Página Preta
quinta-feira, julho 31, 2003
 
Sobre o sexo:
A gota de água fresca pingando da telha depois da chuva: calorão. A gota da água fresca pingada no meio da lingua que olha pro céu de depois da chuva no calorão. Que sede ela quer matar?
 
 
- Meu pedaço chegou de viagem. Inda bem;
- Simples;
- Então penso e alguém me lê os pensamentos real time;
- Você me dá desejos de presente;
- Desejo é falta;
- Seu desejo me enche;
- A falta que me dá o fato de você existir e eu não estar mais vazia e sim de braços abertos é deliciosa.

 
quarta-feira, julho 23, 2003
 
Um pedaço meu que viajou de férias:


Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, de mil silêncios cadenciados pra ninar minha Maluquinha...
 
 
Um pedaço da Hilda que você mereceu ontem:




Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.



Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.



Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

(...)



[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

 
 
Um pedaço do Paulinho da Viola:

Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor assim descontraído
 
quinta-feira, julho 17, 2003
 
Um pedaço do Drummond:

Experiências de escrituras,
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.
 
 
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de Explicação, da Adriana Falcão)
 
quarta-feira, julho 16, 2003
 
Leia mulheres, nos olhos e na pele, escreva nas costas, nos dorsos e ancas,
alguns modos de usar, alguns deleites que elas podem dar, alguns recados
aos filhos e irmãos. Leia as curvas de cabelos crespos, pés calejados,
tortos, podres, encravados. Leia mãos macias amassando pães, leia as mãos
também espalmadas sobre a sua testa ou o seu pescoço ou o seu peito quando
você gozar. Leia choros incessantes, soluçados, fisionomias duras diante do
seu choro frágil e soluçado. Escreva histórias em cada um de seus dedos dos
pés, conte estrelas em suas nucas. Veja-as apodrecer diante dos seus olhos
e confie a elas seus filhos, o que forem comer, o que irão aprender na escola, o que irão vestir e o que irão amar. Leia, interprete, consuma, saboreie, usufrua, lamba, encare, toque e aprecie cada dote, dom, habilidade, inocência, conivência ou curva que elas possam dar. As mulheres.
 
 
111 átomos diferentes fazem tudo o que existe. A tinta do cabelo preto de mais, o batom.
A noite passa a conta-gotas, cada faixa do disco e a primeira outra vez. A noite passa escura e acordada a seu lado, no seu colo ou no colchão mole de mais onde você dorme. Sua nuca e pele, o tecido infinito. Você não tem fim, à noite, ao seu lado.
111 átomos também constituem os ácaros que constituem seu colchão mole de mais. Infinitos os átomos da sua pele. Átomos são sempre infinitos. Cada cor, cada combinação dos átomos das moléculas que se desprendem de você e permanecem a seu redor enquanto eu aspiro sua nuca. Onde seu cheiro vai parar dentro de mim?
É de átomos a blusa, o telefone, todos os olhos espelhados do mundo, inclusive o seu e o meu e nossas pálpebras. E a calçada sob os pés de personagens imaginários que fazem barulho com sapatos duros. Também as formigas dois metros abaixo do último subsolo do edifício Acaiaca. A sopa sorvida com cuidado por um menino de cinco anos. O sono, a sonolência da noite em conta gotas a seu lado. Não, isso não.
Somos como átomos de carbono, desses que qualquer um tem aos montes. Somos intervalo, meio, entre, espaço vazio.
 
sexta-feira, julho 11, 2003
 
Filmes chatos de noites de quintas-feiras. Ainda bem que só percebo o começo e o fim dos filmes.
Esqueci alguns... Claro.

- Um homem meio esquisito
- Pão e Tulipas
- Fast Foood Fast Woman
 
terça-feira, julho 08, 2003
 
Momento Pânico Materno

- Mãe, o Igor não sabe que criança não beija na boca. E a Dani já explicou pra ele muitas vezes.
- Ah, é? Porque não sabe?
- Porque ele fica beijando a Carol.
- Mas... só a Carol?
- Não, a Ana Paula, a Larissa e a Clarissa também. Ele corre atrás de todas as meninas pra beijar.
- E você, ele não beija não?
- Não.
- Porque?
- Porque eu corro.
- E ele beija os meninos também?
- Não. Ele sabe que menino beija menina. Ele só não sabe que criança não beija na boca.
(momento educacional dentro do momento pânico materno)
- Mas tem menino que gosta mais de beijar menino.
- Hahahaha... É, mãe? Que engraçado...
- É, e tem menina que gosta mais de beijar menina.
- Hahahaha... Então lê historinha pra mim.
 
segunda-feira, julho 07, 2003
 
Mais uma historinha grande pro Pedro pular. Pula mesmo, porque essa é dessas coisas meladas e lindinhas que são boas só pra mim. Como o blog é meu, eu coloco. Que posso eu fazer se meu amor é um contador de histórias?


22 de abril – O Dia do Descobrimento


Não me lembro bem a data exata em que se passaram aqueles longos dias de espera, mas é certeza certa que já se passava alguns anos do século XXI e o mundo não era mais o mesmo. O planeta Terra estava dominado por espetáculos franceses de dança contemporânea, intermináveis palestras sobre responsabilidade social, boates bombando de gente bonita e incontáveis coquetéis de comemorações de qualquer coisa. Isso sem falar, nos... bom, deixa pra lá...

Capitão Vermelho e sua tripulação não iam nada bem em suas aventuras de além-mar. Já não era a primeira vez que alguns marinheiros se reuniam no convés para pensar um modo de tirar o Capitão do comando do navio. Queriam colocar em seu lugar o frio e matemático Doutor Encéfalos Causa, aquele mesmo, que não comeu algodão doce em sua infância e, talvez por isso, tenha se tornado salgado. A rebelião aumentava a cada vez que Capitão Vermelho via sua embarcação afundar em mais uma aventura falida em direção a um coração de tomates secos.

Há tempos sua tripulação não ouvia a voz ofegante do Capitão, a gritar com pulmões de criança no fermento: Atenção, homens! Alçar âncora!!! Terra à vista!!!!

Mas era durante a noite, no interior de seus aposentos, que o Capitão fazia anotações e traçava planos em direção ao caminho que acreditava ser o melhor para ele e sua tripulação. Com a credibilidade de um vendedor paraguaio, a garantia de qualidade de um televisor CCE e o carisma de um candidato em época de eleições, Vermelho não se cansava de tentar, mesmo já desacreditado dentro de sua própria embarcação.

Eis que um dia, numa noite de açúcar, o Capitão avistou uma luz que fundia seus olhos e brilhava sua alma. Uma luz mais clara que dente de gente com sorriso sorridente. Uma luz tão clara e tão bela, que até ofuscava a Lua e a deixava uma fera, morrendo de ciúme e inveja, da beleza que desfilava sem cerimônia e sem espera.

Agora ele tinha certeza! Após anos de procura, havia finalmente encontrado o que tanto procurava. Um lugar, uma luz, um caminho, uma casa, uma lua, um lar. Enfim, um lugar pra repousar seus pés marcados de caminho torto e frio.

Bagunçado de pernas trêmulas, com uma das mãos das apontando em direção à descoberta e a outra levada ao peito nobre e confiante, ele gritou como há muito não gritava:

- TERRA À VISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


E os homens que dormiam sono tão leve quanto o próprio balançar do navio à deriva no mar levantaram-se todos, com olhos esbugalhados em interrogação. “O capitão deve estar louco, como pode avistar terra nova em uma hora dessas da noite?” - perguntava o cozinheiro. “Já disse que está passando da hora de jogarmos ele ao mar!” - gritava o timoneiro. “É verdade! Ele tem que ir para a rampa o mais rápido possível!” - sentenciava o marujo de blusa listrada.

Mesmo contrariados, eles foram ver o que havia sido motivo de tamanha comemoração. E viram! A luz de trombetas apaixonou também toda a tripulação. Os marinheiros cantavam e dançavam, batendo suas botas no ritmo do vento que ainda dormia distraído, roncando ventanias.

Uma festa de ano novo tomava conta do navio que parecia dançar valsa com as ondas, sem em hora alguma errar o passo ou pisar em seus pés. O destino estava certo e Capitão Vermelho havia finalmente reconquistado a confiança e admiração de seus seguidores.

Mas como arroz de festa não faz ruído, quando chegava aos arredores da recente descoberta, a embarcação foi pega por uma correnteza de águas bravas em fase de TPM. Os marinheiros se viram obrigados a jogar a âncora antes do tempo previsto a fim de evitar um desastre e o navio afundar tão próximo a terra firme. Com vários homens jogados ao mar e um corpo de marinheiros trabalhando pesado, o aristotécnico Doutor Encéfalos Causa aproveitou o momento de desespero para tomar conta da situação e iniciar seu reinado de cores cinzas e narizes gripados.

- Senhores!!! Vejam bem aonde o capitão tão estimado por vossas senhorias nos trouxe. Estamos à beira de um colapso e o Sr. Vermelho nada pode fazer para conter a vexamosa situação em que nos meteu a todos. Senhores, reajam!!! Levem-no a rampa!!!!

E num ato de atum, os marinheiros ensandecidos acorrentaram Vermelho e o colocaram frente a rampa, a não mais que dez passos em direção às águas nervosas do mar e ao abraço envolvente da morte.

- Esperem!!! Vocês não podem fazer isso comigo! Nunca lhes faltei com a verdade. E é cada vez mais crescente o sentimento que se instala em mim. Vamos vencer esse desafio e, finalmente, encontrar nosso lugar. Um lar recheado de bombons de morando com chocolate, sushis de salmão e muito amor...


- Mentira! Não vamos mais acreditar em suas bobagens! O amor é o placebo preferido dos sonhadores que não sabem viver a vida real como você!


- Pois então veja com seus próprios olhos! Ali está o placebo que suas úlceras o impedem de enxergar...


E nesse momento, a luz brilhante que à todos iluminava, brilhou ainda mais forte, cegando os homens e até mesmo as águas. O navio que quase afundava, parecia então flutuar, e seguia lento, em direção a terra firme e confortável. A luz mais clara que a lua, fez com que todos se calassem até chegarem em terra firme.


Quando o navio finalmente atracou, Capitão Vermelho foi o primeiro a desembarcar, indo correndo em direção à luz que os iluminara e já não mais cegava.

Chegando lá, encontrou à beira da praia, uma princesa tão linda, mas tão linda, que por instantes, sua lindeza o fez duvidar do que seus olhos míopes estavam vendo. Era uma princesa que iluminava as noites escuras com seus olhos de ver belezas simples e que havia acabado de salvar toda uma tripulação com eles.


- Quem é você?


- Meu nome é Linda. Princesa Linda! Vivo para fazer as pessoas se apaixonarem e depois disso, aproveito para fazer o que quiser com elas, como, por exemplo, dar voltas de bicicleta em torno de nossa ilha.


- Pois bem, Princesa! Você me tem nas mãos! A partir de agora ficarei aqui e prometo que darei quantas voltas forem necessários para sua total satisfação. Darei de voltas ao redor da ilha com você de bicicleta, de carro, a pé, plantando bananeiras, levitando ou até mesmo correndo e falando o dicionário na língua do pê.


E assim terminava ops, começava a história do destemido Capitão Vermelho, chefe de uma embarcação que nunca soube ao certo onde estava indo, mas tinha certeza que estava em um caminho certo.

Princesa Linda ficava, como o próprio nome já diz, cada dia mais linda, e o Capitão comemorava o tesouro que havia encontrado.

E assim vivia a vida, orgulhoso e feliz com seu coração...









 
sábado, julho 05, 2003
 
Alô alô, testando...
 
quinta-feira, julho 03, 2003
 
TRANSIÇÃO

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... - não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)

Cecília Meireles
 
quarta-feira, julho 02, 2003
 
Então fala, amor
fotografa o beijo de lingua
Fala Drummond.
Calado, com os dedos
a me revirar
e doendo a espinha.
Congela o céu de rosa
pára o tempo
que seja sempre
assim amém.
Deixa que te envio o Drummond
certo pra você contar.
Interrompe a frase
eu recomeço o ditado
te sopro ao ouvido o meu Drummond
Uma e outra vez.
Dito O Corpo ao seu ouvido
repito
de cor
sei. Só sei.
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

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