Página Preta
segunda-feira, novembro 25, 2002
 
Despedidas mútuas. Feliz de enxergar. Feliz que a tristeza que eu sinto é de choro sem pudor, sem culpa, brotando do olho sem parar. Só de olhar pra você, só de nem pensar, só de sentir que já foi. O tempo passou e nós ficamos com cara de bobas, olhando uma pra outra enquanto ele nos deixava. Abandono. E nós nos olhando feito bobas, com as mãos ao alcance uma da outra, com a certeza de que não adianta tocar. Então o que posso fazer, se não me sentar com os joelhos dobrados, o cotovelo apoiado, baixar a cabeça e chorar?


Carta de despedida


eu tenha me iludido! eu tenha me iludido! a repetição é fundamental, meu caro. a repetição é fundamental, mas eu me sinto um pouco assim assim, vamos embora, vamos dizer que tudo não passa, vamos dizer que a medéia te espera: medéia tem uma aspecto mais moderno do que se podia imaginar. ando tal como um hamster, corro pra lá e pra cá qual exatamente um hamster (e não um hamster ferido). chega um ponto. eu sinto falta. digamos que é hora de começar a escrever "as memórias". imaginárias memórias boreais. tudo tão antigamente sugestivo. imaginá-las auroras. munir-se de exemplos. contando-as criticamente. este projeto me atrai. o que é metafísica? eu sinto que me desgarro, me des-garra rútila no portal.
eu tenha me iludido!
espero qualquer chegada com uma frase: eu tenha me iludido!
acho que vou me suicidar.


(Ana Cristina Cesar, Inimigo Rumor nº 10)
 
 
Esse eu achei de brinde e adorei:

MISS FRIGIDAIRE

Miss Frigidaire não ouse

nem use

rimas ocultas

(como eu na primeira linha)

ou armas brancas:

sorrisos colgate, gás neon

icebergs, adagas e subterfúgios;

abra a porta por dentro

de si e saia

de flores

fuja do inverno

venha

branca de neve

e não negue o sol

never ! que derrete o gelo

que fora do freezer

estalactite e chora.

(Armando Freitas Filho)

 
 
Mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. (Foi ELA quem disse que repetição é fundamental.) Na cabeça, nos olhos, na tela. Ainda não decorei. Ainda. Mas isso é uma das coisas mais bonitas que se pode escrever em todos os tempos.


PSICOGRAFIA

Também eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não soube e digo

da palavra: não digo (não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto

(Ana Cristina César)

 
 
Ainda não voltei. Não paro mais, né. Cansei de escrever, cansei de viajar, cansei de trabalhar. Cansei. Cansei. Cansei. Quero ir pro Rio de Janeiro ver Dearest e sua dearest. Passear, ir à praia, ficar bronzeada. Comprei o livro da Adília Lopes. Estou tentando me deliciar, mas tá difícil ter tempo. Comprei também um do cara da federal, muito bom. Depois eu lembro o nome. E um do Caio Fernando, mas Morangos Mofados é melhor. Comprei “O Ovo sei lá o quê”.
Também ouvi minha Menina Maluquinha chorar de escorrer lágrima quando eu disse que ia viajar de novo. Sentei ela no meu colo e disse que também não queria. “Mas eu fico num lugar e você fica noutro, eu faço uma coisa e você faz outra, você é uma e eu sou outra! Eu não gosto disso!”
É claro que eu morri.
 
quarta-feira, novembro 13, 2002
 
E não é que eu, enfim, te fiz um bem?
 
 
Faço só um drama assim, quieta. Cerveja à frente, olhos baixos no que anoto. Não escrevo, que é demais. E o entorno que consulto vez por outra pra saber se existo. Ninguém olha, distribuo sorrisos gratuitos e oferecidos aos garçons. E eu sei porque? Neste mundo há que se ter motivos, já me disseram. Teimo, o sorriso me escapa vez ou outra. Os olhos do garçom perguntam porque.
 
 
Foi setembro:
superlunar.
 
 
Me desfaço do meu nome
da roupa, da pele.
Me chamo você, pra
você se apaixonar.
"Ei, você! Não me abandone!", você diz.
E eu te olho só até
onde não tiro as esperanças.
 
 
Não vale dizer nada


oi.

sabe o que é que é? nada não. meio completamente sem assunto. vontade de colocar você no meu colo e falar coisas bonitas. vontade de fazer uma coisa gostosa pra vc comer e depois dançar no escuro meio bêbada, pisando no seu pé e morrendo de rir. não sei. ando com umas vontades assim.

como é que está tudo? hoje é dia de não conversar e ficar tudo bem. tudo bem, em termos, minha bochecha quente diz muito sobre minha condição cristã-ocidental, tão em moda nos dias de hoje. mas fora isso, tudo bem de verdade.

queria era fazer uma poesia linda como você e depois ficar olhando, com a mão no queixo e rindo. só rindo...

e olhar pros seus olhinhos que fazem de conta que eu não estou olhando, coloca a cabeça pra trás e muda de assunto. mas depois sai e me dá um "cheiro".

ainda tenho cheiro de casa? você ainda tem.

o início. vontade de fazer tudo pra te ver feliz, rindo e mordendo a língua. te olhando meio de lado, pra ver se eu consigo entender alguma coisa.

vontade de fazer tratamento de choque com você. nada de doses homeopáticas. algo como "te cerco tanto que é impossível fazer blitz e flagrar a ladroagem", da ana cristina, quem mais?

uma vontade, assim, de ficar no escuro contando histórias esquisitas e morrendo de rir.

e você vai quando? ainda tem tempo pra um café-conversa-corrido, risos e silêncios? ainda tem tempo de me beijar segurando meu rosto e ver que a minha bochecha está quente?

a teus pés.

não vale dizer nada, a não ser que música eu devo colocar.

beijo.
 
domingo, novembro 10, 2002
 
Promessa em outubro

Na beira da estrada, a mangueira, carregadinha de Manga Ubá.
 
 
O céu rebaixado até o horizonte. Olha: é longe. Muito fundo, em três dimensões, se vê o azul. Em algum lugar não é sombrio como aqui.
 
 
Cheguei de viagem, às 5 da manhã. Me deitei ao lado da minha Menina Maluquinha, abracei, beijei, fiz carinho, chorei de saudade. Ela nem se mexeu. Depois, lá pelas 9h, acordou surpresa, me abraçou e me encheu de beijos até eu acordar. Sabe lá o que é isso?
 
 

Um beijo
a falta
a boca
em branco
no livro
desenhado
palavra
na boca
é seu
 
quarta-feira, novembro 06, 2002
 
"Eu me sinto uma mulher, quem diria.E você me chamava de menina e eu me sentia com uma margarida na mão." Giu, Giu, você escreve...
 
terça-feira, novembro 05, 2002
 
Estou só como só quem já teve alguém de verdade pode estar. Escrevo aos pedaços em folhas avulsas, coloridas pra não perder o hábito. E voam distraídos, os pedaços. Tem ventado, você percebeu? As lágrimas não são insistentes. Mas, de repente alagam, deixam as paisagens inundadas, com fotografia sombria como o mar na ressaca. Difícil acreditar num dia de lentes de luz quente, forte, vivo como o próprio calor. Então, como chocolate e fico remoendo o final triste do filme, sabendo que não adiante rebobinar a fita e que a estória acabou.
 
 
Você se levantou, foi ao quarto, pegou um livro. Estendeu aberto na minha direção:


5


mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo


os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado


encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada


desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar desta viagem


o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão


assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração


(Al Berto, Una existencia de papel)



 
 
Tudo mofo,
um morango aveludado
sutil e azedo, morno
fresco
De longe, morango
Passado
Espremido na mão
O suco escorrendo o pulso
o olho fechado
lambida a palma
gosto de lágrima
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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