Página Preta
segunda-feira, junho 30, 2003
 
O CÉU DE CABEÇA PRÁ BAIXO







Página 1
Longe, muito longe daqui, uma menina sorria e pulava, cuidando de seu coração.

Página 2
Durante anos, a Menina de cabelos cacheados debruçava-se todas as noites na janela para ver o céu piscar. Esticava o nariz gelado e sentia cheiro de noite. Mas sua casa era tão pequena, e assim também suas janelas, que o único jeito que ela arranjou pra ver o céu foi sentar-se no sofá e enrolar todo seu pescoço para trás. Uma visão privilegiada, que trazia consigo um pequeno e estarrecedor detalhe: o céu ficava de cabeça para baixo...

Página 3
O tempo passava como uva, quando um forasteiro, em passagem pela cidade, visitou a casa da Menina. Amigo antigo da família, ao ver a filha do casal, elogiou. Comeu feijão de corda com mandioca e se esbaldou. Tomou café com broa de fubá e se desmanchou. Acariciou o gato de estimação, se arrepiou. E já ia mesmo indo embora, quando se deparou com uma cena estranha. Não resistiu e perguntou:
- O que você faz aí, Menininha? Com a cabeça para fora da janela e o pescoço enrolado para trás?
- Estou olhando o céu.
- Posso ver também? – assentou-se ao lado da menina.
- Pode. Espia só como é bonito! Agora respira e sente o cheiro que tem...
- É muito bonito mesmo, mas, assim, está de cabeça para baixo.
- Não, senhor! O céu é assim! As pessoas é que não sabem olhar...





Página 4
Em pouco tempo, a notícia se espalhou pela cidade. A novidade ganhou pernas de avestruz, pescoço de girafa e agilidade de lagartixa. Assim, mesmo os que não fossem alcançados pela velocidade com que o boato corria, não conseguiam ficar alheios ao reboliço que estava no ar. Logo, filósofos, cientistas, poetas, astrólogos e fofoqueiros vinham de todos os lados, feito romaria de São Judas Tadeu. Debruçavam-se na janela da casa da Menina e tentavam desvendar o mistério.

Página 5
Os astrólogos argumentavam que a posição de Vênus em linha octogonal a Saturno era responsável pelo fenômeno. Os alquimistas comemoravam que a descoberta facilitaria a transmutação dos metais em ouro, durante a aurora boreal. A benzedeira afirmava sua fé em Deus dizendo que, independentemente da posição dos astros, todos que tivessem uma boa conduta na terra iriam para o reino dos céus. E sobrou até para os boêmios que... Bem, os boêmios se abstiveram do debate porque nunca souberam ao certo a diferença entre o sul e o céu. Pediram apenas que não mudassem as estrelas de lugar para que não perdessem o caminho de volta pra casa, nas noites de bebedeira. A discussão aumentava, nada se resolvia, e os murmúrios zanzavam pela cidade.

Página 6
Até que um dia, um jovem senhor doutor recém chegado da capital, soube da situação e decidiu visitar a casa da Menina. Depois de muito observar, o homem deixou o local cabisbaixo, coçando uma iminente calvície prematura. Cada um com sua careca, as autoridades locais também coçavam as suas, quando o doutor, perguntado sobre a questão, foi categórico em seu veredicto:
- A Menina tem razão! Até os dias de hoje, nós olhávamos o céu de maneira equivocada, de cabeça para baixo. É preciso esclarecer a sociedade e avisar a todos sobre a novidade!

Página 7
Boato confirmado, a população tentava se acostumar com a nova realidade. Naquela mesma noite, o Prefeito convocou toda a sociedade para dar as boas novas. Às oito horas, na pracinha, em frente à igreja, todos esperavam pela anunciação. Com o mesmo entusiasmo de quem aprende a andar de bicicleta no fermento, o Prefeito foi solene e pomposo em sua declaração, de olho nas próximas eleições:
- Queridos póvos e póvas dessa minha esplendorosa cidade de gente fulgente. Boa noite! É com enfastioso prazer que tentarei, com a singeleza e gabarolice que me são habituais, narrar essa situação inenarrável! Como vós deveis saber, nossa cidade é palco da última maior descoberta feita pelo homem... bem, nesse caso, por uma menina.

Página 8
Ao final do discurso, todos esticavam suas cabeças e giravam seu pescoço para trás, para finalmente, depois de anos e anos de céu de cabeça pra baixo, poder vê-lo na posição correta.

Página 9
Mas eis que, por coincidência ou destino, como melhor preferir o leitor, o Matuto, sujeito cabreiro que vivia sozinho em uma fazenda nos arredores da cidade, passava sorrateiramente pela praça. Presenciando aquela confusão, perguntou:
- Que diacho é isso?! Que vocês tão fazendo, com a cuca virada para o lado e o pescoço enrolado pra trás?!
- Olhando para o céu! – disse um dos presentes – o senhor precisa se atualizar! Não sabia que só assim podemos ver na posição correta? Da forma como olhávamos antes, víamos o céu de cabeça para baixo.

Página 10
Matuto, como seu próprio nome já sentenciava, o velho disparou sua verdade, que assolou toda a população da cidade:
- Uai, será que vocês não perceberam?! Não é o céu que estava de cabeça pra baixo... nós é que estamos!!!
A praça inteira, homens, insetos e coisas silenciaram um vazio intrigado, tão matuto quanto o próprio Matuto.


Página 11
Pandemônio de cores curtas!!! O pânico tomou conta da cidade e, depois de muitos gritos e correrias, tudo começou a cair.

Página 12
Mães agarravam suas crianças, crianças nadavam felizes em direção ao céu, o céu engolia o mundo com gentileza e hospitalidade. O Prefeito tentava segurar sua cartola azul, quando também seguiu em queda livre, num passeio que não teria mais volta. Um homem comprava um cachorro-quente que caiu na imensidão. Negava-se a pagar sua dívida, quando ele e o vendedor começaram a cair e, mesmo assim, continuaram brigando, sem perceber o inusitado da situação. Duas respeitadas e respeitosas senhoras que futricavam sobre os atos voluptuosos da filha do padeiro também deslizaram pelo ar. Tiravam saias e anáguas do rosto preocupadas com o que o destino reservaria para a pobre moçoila.

Página 13
E tudo mais caía distraído... os carros estacionados na praça – caíam; as casas, os telhados, as televisões e os liquidificadores - caíam; as frutas que estavam fora de época – também caíam e até mesmo o boné do pintor, que não saía de sua cabeça nem na hora do banho, seguiu também em queda livre, segundos a frente de seu dono.





Página 14
Sobraram apenas a Menina e o Matuto com os pescoços enrolados para o alto:
- Gente esquisita... – disse o Matuto.
- Pois é – concordou a menina – eles acreditam em cada coisa!!! Mas não é mesmo mais bonita a noite vista assim?




FIM
 
 
Séria Poesia

500 km
Desfaço o
Beijo refaço
De longe
Replay
De novo e
Mais uma vez.

Prioridades
Importante mesmo
É eu não saber piadas
E você rir.

A Espera
A espera às vezes traz:
- Uma cerveja
- Uma cachaça
- Pensamentos estranhos
- Torresmos maiores que esperamos
- Problemas
- Ônibus
- Um poema
- Solução
- Uma pessoa querida
A espera é
Sempre sem
Você.
 
 
Acho que me empolguei...
 
 
Falar em historinha, meu pai leu a minha historinha que é minha e da GH. Já tem um tempo. Fiquei um pouquinho nervosa, ele leu e não disse nada. Muitos dias depois, olhou pra mim na sala de televisão e disse que tinha gostado do meu texto. Que era sofisticado mas que não era de criança. Porque pra criança as coisas têm que ter mais contraste, têm que ser mais coloridas. E a minha história era ton sur ton (é assim que escreve?), que era lilás, rosa, e roxa... E é mesmo.
 
 
Ah, "O Céu de Cabeça pra Baixo" é a historinha infantil que o Cris inventou. E o Cris é o responsável pela atual onda de posts sentimentais e otimistas aqui. E pela atual onda de "ausência de posts" também. Estou de pleno acordo com a teoria da Pola e do Alisson. Depois ponho a historinha aqui também, acho que agora não tenho ela aqui...
 
 
Diz que eu mudei. Pra melhor, se não não diriam. Nada muito profundo, diz que eu estou mais bonita. Também acho. Deve ser que pintei as unhas de vermelho e uso laquê no cabelo (só às vezes). Ai que medo...
Diz também que a Menina Maluquinha é a minha cara. Mas na verdade ela é a cara da menina que o Da Lua desenhou pra "ver o céu de cabeça pra baixo". Daqui a pouco ponho ela aqui.
 
domingo, junho 29, 2003
 
Sabe, that fresh feeling. Vontade de dar boa noite. O frescor. Só que outro. Só que fresco. Só que é quieto como ouvir um violão vibrar com o ouvido colado na madeira, uma bossinha velha e gasta, mesmo meio sentimental, essas coisas. Só que meu olhar vai ser sempre acolhedor. Só que fico assim, menina de repente, e não conto o segredo do melhor beijo.
 
 
Blog novo do amigo. Mucho bom, já que ele sempre soube escrever pra caralho. Aliás, a primeira pessoa que leu uma coisa minha. De diário. E disse que era legal e eu não acreditei. Depois concordei...

"Então me crava essa noite preta, que da boca morta minha vida esvai. Porque de longe o motor do carro grita, bem mais alto que minha vida rubra."

Pequenas histórias sobre o sono

I

Meu nome é Laura e tenho 7 anos. Gosto de brincar com minha boneca, tomar sorvete de chocolate e beijar minha mãe, que é muito linda. Não gosto quando minha professora passa muito para-casa, quando meu pai briga comigo e quando o sono cola meus olhos com tinta preta.
(...)
 
quinta-feira, junho 26, 2003
 
Engraçadíssimo, fui ver uma seminário de comunicação empresarial e falou o chefe lá da Fiat. Contou casos de fracasso de comunicação (tipo o mascote do anúncio de um carro hidramático, que era um saci...) e de grandes sucessos. O sucesso era a campanha que abordava o preconceito. Aí ele mostrou lá o comercial da mulher loura com o bebê no colo e o marido negro dirigindo, que a amiga confundia com um motorista. Ganhou prêmios de associações de negros. Mostrou o da reunião de pais em que a mão do Joãozinho e o pai do Joãozinho (uma mulher) estavam presentes. O slogan, “Você precisa mudar seus conceitos”. Ganhou prêmio de associações de gays, que seria recebido na parada gay em São Paulo. Aí o camarada resolve falar que o difícil foi arranjar quem quisesse ir lá receber o prêmio e juntou o episódio a um outro “mico” que ele teve que pagar em campanhas da empresa. Quer dizer, na propaganda a empresa tem uma conversa mas nem a COMUNICAÇÃO da empresa pensa desse jeito. E ele ainda abriu a palestra com uma frase de um super-empresário para seus funcionários: “Se você perder dinheiro da minha empresa, eu compreenderei. Mas se você danificar a imagem dela, serei implacável.”
 
 
Hai kaizins bunitins pra alegrar a quinta-feira


casca oca
a cigarra
cantou-se toda

(Matsuo Bashô
Adaptação de Paulo Leminski)



tua covardia
não é minha
teu riso, outra ironia

(Goulart Gomes)



A ociosa espada
sonha com suas batalhas.
Outro é meu sonho.

(Jorge Luis Borges
Tradução de Anibal Beça)



Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.

(Anibal Beça)
 
quarta-feira, junho 25, 2003
 
Desculpe-me mas há que se dizer também o banal, que é do que se faz a vida, do que se reproduz a espécie, do que se alimenta o estômago e os olhos. Cotidiano.
Banal você, olhos miúdos, meus sorrisos e gargalhadas. Tenho saudade de você.
 
 
"- Feito pra mim, bom pra você. Deixa mudar e confundir!
- Deixa de lado o que se diz. Tem no mercado, é só pedir!...
- Me faz chorar... e é feito pra rir. "

 
 
É nessas horas que perco o rebolado, vou ao cinema ver ficção científica, tenho medo da sua cara brava. Desculpa. Não quis te deixar falando sozinho, sofrendo acidentes, indo ao borracheiro pra arrumar o pneu da bicicleta pra dar a volta inteirinha na lagoa da Pampulha que são vinte e cinco quilômetros. Atirador, te levo pra casa e alimento, deixo sua barba me machucar. Te espero muito, sempre, toda hora, arranjo até alguma coisa pra fazer pra não ficar impaciente. Mas não te conto, de jeito nenhum, que não sou besta nem nada. Acho um jeito de esconder e o disfarce fica pior que qualquer remendo, desafinado, de tão baixinho quando você me pede pra lembrar aquela música do cartola que é tão bonita, tão bonita. Quer coisa mais óbvia que meus olhos grandes? Que um pôr do sol numa serra bonita, um pouco frio, barulho de grilos e agüinha de correnteza? Que um beijo sobre o muro de pedras, pernas-de-índio, frente-a-frente, e o sorriso mais fácil que puta de Afonso Penna? Que fazer beicinho porque você vai viajar, não querer que você trabalhe, que ler comovida que você me chama de princesa no e-mail de bom dia e esperar seus e-mails resmungando sozinha a sua demora? Mas não desisto do disfarce, dos farrapos me cobrindo porcamente, da covardia de dizer que amo você e depois olhar pra baixo e me arrepender. E não te mando cartas, em hipótese nenhuma, que não vou deixar registrada assim minha fraqueza, ao alcance dos olhos, prova cabal, pra você ler quando não souber mais de mim. Só publico ficção, porcamente disfarçada, sem dar notícia como se você não fosse saber que é pra você. Só publico sem te olhar, fingindo que esqueci, até você dizer que gostou e eu sorrir escondida.

 
 
Frases de hoje:


·Me atire, a garota na ponte.
·Você me tem retalhada, de olhos fechados, de olhos abertos, fixos, em seus olhos de correnteza azul na ponte.
·Saudade, e você não me falta.
·Colada à sua boca, a minha desordem.
·Tudo sangra em primeira pessoa, é sempre um somatório, um acúmulo de vertigens nos meus olhos, o corpo se esvaindo nos olhos, os sonhos, as febres, a voz, os cabelos e dedos trêmulos tomando chocolate quente de pernas cruzadas. Apertando a testa e escrevendo em público como se eu fosse uma senhora grave e velha. Quase não enxergo as palavras, a letra maior e pior, não importa, afinal. Não importa também se está legível a quem quer que passe a palavra calada borrada de chocolate sob o pires.
·Sou inofensiva, isso importa.
·E agora me soa sempre meio drama mexicano, esse negócio de escrever "sangrar", "olhos", "lágrimas".
·As sem-razões do amor.
 
quarta-feira, junho 11, 2003
 
Guimarães Rosa:
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
 
 
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
( Do Desejo - Hilda Hilst)
 
segunda-feira, junho 09, 2003
 
Mais uma do Zagreus:
"Trocados. Baldes de trocados. Empurrados ladeira abaixo - assassinatos compulsórios. Ilusão de supermercado, dor de cabeça de shopping, bala de frutas recheada com uvas fora-de-época. Chocolate, ah, chocolate, mas vencido, esfarelando. Ladeira abaixo.
Lentes pornográficas & cheiro de inseticida. Sexo com resultados.
Pena de frango assado. Junho. Estamos em junho.
Trocados. Muitos sentem a trovoada. Empilhados ladeira acima. Sossegados, até. Dentro das luvas, amortecidos. Derivação parassintética. Lentidões escravocratas com suor intravenoso. Estamos em junho, ninguém vê?, estamos em junho. Mais uma vez. Música ensurdecedora, pagà, eletromagnética. Música ensurdecedora & estruturada, lição de mecânica quântica, música negra, como magia. Música ensurdecedora, implorada, esvaziada de toda sua significância abastada.
Junho, ensurdecedor, junho com resultados."
 
quinta-feira, junho 05, 2003
 
A menina do gato verde



"A menina do gato verde
dos olhos claros
daqueles dedos.

É aquela menininha.

Sim? Aquela de junho.

Que aposta em qualquer azarão,
que aumenta as histórias,
que inventa tortos desejos,
e sai chutando bagres na areia.

Ô menina! Faz isso não!

Menina do gato verde. Tum!

Que sabe tudo,
que a inflação tá que tá,
que não vive sem amigos,
ou que parte pra briga, sem dó.

Ô menina! Faz isso não!

Menina do cachorro cinza. Bum!

É aquela menininha.

Não! É aquela de junho!

Que prendeu a mão na porta,
que andou de casaco de pele,
que dançou discoteque
e que eu vivo amando sem fim.

É aquela assim.
Eternamente no colo do avô.
E sempre no meu coração.

Menina do gato verde,
este gato é meu. Devolve!"

(Jean Boëchat )


 
terça-feira, junho 03, 2003
 
Eu luto, incansável, por esse poema ruim. Tanto que te mostro, desdenhando,
com um fiozinho de esperança de você gostar. Você logo rompe, junto com o
silêncio da leitura: a gargalhada que nem lâmina reluzente. Uma bolinha
vermelha surge na ponta do meu indicador direito. Bonito, o pedacinho de
carne, a fissura de precisão-facas-guinsu ou bisturi, tantofaz. Chupo sangue, você traga o cigarro e muda de assunto: uma lagarta listada. Nenhuma ternura em seus
cílios frios. Me conta uma coisa: porque eu não posso remeter publicar,
pegar o telefone e dizer esta carta? Sem nem chorar.
 
 
Ficções de Dois de Junho

O atirador faz tudo calmo e morno. Mesmo o sangue do baço perfurado. Mesmo o
sorriso de olhos fechados. Ganha o jogo quem acertar sem querer. O herói do
circo é o atirador de facas, aos olhos trêmulos da moça pregada na parede. O
atirador de olhos azuis não me deixa mais escrever. Também não queria...
Quero receber facas pelo corpo. O fio dos dentes do atirador de olhos azuis
partindo as minhas postas.
Ah, atirador... Era uma vez uma garota na ponte. Você sabe, não é? Toda a
história. Era uma garota à beira, eram olhos de correnteza que a fitavam lá
de baixo. Era. Até que um dia, um lugar, um frio, o atirador. E o tempo que
não chegava nunca. (O tempo era o personagem de múltipla personalidade,
inconsistente, incoerente. Nunca que chegava, nunca dava tempo de tudo.)
Atirador, você me tem retalhada, de olhos fechados, de olhos abertos, fixos
em seus olhos de correnteza azul. Enquanto você gira para atirar, meu
sorriso é doce e meus olhos continuam castanhos. Suas mãos, valente. E meus
olhos são castanho-escuros.
Enquanto você ganha meus seios e pele, enquanto, querido atirador, eu te
escrevo uma carta e mostro um caminho para suas lâminas, sei porque você
tenta me acertar sem querer. Me atire, a garota na ponte. O sorriso na
ponte, seus olhos de correnteza azul na ponte.
 
 
Porque Tudo é Muito Simples

O seu olhar
Arnaldo Antunes


O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu


Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu


O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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