Página Preta
quarta-feira, maio 11, 2005
 
Esse é da Lenise Regina. O de baixo é ainda pensando nesse. E eu gosto de tudo o que essa moça escreve. E tem outras coisas legais dela e de outros no número novo da Revista Etcetera.



menos

Não calava vozes.
Dizia o silêncio. Em silêncio.
Traço. Mantra.
Medo despido de
medo.
De corpo e verbo ainda
letárgicos,
flocos-doces na boca
da criança.
Incômodo sorriso sem remorsos,
de quem também tinha borboletas
no coração.
Tesão apavorado ante o negror do
buraco.
Caberá tudo num só gozo?
 
terça-feira, maio 10, 2005
 
Antes


Naquele tempo o silêncio
era mantra
repetido até quando,
circular,
ciranda de gotas de chuva em viagem ao chão.
O silêncio, o chão.
Circulares, infinitos, salgados, temidos
curtidos como couro até perderem o sentido.
E no dito tempo, a mãe dizia:
"O sentido do céu
está embaixo do chão."
No momento rígido em que
a gota beija o chão.
 
terça-feira, maio 03, 2005
 
O Dia
Laura não sabe. Não sabe, não insista. “Sabe?”, ela grunhe. Laura não é disso mas os dentes atacados de bruxismo pressionam o cálcio branco, duro e estridente e fazem doer a mandíbula. A cabeça dói, os cílios trincam. Ela vomita sangue esfarelado sem conseguir dizer mais palavra. No fundo, só sangue trincado nas veias, giros no tronco como se vestisse um espartilho torcido, anunciando algum fim, algum mal. “Sabe?”, ela continua e vê que não pode parar mesmo com todo o mal-estar que aqueles pensamentos provocavam somados ao calor úmido do fim da tarde. Só a mente ociosa pressionando o crânio. Laura cuspia. Grunhia, trincava os cílios, apertava os dentes. “A água”, ela disse, “a água me entristece, mas eu fecho os olhos e sossego. A tristeza me acolhe”. O sangue torcido em espiral invadindo a garganta. Sua mão estava sobre a mesa e era limpa. Seus dedos frios, desfalecidos sobre a fórmica. A água como que salgada cheia de calafrios e águas-vivas queimando os olhos, rondando as sombras, “a água” - ela pensou - “a água permite que eu doa sem contrair os músculos”. “É muito difícil manter todos os músculos relaxados, sabia?”, ela insiste. Vista assim a meia-distância, era como se Laura começasse a morrer pelas extremidades. Com as mãos caídas sobre a mesa, ela explicava, enumerava motivos, todos inquestionáveis, compreensíveis, não havia como discordar. Não havia compreensão. “Não há”. Como se fosse possível ser implacável, como se houvesse coragem. Não há.

Para a menina sentada a frente dela, nada daquilo parecia inteligível. Os lábios se moviam e a menina se restringia a achar tudo muito bonito: aquela mulher, aquele cheiro, a fivela no cabelo, a paisagem atrás. Não sabia o porque do choro, do sorvete, da tarde fria e suja sobre a calçada portuguesa. Nem porque é que olhava a sua volta com cara de pena enxergando pessoas carregando cansaço e certeza de morte a cada próximo passo sobre a calçada portuguesa. A certa altura desistiu de tentar entender e se distraiu reparando as janelas de um edifício e picando os guardanapos e palitos de dentes. Na menina não havia um grito aterrorizado.
Ela, afinal, era parecida com Laura: chorou um pouquinho, calou-se e dormiu sobre a mesa com gosto de menta morna nos olhos.
Foi quando chegou em casa que Laura pensou, em frente ao espelho, reparando de muito perto alguns aspectos de sua expressão. Laura pensou que suas unhas estavam vermelhas, que há uma ruga, que ela precisa tirar alguns pêlos do rosto. Que, afinal, não adiantava mesmo pensar. E, se chorasse, logo ela se distrairia com a imagem do par de lágrimas correndo as bochechas. Questões morais não faziam mais sentido e Laura andava. No chão boiava a imagem líquida de um sonho errado. Triste. Tinta de mais na palavra escrita devagar. Cada palavra se encarregava de alienar seu sentido diante dos olhos de Laura mas a cada passo ela não caía. Porque pisava, mas não via o chão. “Não sei de nada. Não li o livro”. Estava vazia de vontade e de desejo diante de cada amanhecer.


O dia seguinte nasceu gélido. Mesmo sendo outono, era de se estranhar porque foi de repente que o tempo virou. O vento voltou às mangueiras e trouxe o frio dos morcegos que comem frutas até os ossos. Quando amanheceu, havia ainda uma esperança de azul.





















Pelo Meio do Caminho de NuvensLivre como uma água-viva. Havia tudo em abundância, mesmo crianças. Livre de querer, olhava nuvens a cinco metros de distância. Por um tempo, ela foi assim. Libertina, sossegada, sábia como uma água-viva, toda de água salgada toda água flutuando água vivendo água. Não se concentrava. Não lia. Não fazia. Não saía do lugar. Quando se movia era porque o mundo se move, lento como um Titanic e perplexo diante de cada revelação do sol. Não achava as palavras. Não pensava antes de falar. Não olhava nos olhos, não sabia apertar mãos. Não causava boa impressão. Avisava: “não sou simpática. Não me espere, não me guarde. Não sou como você pensa”. Temia os versos de sua cabeça. A cabeça de mentiras deslavadas que percorrem os neurônios de todo o corpo. Impulsos elétricos, mentira. Essa dor é mentira. A coceira é mentira. O mamilo enrijecido é mentira. O sangue dormente no peito é mentira. É mentira o sopro na nuca. O frio. É mentira a sensação que corre as pernas, a espinha, enche o crânio, ferve a face e fecha os olhos diante da palavra. Não rimo, minto. E na cabeça quase podia enxergar as células se multiplicando infinitamente, se transformando em cabelos, dedos, covinhas ao lado do sorriso, pele, olho, ralado de muro de chapisco, sujeira pra tirar com bucha vegetal. Quase podia ver a respiração crescer, o corpo ocupar mais da metade da cama, sua vida criar idéias, pensamentos, jóias, bilhetes, músicas. Mais que espanto, mais que absurdamento, mais que fim de sinfonia cheia de pratos que o percursionista levou a obra inteira pra tocar.













Ela sorriu, ela sorriu, ela brincou, ela dançou, pendurou no lustre, rolou, caiu, fugiu. Ah, ela dançou, dançou, dançou e seus braços ocuparam todos os cantos do quarto do hotel. Ela abriu a janela, os braços e dedos começaram a crescer, se enrolaram em cada quina do quarto, debaixo da cama, atrás do lustre. Mas o chão suou, ela deu cambalhotas e rapidamente se viu presa entre a TV, a mesa de anotações, a cama, o armário e o banheiro. Escolheu o banheiro, se trancou no espelho porque dava a sensação de ter pra onde ir, de ter gente pra olhar. Olhou o próprio rosto, achou uma pinta pequenininha no lábio esquerdo, se lembrou do parto, de ver a pinta no lábio do bebê e afirmar: é minha. E não era. Laura é que era daquele bebê. Laura pertencia àquele bebê e só sairia do pé da cama quando ele permitisse. “Quem cala consente”, ela pensou antes de adormecer sobre mármore da pia.


















O sonho

Deixa eu olhar dentro da bolinha do seu olho pra te contar uma coisa. O que? (o olhar) Eu te amo. Eu também te amo. (O olhar brilhando) Está triste? (ela soluçou muitas vezes). Somos duas nesse mar, somos nossos cabelos nesse vento. Amo você, escolho seu nome a cada chamado, chamo seu cabelo liso a cada noite, querida. Boa noite.




















Depois de alguns dias a vida virou tentativa. Para Laura, o momento em que os dedos entravam lentamente nos chinelos de manhã era o mais longo. Durava cerca de duas horas. Os centímetros se arrastavam sob os pés e ela fixava os olhos pra não perder a concentração. Ao meio-dia os pés chegavam aos chinelos. Ao meio dia ela erguia a cabeça e se sentia profundamente cansada. Ao meio-dia havia o barulho do mar doze andares abaixo e depois de evitar a janela Laura se animava.

An attempt to
Fazer a unha
um apartamento
misturar o macarrão ao molho de forma homogênea
Abrir a correspondência
Não leio. Nem extrato
Nem saudade
Não sei disso.
Não pergunte, fique
Não há pedido
Não há sim
Ver televisão atéééé
Vou sair da cabeça, da casa. Entenda:
Entenda:
a vírgula reverbera
o hiato dos olhos
unhas crescidas
tempo.

O Encontro
A dor do encontro foi definida em corte cirúrgico com um único telefonema, sem resistência, sem perguntas. Tão longa, tão longa, tão longa a lâmina. Amanhã, onde a cidade deixou de existir. O comprimento do corte asséptico na retina. O amor. O mundo penetrava pela fissura no escuro dos olhos. O corte profundo. A terra. A tenra gelatina vazada, a dimensão da ferida aberta, os olhos mediam 24 anos, os olhos agora são fixos. O ventre vazio. O coração agora é espuma e as bolhas ferventaram e transbordaram dentro do tórax. Laura chegou e avistou o vulto da moça triste na janela. A sombra no muro de chapisco. A moldura entristecia o vulto da moça. Não há motivo, não há moldura, a sombra no muro triste de chapisco. E mesmo a sombra, ela não há. O vulto do muro de chapisco gritado da janela não há tom de azul assim no céu. O muro da moça na janela triste, só há o preceito da tristeza, o muro chora chapisco, receita familiar, implacável. Vontade.
(Pausa. Laura desembrulha o papel azul do bolso e estica sobre a mesa. Câmera no papel, legível)
Só há a pergunta. Calada, Laura sentiu pena da sombra dos próprios cílios na parede e entregou o bilhete em letra caprichada e papel de carta azul.













O Bilhete
“É que eu sonhei com a água, filha. Eu sonhei com o mar revolto. Azul-sombrio e o cheiro de rocha. Era duro como rocha, o meu sonho. Ah, filha, era assim: você abandonava o bebê ao mar. Você o deixava ir e me contava com expressão inocente, de quem desconfia que fez algo de errado. E o bebê era meu, filha, veja, eu sonhei. O nome era Francisco. Você disse que ele quis. E eu procurava por ele no mar. Por toda a baía. Talvez desse tempo. Você havia pintado seus cabelos de azul. Por todo canto e as ondas de azul-petróleo eram cada vez mais sombrias. Filha, a água ia acolher o meu bebê. Ele também era meu filho! E o acolheria tão completamente que ele desejaria afundar. O mar era denso, seu nariz e sua boca estariam travados, ele não iria mais querer respirar. Ele fecharia os olhos e, embrulhado na manta de linha de algodão, afundaria. Você sabe, eu gritei, era meu filho. E eu não quis que você escutasse o grito, menina. Porque você, afinal, também é minha filha! Filha! O menino afundava e todos me consolavam porque eu sou mãe. E eu já temia encontra-lo. Eu não queria ver seu corpo boiando, preferia sonhar que o mar o estava ninando e que o acolhia e escurecia seus olhos como o sono chegando manso em meus braços. Preferia sonhar que ele não sentia frio.”
 
A esse ponto tudo parece antigo. Eu mesma pareço tão distante. Eu mesma estranho meu perfume, minhas calças, meus pés. Eu mesma desmancho os navios e naufrago refazendo frases.

ARCHIVES
09/01/2001 - 10/01/2001 / 10/01/2001 - 11/01/2001 / 11/01/2001 - 12/01/2001 / 12/01/2001 - 01/01/2002 / 01/01/2002 - 02/01/2002 / 02/01/2002 - 03/01/2002 / 03/01/2002 - 04/01/2002 / 04/01/2002 - 05/01/2002 / 05/01/2002 - 06/01/2002 / 06/01/2002 - 07/01/2002 / 07/01/2002 - 08/01/2002 / 08/01/2002 - 09/01/2002 / 09/01/2002 - 10/01/2002 / 10/01/2002 - 11/01/2002 / 11/01/2002 - 12/01/2002 / 12/01/2002 - 01/01/2003 / 01/01/2003 - 02/01/2003 / 02/01/2003 - 03/01/2003 / 03/01/2003 - 04/01/2003 / 04/01/2003 - 05/01/2003 / 05/01/2003 - 06/01/2003 / 06/01/2003 - 07/01/2003 / 07/01/2003 - 08/01/2003 / 08/01/2003 - 09/01/2003 / 09/01/2003 - 10/01/2003 / 10/01/2003 - 11/01/2003 / 11/01/2003 - 12/01/2003 / 01/01/2004 - 02/01/2004 / 02/01/2004 - 03/01/2004 / 03/01/2004 - 04/01/2004 / 04/01/2004 - 05/01/2004 / 05/01/2004 - 06/01/2004 / 06/01/2004 - 07/01/2004 / 07/01/2004 - 08/01/2004 / 08/01/2004 - 09/01/2004 / 09/01/2004 - 10/01/2004 / 10/01/2004 - 11/01/2004 / 11/01/2004 - 12/01/2004 / 12/01/2004 - 01/01/2005 / 01/01/2005 - 02/01/2005 / 03/01/2005 - 04/01/2005 / 04/01/2005 - 05/01/2005 / 05/01/2005 - 06/01/2005 / 06/01/2005 - 07/01/2005 / 07/01/2005 - 08/01/2005 / 08/01/2005 - 09/01/2005 / 11/01/2005 - 12/01/2005 / 01/01/2006 - 02/01/2006 / 02/01/2006 - 03/01/2006 / 03/01/2006 - 04/01/2006 / 04/01/2006 - 05/01/2006 / 05/01/2006 - 06/01/2006 / 08/01/2006 - 09/01/2006 / 09/01/2006 - 10/01/2006 / 10/01/2006 - 11/01/2006 /


Powered by Blogger