinho, amor pra valer
dei tanto amor
mas você queria só prazer
você zombou
e brincou com as coisas mais sérias que eu fiz
quando eu tentei
com você ser feliz
era tão forte a ilusão
que prendia o meu coração
você matou a ilusão
libertou meu coração
hoje é você que vai ter que chorar
você vai ver





Pelos ares

Não lhe peço nada
Mas se acaso você perguntar
Por você não há o que eu não faça
Guardo inteira em mim
A casa que mandei
Um dia
Pelos ares
E a reconstruo em todos os detalhes
Intactos e implacáveis
Eis aqui
Bicicleta, planta, céu,
Estante cama e eu
Logo estará
Tudo no seu lugar
Eis aqui
Chocolate, gato, chão,
Espelho, luz, calção
No seu lugar
Pra ver você chegar




Cinco Minutos

Pedi você
Prá esperar 5 minutos só
Você foi embora
sem me atender
Não sabe o que perdeu
Pois você não viu,
você não viu...
Como eu fiquei
Pedi Você
Prá esperar 5 minutos só
você foi embora,
embora, embora
sem me atender...
pois você não viu,
não viu, não viu
como eu fiquei
dizem que foi chorando,
sorrindo, cantando
Os meus amigos,
meus amigos, até disseram
Que foi amando, amando
Pois você não sabe,
você não sabe
E nunca, e nunca,
E nunca, e nunca,
E nunca, e nunca,
Vai saber porque
Pois você não sabe
quanto vale cinco minutos,
Cinco minutos na vida




Só Tinha De Ser Com Você

É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que o mundo não vê
O amor que chegou para dar
E que ninguém deu pra você
O amor que chegou para dar
E que ninguém deu pra você
É, você que é feito de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonito demais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
E você sempre foi só de mim




Quero esquecer você
Quero esquecer você
mas não consigo porque
por você eu me enfeiticei
por você eu me enamorei
Sei que não devo
querer ser tanto assim
pois esse desejo
é proibido para mim
Mas foi aquele beijo
sem querer que você me deu
que meu amor por você nasceu




Onde Andarás

Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces de mim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces...
Eu sei, meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela, perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve... eu sei





Você vai ver
Você vai ver
Você vai implorar me pedir pra voltar
E eu vou dizer
Dessa vez não vai dar
Eu fui gostar de você
Dei carinho, amor pra valer
Dei tanto amor
Mas você queria só prazer
Você zombou
E brincou com as coisas mais serias que eu fiz
Quando eu tentei
Com você ser feliz
Era tão forte a ilusão
Que prendia o meu coração
Você matou a ilusão
Libertou meu coração
Hoje é você que vai ter de chorar
Você vai ver

 
Terça-feira, Janeiro 21, 2003
 
Não vendo fiado.
Favor não insistir.
 
 
Só digo até não me comprometer. Pés, papéis, olhos, boca, joelhos, cacos. Me guardo num mosaico. Só sabe quem espia pelo buraquinho. Surpresa, me ofereço aos pedaços. Mutilada, em grossas postas, talvez entenda melhor a matéria de que me faço. mas, em tempos modernos, não abro mão do anonimato. Depois de me ver na bandeja, escondo o nome, me perguntam o que faço, do que vivo, como sou, a quem devo explicações(?). Mas, se mostro o resto, arranco a pele. E vice-versa. E ponto final.
 
 
Depois De Ter Você

Depois de ter você
Pra que querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que é que serve
Uma canção como esta?
Depois de ter você
Poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas
Pra que amendoeiras pelas ruas?
Pra que servem as ruas?
Depois de ter você...



Samba do grande amor

Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim o grande amor mentira
me atirei assim de trampolim fui até o fim um amador
passava um verão a água e pão dava o meu quinhão pro grande amor mentira
eu botava a mão no fogo então com meu coração de fiador
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor mentira
Fui muito fiel comprei anel botei no papel o grande amor mentira
reservei hotel sarapatel e lua-de-mel em Salvador
fui rezar na sé pra São José que eu levava fé no grande amor mentira
fiz promessa até pra oxumaré de subir a pé o Redentor
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande
e dou risada do grande
e dou risada do grande
e dou risada do grande amor..
menti-ra..



Joana Francesa

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda



Disfarça e chora

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outro
Ò triste senhora
Disfarça e chora
Todo pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar, só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E seu pranto ò triste senhora
Vai molhar o deserto
Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora



Eu amei

Eu amei
E amei, ai de mim, muito mais do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer e me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza aconteceu você
Encontrei
Em você a razão de viver e de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste quando se desfaz



Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto,
E que no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes,
velhos fatos,
Que num álbum de retratos,
Eu teimo em colecionar.
Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes,
noites claras,
Versos, cartas, minha cara,
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado,
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu cora- ção
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu cora- ção



Dor de Cotovelo

o ciúme dói nos cotovelos
na raiz dos cabelos
gela a sola dos pés
faz os músculos ficarem moles
e o estômago vão
e sem fome
dói da flor da pele ao pó do osso
rói do cóccix até o pescoço
acende uma luz branca em seu umbigo
você ama o inimigo
e se torna inimigo do amor
o ciúme dói do leito à margem
dói pra fora na paisagem
arde ao sol do fim do dia
corre pelas veias na ramagem
atravessa a voz e a melodia.
 
 
"oi.

é só pra dizer que a fitinha chama "fragmentos de um discurso amoroso: disfarça e chora". diz qui eu tucanei "o fino da fossa".

pois é.

e a cristina disse que "é preciso entender o engatamento neurótico" que existe entre nós duas.

eu ri. mas ela disse que "querer e não querer" é neurose. então, não é coisa de escorpiano. é coisa de mim mesmo. o fábio tá errado.

mas tá valendo. e continua o que eu te pedi... "não me procure mais/não me lembre/ cada um sofre pro seu lado". ESTILHAÇO, do cacaso, mais uma vez salvando a pátria.

pelo menos por uns tempos. a cristina falou que isso dura, normalmente uns três meses. eu ri. mas ela confirmou. e então tá. tomara que seja mais ou menios isso.

tudo da cristina é três meses.

então, que tudo fique bem por aí. "
 
Segunda-feira, Janeiro 20, 2003
 
Direito de Resposta

Um dia cinza em janeiro. Todas as bossas. A chuva estiou. Todas as Joanas Francesas, V de vingança. Um samba-canção pra ter ironia. Uma fita cassete noventa minutos e você me toma até o samba do grande amor. Grande amor. Merece até vingança.
 
Quinta-feira, Janeiro 16, 2003
 
Dia desses, ela veio me explicar porque não se pode deixar nada prendendo a circulação no pulso, no braço ou nos dedos.
- Mãe, sabia que não pode deixar nada apertando aqui?
- É mesmo? Porque?
- Fecha a sua mão bem forte.
- Ãh.
(ela empurra o dedinho pelo buraco dos meus dedos fechados)
- Viu? Não passa. Quando alguma coisa aperta, o sangue também não passa.
- Sei. Mas pra quê o sangue precisa passar?
- Pra chegar ao coração, ué.
- Mas pra quê o sangue tem que chegar ao coração?
(pausa)
– Pra colorir o coração de vermelho.
 
 
Menina Maluquinha, fazendo hora pra escovar os dentes em uma casa em obras:

- Mãe, quero a minha pasta de dentes. (é daquelas com gosto doce)
- A sua acabou. Escova com a outra.
- Ah, não, não quero pasta ardida.
- Mas só tem dela, não vai Ter jeito.
(ela vai falar pro avô, pra avó, pro tio, pro papagaio e pro peixinho que acabou a pasta dela. Escuto os passinhos no corredor e o barulho de uma coisa caindo. Ela chega.)
- Mãe, vai Ter que comprar uma escova de dente nova pra mim.
- Porque?
- Por que a minha caiu no chão.
- Não tem problema, lava.
- E se cair na tinta?
- Aí você toma um coro.
 
 
Eu engasgo nos olhos quando leio seus e-mails. “Engatamento Neurótico”. Deve estar nos anais da psicologia louca das nossas psicólogas. Elas deveriam fazer terapia de casal.
 
 
“Bom, você joga. Se der água, é só batalha naval!”
 
 
Quando eu for gente grande quero escrever assim.
 
Quarta-feira, Janeiro 15, 2003
 
Fiz figa. Inventei superstições. Sonhei acordada. Nem dormi. Te inventei também. Me inventei também. E tudo que existe, não é de mentirinha?
 
 
Ah, minha amada me perdoa, pois embora ainda te doa a tristeza que causei

Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas por um mal que já paguei
 
Quinta-feira, Janeiro 09, 2003
 
Será que eu tenho o que dizer? Claro que não! Que pergunta... Dormi pouco. Estou bem. Vendo o dia nublar e o céu aparecer várias vezes da janela desse escritório estúpido. Está bom trabalhar. Agora chove, me deu preguiça de ir embora. Porque já posso. Liberdade é engraçado.
 
Quarta-feira, Janeiro 08, 2003
 
Atemporais
de Pedro Amaral

"um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê."
Luís de Camões

Como será que o amor,
Ou seja lá o que for,
Como será que isso consegue

Embrenhar-se nessas pequenas coisas
Tolas — olhar, sorriso, rubor
... Tão pequenas que mal se as percebe?

Como é que isso pode se imiscuir
No gesto mínimo de partilhar
— Idéia, cigarro, lugar,
De modo que não se o possa omitir?

Como, e aliás, com que direito
Ela vem, adentra meu vazio,
Se assoma nele, e com efeito,
Deita-me a sonhá-la horas a fio?

(do livro "Vívido", editora Sette Letras, 1995)
 
 
Soltem as feras! E que venham armadas à altura, que hoje sou maior que algumas estrelas. Amanhã não sei, então andem rápido e abram as comportas para a água entrar. Se protejam, eu vou virar água e seguir contra a enxurrada, andar sobre a queda, profetizar.
 
 
Discutindo relacionamento, segundo Freud, Dr. Psicóloga e GH - Uma aula de psicologia de butequim

- Te procurar é como chamar meu pai quando eu tinha medo do escuro à noite.
- É?
- É.
(...)
- Mas você acha mesmo que eu sou igual a seu pai?
- Não sei. O que significa ser igual a meu pai?
- Significa que eu sou um estepe.
- Não!
- Sim! É sim, eu sou um estepe pra você.
- Não é não. Porque não é qualquer pessoa.
- Como assim?
- Estepe pressupõe que qualquer pessoa serve.
- Então eu sou um estepe fixo.
- Mas aí é uma contradição. Um estepe nunca é fixo, por definição.
- Então eu sou um macaco.
(...)
 
Terça-feira, Janeiro 07, 2003
 
Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço. . . .

Paulo Leminski
 
 
"Será que vendem morfina para míopes?" (roubado da Giu)
 
 
Minha doutora-salvadora-psicóloga "não está me reconhecendo". Essa foi ótima. Bom, espero que eu não me reconheça em alguns dias. Espero que eu pare este blog, que eu pare de escrever, que eu fique normalzinha. Espero que eu não queira tanto da vida. E que eu consiga saber que as estrelinhas que eu vejo do mísero quadradinho da minha janela, nem elas, não cabem na minha cabeça.
 
Sábado, Janeiro 04, 2003
 
Eu vou te esquecer completamente. Não vai ficar nada. Não fica nada. Não é assim. É assim. Então vai embora. Não vou. Não adianta porque eu não vou. Eu vou esquecer. Eu me lembro. Mesmo que eu não queira eu me lembro. Mesmo que você se esqueça até de você, eu me lembro.
 
 
A urgência me move, me faz andar em círculos, chegar à urgência. A urgência é ainda móvel mas já tem um tremor por dentro: vê-se pela caligrafia. A urgência é a falta me deixando cega, me cegando a vista.

 
 
“sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro”
Clarice, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”

 
 
Como pude me esquecer do clássico: "Natal"? E de sua óbvia continuação "Ano Novo"? O segundo, como de praxe, é mais fraco que o primeiro. Não chorei.
 
 
Sentimentalismo barato, baratíssimo.


"Fale com Ela" - Chorei.
"Iris" - Chorei.
"Filme em que a Meg Rian é alcólatra" - Chorei.
"Filme em que se discute um namoro que já acabou muito muito muito bêbada, em que se ouve a descrição detalhada da tatuagem da atual da sua ex" - Chorei
"Continuação do filme anterior, quando a ex diz que dois anos de um namoro que mudou a sua vida, matou você de tristeza e felicidade não significou nada" - Chorei (Ah! Bêbada, claro.)
"Filme em que se espera o telefone tocar eternamente" - Chorei.
"Filme sobre a vida do chato do Paul com os piores atores do século" - Chorei.
"Alta fidelidade", pela milésima vez - Chorei.
 
Quinta-feira, Janeiro 02, 2003
 
Estou muito mulherzinha pro meu gosto. Eu e Pola. As coisas têm sido estranhas nesse fim de ano. Algumas pessoas novas, umas pessoas que pra mim eram só imaginação. Minha imaginação é fértil como a de uma menina de dez anos. Desde os dez anos. "Já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar." Sim, tenho ouvido Tribalistas escondido, como diz a Laura. E sonhado muito, acordada, dormindo, como nos dez, nos quinze e nos vinte anos.
 
 
Quero falar com alguém. Alguém pode me atender por favor?
 
Sábado, Dezembro 28, 2002
 


Tatiana,

Me disseram que você enxerga como se tudo fosse de pedra, em preto e branco, sem cheiro e sem calor. Imagino como seria a avenida Paraná sem cheiro. Um shopping center, você deve enxergar. Com um burburinho constante, sem definir sons e vozes, como as dos homens que gritam na avenida Paraná.
Você sabe que quando crescemos o mundo vira outro? Que bebemos cachaça pra dançar? E que andamos de jeito esquisito porque pensamos em como os outros estão nos vendo andar? Eu, por exemplo, pequena Tatiana, uso óculos escuros pra poder olhar para os olhos sem disfarçar. O maior disfarce. Sempre tenho que me preocupar em não virar o rosto ao olhar, não é? Ou então iriam me descobrir...
Mas nada como a esbelta senhora em que me transformarei. Não somos mesmo nós quando crianças. Ou quando velhos.
Você sabia que quando você ficar velha vai pensar diferente? Vai enxergar diferente, vai ouvir diferente, vai andar diferente. Seu tato será outro e, quando te abraçarem, será de outro jeito.
Mesmo as coisas que você escutar, também estarão velhas. O volume estará mais baixo, pelo menos.
E quando ficarmos velhas, Tatiana, será que os anjos virão nos visitar? Seremos pobres mulheres com medo da morte. Como hoje temos medo do escuro. Talvez alguma criança menos educada diga que não quer um abraço, porque a pele é esquisita, mole, cheia de dobras e áspera. É verdade mesmo...
E não corra, Tatiana. Porque eu vou segurar seu braço pra contar o que quero. Não é pra correr ou baixar os olhos. É simples assim: uma verdade. Não sinta medo só porque meus olhos não tem rumo. Talvez quando você for velha fique assim. Quando esperar seus filhos fazerem compras conversando com estranhos no banco em frente ao caixa do supermercado. Quando você for velha seus filhos não terão onde deixá-la para ir fazer compras. Quando você for mãe, dirá aos seus filhos que eles fracassaram. Tantas vezes quantas forem necessário para saciar sua mágoa pelo fracasso dos seus filhos. Quando você crescer, vai abrir a boca e se encher de lua. Vai caber. Quando você crescer, vai caber tudo o que não quiser em você. E isso é natural, Tatiana. É muito normal nas famílias que existem por aí. Você será assim e não sentirá culpa. Sim, querida, a gente apodrece muito rápido mesmo. A propósito, é Tatiana o seu nome, não é?


 
Sexta-feira, Dezembro 27, 2002
 
Tudo calmo no país das maravilhas. Rá, “maravilhas”... Tudo calmo, enfim. Doroty continua feliz para sempre e Lori Lambe não saiu do lugar. Entra ano, sai ano, a mesma loucura. Dizem os astrólogos que 2003 será calmo para os aquarianos. Rá! Calmo, aquário. Só se for o do peixinho aqui de casa. Não que eu não queira calma. Tudo que eu queria era um pouquinho mais de calma. Mas eu me conheço. Agora que me conheço, sei que na próxima esquina vai passar um trem. De duas uma: ou ele me passa por cima ou eu passo por cima dele. Tudo bem, eu podia entrar, dar uma voltinha, mas é muita calma pra mim. Talvez esteja aqui de castigo, como Ulisses colocou a outra Lori. Só que sem Ulisses. Bom, a vida continua pra todo mundo e eu continuo dançando como uma louca. Talvez nem tenha percebido meu castigo. Não aprendo a lição. Mas esse ano vou entrar na academia da Pola, vamos fazer musculação (!), vou comprar uma bicicleta e talvez casar. Talvez um carrinho, mudar de casa, pelo menos. Olho pra trás e custo a crer que tenho 22 aninhos. Nem faço retrospectiva, pra não desesperar. Começo pela última passagem de ano, eu buscando GH às 23:40 na porta da Telemarte. E acabo o ano aqui, nem sei como, nem sei de nada. Dá medo do que me espera no próximo verão. No próximo agosto. Socorro! Alice, segure forte a minha mão antes de entrar no buraco do coelho. É com você que vou dormir esta noite.
 
Quarta-feira, Dezembro 25, 2002
 
Ah, antes que eu me esqueça, muito feliz natal e próspero 2003 pra todo mundo. é que não gosto muito dessas datas não. Sei lá porque. Nada dramático não. Ninguém morreu, ninguém cometeu suicídio, eu não tenho nenhum trauma. Mas acho um saco e fico meio melancólica.
Só é bom pela Menina Maluquinha. Aliás, é maravilhoso.
 
 
O mundo é azul -
de que cor é o amor?
O mundo é blues,
o amor dói muito mais.
 
 
Foi dia 24 de dezembro, o encontro de assombrar. Na catedral, claro. Doze anos depois, quem não tem uma música assim? Sempre haverá uma música pra amores assim.


 
 
Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia.
Oceanchild
Seashell eyes, windy smile
Morning moon, touch me
Sleeping sand, silent cloud, touch me
So I sing a song of love.
 
Quinta-feira, Dezembro 19, 2002
 
COMENTÁRIOS NEGATIVOS OU POLÊMICOS SERÃO SOLENEMENTE IGNORADOS NESTE BLOG QUANDO FEITOS POR ANÔNIMOS. SE VAI CRITICAR OU CONTRARIAR, QUE PELO MENOS TENHA CORAGEM DE DIZER QUEM É. CASO CONTRÁRIO, A GENTE PENSA QUE NEM O ANÔNIMO ACREDITA NO QUE DISSE.
 
 
"Bailarina, enquanto você duvida do próprio adestramento, assombrada pelo temor da estréia, enquanto você se move em mito, criado pelo gesto e jeito que extasia (...), o homem do camarote oficial e ocasional (...) nunca perceberá a liberdade dos seus pés, conquista dos exercícios lancinantes, nunca conhecerá seus labirintos de dúvidas, transformadas em instrumentos de audácias, nunca frequentará seus bastidores, onde os corações se afliguem disparados."

Do Ricardo Teixeira de Salles, no Hoje em Dia de hoje. Talvez ele tenha dito muito mais do que pensa.
 
 
Duas de Udo Baingo, do Balaio de Textos

Pegue às cinco

Naquele cruzamento a direção
Poderá faltar a qualquer rã
Com a lanterna apontada para
O céu, capturando insetos
Que pegam ônibus às cinco.
E às cinco os lábios serão
Mais vermelhos e ásperos,
Enquanto que seus cabelos
Mais quentes e perfumados;
Minha mão, mais trêmula...
Sua pele, mais branca,
O adeus, mais brando e
O caminho, mais acinzentado.
Pegue às cinco a mão,
Os lábios e o ônibus.



Tá na mesa

Tu agora já sabes
Que nomeio teu Carma
E que faço tua cama
Sem manias de clima
Ou mentiras, chacinas, chazinhos...
 
Quarta-feira, Dezembro 18, 2002
 
É estranho. Mas estou feliz por você. É estranho ficar feliz por você.
 
 
Do Linus Boy (posso dizer que é Lindus também? com todo o respeito!), provavelmente o melhor presente de natal que já ganhei. Até chorei!


Para

Ana que quando escreve
Cuida da cria
Sorri de saquê
Passeia na praça
Ou ganha um buquê

Ana que quando pode
Sai sem dizer
O porquê

Ana que quando está por perto
Amamenta
Crias alheias
 
Terça-feira, Dezembro 17, 2002
 
Tem tempo, moço, tem tempo que não me sento assim, pra contar um caso. E eu gosto de contar caso. Mas não tem tempo. Antes o tempo não faltava. Antes era só tempo pra gastar pra chegar no fim. Porque é assim a vida né, moço. Agente gastando tempo pra chegar no fim. Agora não sei se o fim chega mais depressa ou se a vida é que é mais cheia. Às vezes eu penso que o dia corre mais depressa, que o mundo roda mais rápido e agente não nota. Que o sol vai de ponta a ponta no céu tão rápido e a gente acha que é só impressão. Pois sim, tem tempo, tem muito tempo que não me sento e tenho alguém pra ouvir um caso meu. Pois é...
 
 
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
É a chuva chovendo
Parecia que o disco tinha arranhado. As roupas fedendo, as toalhas escurecendo, eu chegando a conclusão de que preciso de um agasalho novo pela milésima vez, em pleno verão. É um alívio ver um pedacinho de azul no céu.
 
Domingo, Dezembro 15, 2002
 
Um risco, um passo, um gesto rio afora....
 
 
"e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto"

 
 
Eu te vi, perdi o prumo. "Ana, querida, não se atreva a fazer previsões." Não existe rumo, essa vida, esse delírio. Não existe certo, incerto, errado. "Invente o mundo, Ana." Não gostei do que vi. Fui embora. Pra isso serve esquecer. Eu te vi, perdi o esquecimento. "Achou que ia sair impune?" E se eu passar batido? Não é pra isso que serve essa vida, esse delírio. "Você tem de inventar um rumo, Ana, e fingir que é real."
 
Sexta-feira, Dezembro 13, 2002
 
As deusas trocando sorrisos sobre poemas que eu nunca li. Malditos. Eu, sempre silêncio, num olhar que grita baixo demais para os tímpanos de alguém. As deusas despencam do Olimpo, se é que lá é alto. monogamia, politeísmo, nada dá certo mesmo.
 
Domingo, Dezembro 08, 2002
 
Sem assunto de tudo. Calminha, calminha. Voltei pra minha vida, e achava que ela era boa, achava que ia ser bom voltar.
 
 
E o pior, Ângela, é que eu ignoro todas as regras anteriores...

"Mas não deixe de tentar. Eu quero um frio na barriga que persista, na saúde e na doença. Na pobreza e na riqueza. "
 
Quinta-feira, Dezembro 05, 2002
 
Tem de saber perder, né. De preferência sem envolver que não tem a ver, sem procurar culpa, sem bode espiatório. Fica mais elegante. Tem de admitir quando erra, preservar quem está em volta, quem é amigo, quem tenta ajudar. É feio, é muito feio se aproveitar de situações, de posições, de amizades, de confidências. Fazer chantagem. É muito feio noticiar para o mundo um problema que é seu, do qual tem outra pessoa que faz parte, tentar fazer as pessoas tomarem partido, serem contra ou a favor. Não é assim que as coisas são. É muito feio tomar partido, ainda mais quando só se ouve um lado da questão, ainda mais quando o lado que não foi ouvido merece consideração.
É também muito ruim quando acaba. E nem sempre quem coloca o ponto final é o vilão. As vezes é simplesmente quem tem coragem de acabar com um sofrimento ao qual os dois já se acostumaram. Agente se apega até ao sofrimento. E o fato de não dar certo não quer dizer que alguém é louco. Ou que não sabe o que quer. Sabe pelo menos o que não quer. Já é um bom começo.
 
Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
 
RFFSA
Santa Terezinha de Minas, as cores estendidas nos quintais, igreja, praça, casas em tom de terra, telhas escurecidadas, crianças em tom de terra, gente de olhos apertados, rugas.
 
 
"É difícil seduzir os que têm asas." Caio Fernando, O Ovo Apunhalado
 
 
Tem umas coisas que eu queria dizer mas que não saem. Você sabe, todos sabem. Tem sempre essas coisas que queriam gritar e ficam em algum ponto entre a boca, o esôfago e o seio direito. Não me escutam. Não me deixam falar e eu fico presa no quarto 2 x 2 do hotel barato, de um lado pro outro pela janela, música, tv, a luz esquentando minha cabeça e eu nem fumo. Foda. Eu bebo mas não tem bebida e eu ia me sentir mal de beber assim, sozinha, deliberadamente pra ver se resolvo meus problemas de personalidade mais freudianos, se paro de querer dizer minha vida por aí ou se grito de vez pra depois dormir e ver que não adianta dizer nada se ninguém quer escutar. Eu quero você.
 
 
"Uma mulher
bêbada prima
quer?
uma chávena de chá? é muito mais ordinária
mais açúcar prima? do que prima
um homem
está bem assim? bêbado"

Adília Lopes
 
 
Já sei namorar, já sei beijar de lingua, agora só me resta sonhar.
 
 
Finalmente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Muito bom estar em casa. Não aguentava mais sem escrever. As coisas explodindo na minha cabeça, como de costume. Eu fazendo tipo e implodindo, sem nem escrever! AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Pena que não dá pra gritar pelo computador!
 
Segunda-feira, Novembro 25, 2002
 
Despedidas mútuas. Feliz de enxergar. Feliz que a tristeza que eu sinto é de choro sem pudor, sem culpa, brotando do olho sem parar. Só de olhar pra você, só de nem pensar, só de sentir que já foi. O tempo passou e nós ficamos com cara de bobas, olhando uma pra outra enquanto ele nos deixava. Abandono. E nós nos olhando feito bobas, com as mãos ao alcance uma da outra, com a certeza de que não adianta tocar. Então o que posso fazer, se não me sentar com os joelhos dobrados, o cotovelo apoiado, baixar a cabeça e chorar?


Carta de despedida


eu tenha me iludido! eu tenha me iludido! a repetição é fundamental, meu caro. a repetição é fundamental, mas eu me sinto um pouco assim assim, vamos embora, vamos dizer que tudo não passa, vamos dizer que a medéia te espera: medéia tem uma aspecto mais moderno do que se podia imaginar. ando tal como um hamster, corro pra lá e pra cá qual exatamente um hamster (e não um hamster ferido). chega um ponto. eu sinto falta. digamos que é hora de começar a escrever "as memórias". imaginárias memórias boreais. tudo tão antigamente sugestivo. imaginá-las auroras. munir-se de exemplos. contando-as criticamente. este projeto me atrai. o que é metafísica? eu sinto que me desgarro, me des-garra rútila no portal.
eu tenha me iludido!
espero qualquer chegada com uma frase: eu tenha me iludido!
acho que vou me suicidar.


(Ana Cristina Cesar, Inimigo Rumor nº 10)
 
 
Esse eu achei de brinde e adorei:

MISS FRIGIDAIRE

Miss Frigidaire não ouse

nem use

rimas ocultas

(como eu na primeira linha)

ou armas brancas:

sorrisos colgate, gás neon

icebergs, adagas e subterfúgios;

abra a porta por dentro

de si e saia

de flores

fuja do inverno

venha

branca de neve

e não negue o sol

never ! que derrete o gelo

que fora do freezer

estalactite e chora.

(Armando Freitas Filho)

 
 
Mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. (Foi ELA quem disse que repetição é fundamental.) Na cabeça, nos olhos, na tela. Ainda não decorei. Ainda. Mas isso é uma das coisas mais bonitas que se pode escrever em todos os tempos.


PSICOGRAFIA

Também eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não soube e digo

da palavra: não digo (não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto

(Ana Cristina César)

 
 
Ainda não voltei. Não paro mais, né. Cansei de escrever, cansei de viajar, cansei de trabalhar. Cansei. Cansei. Cansei. Quero ir pro Rio de Janeiro ver Dearest e sua dearest. Passear, ir à praia, ficar bronzeada. Comprei o livro da Adília Lopes. Estou tentando me deliciar, mas tá difícil ter tempo. Comprei também um do cara da federal, muito bom. Depois eu lembro o nome. E um do Caio Fernando, mas Morangos Mofados é melhor. Comprei “O Ovo sei lá o quê”.
Também ouvi minha Menina Maluquinha chorar de escorrer lágrima quando eu disse que ia viajar de novo. Sentei ela no meu colo e disse que também não queria. “Mas eu fico num lugar e você fica noutro, eu faço uma coisa e você faz outra, você é uma e eu sou outra! Eu não gosto disso!”
É claro que eu morri.
 
Quarta-feira, Novembro 13, 2002
 
E não é que eu, enfim, te fiz um bem?
 
 
Faço só um drama assim, quieta. Cerveja à frente, olhos baixos no que anoto. Não escrevo, que é demais. E o entorno que consulto vez por outra pra saber se existo. Ninguém olha, distribuo sorrisos gratuitos e oferecidos aos garçons. E eu sei porque? Neste mundo há que se ter motivos, já me disseram. Teimo, o sorriso me escapa vez ou outra. Os olhos do garçom perguntam porque.
 
 
Foi setembro:
superlunar.
 
 
Me desfaço do meu nome
da roupa, da pele.
Me chamo você, pra
você se apaixonar.
"Ei, você! Não me abandone!", você diz.
E eu te olho só até
onde não tiro as esperanças.
 
 
Não vale dizer nada


oi.

sabe o que é que é? nada não. meio completamente sem assunto. vontade de colocar você no meu colo e falar coisas bonitas. vontade de fazer uma coisa gostosa pra vc comer e depois dançar no escuro meio bêbada, pisando no seu pé e morrendo de rir. não sei. ando com umas vontades assim.

como é que está tudo? hoje é dia de não conversar e ficar tudo bem. tudo bem, em termos, minha bochecha quente